O Último Arconte ♄
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A forma sem forma é forma verdadeira. A forma verdadeira não vem dos frutos de práticas ou caridade realizadas enquanto se debruça sobre as aparências. Ela vem do retorno à pureza e simplicidade prístinas, esquecendo objetos e acabando com sentimentos. Quando você encontra a forma verdadeira, cada ação, cada quietude, é realidade natural; você espontaneamente alcança a aceitação da verdade da não originação.

-- Liu Yiming, Comentário em Wuzhen Pian.
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HYPERBOREA E ATLANTIS

Sumário:

Introdução
I. Apontamentos astronômicos
II. Thule
III. Hyperborea
IV. Atlântis
Bônus: A Irlanda

Introdução

O assunto ciclos cósmicos foi imensamente prostituído por grupos modernos e que, sob o entusiasmo por civilizações antigas, cambiou seu significado simbólico por um corpóreo e profano. A redescoberta do tema se deve ao ocultista Fabre d'Olivet em sua obra Histoire Philosophique du Genre Humain, que de maneira mais ou menos profana, repopularizou o assunto. Aqui trataremos de termos básicos da geografia ligada a esse tema e explanaremos - na medida do possível e de nosso entendimento - sua origem textual e seu significado.
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HYPERBOREA E ATLANTIS: I. Apontamentos astronômicos

A fim de que o simbolismo seja compreendido, precisamos olhar para o céu e ver a movimentação do Sol. Nasce ao leste e morre ao oeste, porém, para além do ciclo diário, possui um ciclo anual. No solstício de verão, ao meio dia, no hemisfério norte, acima da linha do Equador, está acima da cabeça no observador ao meio dia; porém, no solstício de inverno, está o mais ao norte possível, nascendo mais ao norte e se ponto mais ao norte. Por essa razão, a hyperborea é o lar de Apollo Hyperboreos.

Quando ao norte, as noites são mais longas e é inverno. Conforme caminhamos ao norte, mais as noites ficam longas. Isso sempre foi sabido, mas notoriamente anotado por Euclides em sua obra "Fenômenos".

O norte é então relacionado ao frio e à escuridão, é a direção de Bóreas, o vento norte invernal. Paradoxalmente, é relacionado com o Sol, pois para lá, no Inverno, ele se esconde.

Se se estiver no polo norte, no solstício de verão é sempre dia, nos equinócios, sempre crepúsculo/alvorada, onde o sol se põe lentamente ao decorrer do ano até desaparecer, descendendo até o solstício de inverso, quando volta a ascender. Um dia é, portanto, um ano. Por isso Hyperborea é tida como uma terra perene ou semi-perene.
HYPERBOREA E ATLANTIS: II. Thule

A origem escrita do termo é traçada de Ctesias de Cnidos (sec. V a.C), por meio de uma citação de Sérvio, o Gramático. Das especulações etimológicas, as que nos chamam a atenção são aquelas que visam traçar esta palavra de alguma fenícia ou cartaginesa cujo significado é “trevas”, “escuridão”.

É utilizado para se referir a uma ilha ao extremo norte, no Mar Crônida, que Phytheas de Massália supostamente teria visitado. Apesar do termo poder ser utilizado para se referir à Hyperborea, não se trata da terra referida por Phytheas, pois nesta terra, a noite dura duas ou três horas, em Hyperborea não há noite.

René Guénon em seus artigos presentes no livro "Ciclos Cósmicos e Formas Tradicionais", aponta que Thule pode ser referir tanto a Atlantis, quanto a Hyperborea, desde que se trate de uma terra ou ilha ao norte.
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HYPERBOREA E ATLANTIS: III. Hyperborea

O nome significa o que está para além ou para cima de Bóreas, o nome Bóreas pode vir do proto-eslávico *gora, que significa "montanha", se referindo à "montanha de Bóreas", ou às montanhas da Trácia, ao norte da Grécia.

Quer dizer especificamente uma terra polar ao extremo norte, hoje gélida e inóspita, mas onde lar de um povo divino, os hyperboreos, correspondentes à raça de ouro de Hesíodo. Um povo cujos corpos eram sutis e não conheciam a corrupção, mas manifestavam limpidamente toda a sabedoria divina, em microcósmo.

A idade de ouro acaba quando o Sol está no horizonte, onde o homem perene toca tem seu primeiro contato com o Devir, começando a Era de Prata. Na Era de Bronze, já é inverso e Hyperborea é inabitada. O homem agora conhece o Sol como nascendo ao leste e morrendo ao oeste diariamente, conhece, portanto, geração e corrupção.
HYPERBOREA E ATLANTIS: IV. Atlantis

Diz respeito à terra dos filhos de Atlas, que específicamente se localiza ao oeste, após as colunas de Herakles (estreito de Gibraltar). Porém o termo pode ser utilizado de forma extensa para podermos falar de duas Atlanteis, uma setentrional (ao norte) e outro meridional (ao oeste).

Quando falamos de uma Thule Atlântida, só falamos a respeito da setentrional, atribuída à idade da Prata, mas não confundida com Hyperborea, que neste caso, se refere apenas à Era de Ouro. Essa Atlantis é situada no mar crônica e na Era do Bronze é obscurecida, sendo regida pela tirania crônica, da qual escapam, de acordo com Diodoro Sículo, os Olimpianos.

A Atlantis meridional é a que Platão elabora em Crítias. Ela é correspondente à Era do Bronze e é lar de um povo marcial e violento, como Proclo nota no início de seu comentário ao Timeu. Trata-se de época análoga à antedeluviana do Antigo Testamento, sendo o povo violento e que domina as artes, como o Atlântes aqui, os Cainitas lá, apesar de que estes possuem uma conotação muito mais negativa no mito hebreu que os Atlântes no mito """Egípcio""" (grego kek).

Após sua queda por dilúvio, seus sobreviventes emigram para o leste.
HYPERBOREA E ATLANTIS: Bônus: A Irlanda

É clássica candidata para ser Thule, porém tem outro símbolo, também interessante. É uma ilha que representa um paraíso na terra ou imagem do Éden, pois teria sido uma transferência do Éden do sudeste ao noroeste após a queda do homem, sendo como um espelho daquilo que teria nesse paraíso. É uma terra extremamente fértil, onde não nascem (de acordo com o mito) cobras e outras pragas. É, porém, de certa forma, mais indigna que o Éden, que representa a perfeição terrena e não precisa de cultivo (característica da era de bronze), enquanto a Irlanda precisa. Apenas no reinado de Lugh, o Thuatha De meio-fomoriano responsável pelos ciclos sazonais, através dos fomorianos, foi possível a descoberta da agricultura pelos Thuatha De.
A Imortalidade a ser buscada

"Se fores estudar a imortalidade, estude a imortalidade celestial. Apenas o Elixir Dourado vale a pena."

- Zhang Boduan, Wuzhen Pian.

"Se renascerdes na roda que gira [i.e. samsara] sem [ter em si] confusão [i.e. ser sujeito a ilusão], então serás [um] imortal divino [神仙, semelhante a 天仙 imortal celestial]."

- Yuan Shi Wu Liang Du Ren Shang Pin Miao Jing, 53
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Roman de la Rose

Texto importantíssimo para a então esquecida e valiosíssima literatura medieval. O poema canta um sonho onde o protagonista prossegue por diversos níveis de um claustro (o jardim murado), até encontrar, em seu seio, a flor que procurava, sede de toda a Beleza, que, enfim, o liberta do sonho.

[...] apesar de meus inimigos [...] colhi a flor da bela roseira frondosa. E então conquistei minha brilhante flor amarela. Neste dia despertei.


- Roman de la Rose, Guilherme de Lorris, o Sermão do Gênio.
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Fé e Gnosis

Pistis e Gnosis é uma dicotomia geralmente traçada por estudantes dos frutos do vigoroso pensamento alexandrino que abarcou cristãos, hermetistas, platonistas e gnósticos na antiguidade tardia.

Colocam, de um lado, aquele que conhece a Deus, o gnóstico, e do outro, aquele que meramente acredita em Deus e espera por Sua Graça, o fiel. Daí julgam que, pelo conhecer ser superior ao crer, o primeiro supera o segundo e que, portanto, as tradições "písticas" são inferiores às "gnósticas".

Trata-se de um julgamento pautado em aparências. Para os platônicos que, seguindo os oráculos de Juliano, o Caldeu, e seu filho, e o que Platão afirma n'As Leis, a Fé é aquilo que se tem por quem estamos comungados com, e justamente por isso é uma virtude preciosíssima, pois é unitiva. Não só está unido o que crê, mas, e é nesse sentido que Platão e seus discípulos expõem, eminentemente aquele que tem absoluta confiança e amor ao seu amado, sendo nutrido pela verdade nesse processo, é um verdadeiro enlace.

Por outro lado, pseudo-Dionísio rebaixa a Gnosis e proclama uma Agnosis, um supraconhecimento, aqui, a gnosis está equacionada com a Theoria ou Iluminação do Homem pelas Energias Divinas, de maneira que a Fé, em sua realização final estará para além disso, sendo a Gnosis preparação para ela.

Aquele que não conhece a verdade não pode verdadeiramente ter Fé; pois, naturalmente, a verdade precede a Fé (i.e em uma perspectiva ascencional, a verdade [aletheia] é inferior à Fé). (Marcus Eremita, Sobre a Lei Espiritual, 110)


Os primeiros de todos os obstáculos é a ignorância; em seguida a falta de Fé. (Marcus Eremita, Sobre aqueles que creem ser justos pela obras, 105)


Agostinho entenderá a Fé de maneira dupla: primeiro em seu ato principal, o ato de crer, ultimamente da mesma forma que Marcus, sendo o termo médio entre o ato de Fé e a Fé mesma o conhecimento. Define isso ao comentar Paulo quando este fala que enquanto no corpo, devemos caminhar não pela visão, mas pela fé (2Cor 5:6-7), dizendo que esta fé dita por Paulo é princípio para a iluminação/theoria (Com. em João XXII, 2 c/c XXXIV, 7)

Muitos também dizem, erroneamente, que Fé se trata de sentimentalismo ou de um aspecto infrarracional ou até mesmo racional-teológico e que não toca o nível suprarracional ou metafísico, a estes contrastamos Diadoco de Photike, que, em suas definições, define Fé (pistis) como conhecimento apatético de Deus; e conhecimento como perder ciência de si através da ida para Deus em êxtase. Ainda, diz que a Fé é energizada pelo amor (ágape) e nutrida pela Theoria (Do conhecimento espiritual e discriminação, 7-8). Concepções que necessariamente extrapolam esses dois níveis, como expôs também J. Borella em sua obra Amour et vérité: La voie chrétienne de la charité.
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[Os anjos] são nossos professores, assim como são uns dos outros; pois os inferiores são ensinados por aqueles que os supervisionam e possuem mais luz, e assim cada ordem é iluminada desde a de cima até aquela [ordem] que possui a Santíssima Trindade como Mestre. E além disso, esta primeira ordem em si diz abertamente que não é instruída por si mesma, mas tem Jesus, o Mediador, como seu Mestre, de Quem recebe e então transmite para aqueles abaixo dela.

- Santo Isaque, o Sírio. Hom. 28.
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O Último Arconte ♄ pinned «Qual assunto te interessa mais? (Tema do próximo artigo)»
Manifesta-se, com efeito, a ira de Deus, do alto do céu, contra toda impiedade e injustiça dos homens que mantêm a verdade prisioneira da injustiça.

Rm. 1:18.
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União e aniquilação - 1/2

A palavra “fusão” ou, como diz São Macário Magno, a união de nosso espírito com o Espírito de Cristo, ou seja, Sua Divindade, não deve ser entendida de tal forma que a independência de nossa alma ou sua consciência se perca, afundando na Divindade como uma gota no mar, e se tornando uma, fundindo-se na unidade da Natureza Divina. Não, você não pode fazer isso. Mas para que toda a alma, unindo-se - no sentimento do coração - com todos os seus poderes, pensamentos, sentimentos, desejos e sensações, seja penetrada nessa unidade reunida pela presença de Cristo, como o raio de sol penetra no vidro.
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União e aniquilação - 2/2

Isso nada mais é do que a habitação interior de Jesus Cristo em nosso coração, quando ouvimos Suas palavras, Sua presença e até mesmo, se assim posso dizer, Sua respiração, e somos “um espírito” com Ele. Mas, ao mesmo tempo, o homem se reconhece como uma pessoa completamente separada; sua personalidade e autonomia não são perdidas de forma alguma e sua liberdade não é suprimida, mas apenas sua alma, em todos os seus poderes, deve se elevar ao grau do ser mais elevado - o bem-aventurado, que é o objetivo de todo Ser racional - anjo e homem.

Hilarion, Nas Montanhas do Cáucaso, VII.
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União e aniquilação - Comentário

O objetivo final, nessa perspectiva, não é um retorno total à divindade. Deus criou o homem e o insuflou com seu Espírito. Sua alma e corpo seriam destruídas se se unissem com Deus, seja porque um vaso não pode conter o Oceano, ou porque sua natureza a levaria à morte: "Se a natureza, que é inclinada à aberração, recebesse a Verdade, morreria em razão da impetuosidade de sua aberração" (Santo Isaque, o Sírio, Hom. 27), ou à ilusão, pois, ao ter a visão de Deus negada pela nuvem negra do desconhecimento, criariam imagens de Deus, e as faria seus ídolos.

Em seu Espírito, o homem alcança sua união completa, pois ser um com o Cristo é ser um com Deus, "para que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós" (João, 17:20-21).

Mas em sua alma e corpo, isso não acontecerá, salvo indiretamente. Isso não significa que a união não seja total, pois o corpo, a alma e o Espírito são um na medida em que sua vontade é una, este é o significado do raio de sol penetrando no vidro. O Espírito tem todos em si, e todos voltam ao espírito pela transformação da vontade (Evágrio, Epistola a Malênia, 26).

Agora, a extensão da criação divina é a manifestação da Sabedoria. Ela se manifesta na Igreja, pois Paulo (Ef. 3:8-10) diz:

A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo e de pôr em luz a dispensação do Mistério oculto desde os aeons em Deus [...] para dar agora a conhecer [...] por meio da Igreja, a multiforme Sabedoria Divina.


Cristo é a Cabeça da Igreja, a Igreja é seu corpo. Cristo é a Unidade, a igreja é a multiplicidade. A perfeita alma de Cristo, o primeiro ente em dignidade de toda a Natureza, a Alma Perfeita, manifesta no corpo (a Igreja) a Luz Incriada da Trindade.

A manifestação divina em todos os níveis ontológicos é o florescimento, na criatura, da perfeição divina e o objetivo final da vida cristã. Tudo será submetido a Deus para que tudo possa ser feito perfeito "para que ele seja tudo em todos" (1Cor. 15:28), isso é, para que tudo seja divino. Por essa razão, não faz sentido dizer que haverá uma aniquilação em Deus, mas que as almas serão humilhadas e unidades em Espírito e logo exaltadas e trarão perfeição às Eras, se tornando as criadoras de suas próprias eras, como Evágrio disse:

Quando o Nous tiver recebido a iluminação (theoria) da essência, então será chamado deus (theos), pois também será capaz de plasmar variadas mundos/eras. (Evágrio, K.G. V, 81)

Será chamada "deus" porque, com a mesma luz que recebe d'Ele, iluminará o corpo e as coisas do corpo.
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Sophia de Kiev

"A Sabedoria (Sophia) construiu a sua casa, talhando suas sete colunas. Abateu seus animais, misturou o vinho e pôs a mesa. Enviou suas criadas para anunciar nos pontos que dominam a cidade: "Os ingênuos venham aqui; quero falar aos sem juízo; Vinde comer do meu pão, e beber do vinho que misturei. Deixai a ingenuidade e vivereis, segui o caminho da inteligência" (Provérbios, 9:1-6)