O Último Arconte ♄
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[A Tradição Sagrada diz] sobre o homem: ele é um com o próprio Criador do Céu e da Terra. O homem não é apenas a mais alta criatura da natureza, mas é um filho de Deus, colocado no mundo visível como um filho na casa do seu Pai, o Criador do visível e do invisível. Aquele que é criado à imagem de Deus está também destinado à semelhança de Deus. Como é definitiva a palavra da Escritura!

Portanto, se o homem ocupa um lugar tão alto entre as criaturas de Deus, é como um verdadeiro cidadão dos dois mundos - o visível e o invisível - como a união do Criador com a criatura, o templo da Divindade e, portanto, a coroa da criação; é única e essencialmente porque em sua natureza espiritual o Altíssimo teve o prazer de introduzir em seu espírito um senso ou pensamento de Sua infinita Divindade, que é colocado em seu espírito e serve como uma fonte eterna atraindo-o para seu centro mais alto.

- Hilarion (Domrachov). Nas Montanhas do Cáucaso, 23
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Behemoth e a Teologia Alexandrina

Orígenes equaciona a causa da queda com o resfriamento da alma:

assim como Deus é fogo, que os anjos são a chama de fogo e que os santos ardem em espírito, assim, ao contrário, daqueles que caíram do amor de Deus , e certamente esfriaram na sua caridade por ele, deles se diz que se tornaram frios (Orígenes, Peri Archon, II, 8:3)


O Corpus Hermeticum o faz o mesmo, pois o fogo é o mais luminoso e sutil dos elementos, sendo quente, enquanto a lama primordial é fria:

a alma, vindo a ser limpa dos indumentos, sendo divina por natureza, recbe um corpo de fogo [...] o nous [...] também tem corpo mais sutil de todos os elementos: o fogo (CH. X, 16-18)


Aquele que tem corpo ígneo não pode ocupar corpo terreno, portanto o primeiro tipo de animal criado pelas almas é o pássaro, animal aéreo, mas o último, um réptil, animal de sangue frio:

Com o resíduo frio que tinha se precipitado devido a seu peso, as almas produziram uma nova espécie: os répteis (Kore Kosmou, I, 23)


O réptil, portanto, ocupa o último degrau da criação, Deus "proíbe-lhe a região das montanhas" (Jó 40:29). O mais frio e obscuro é posto abaixo. Seu caráter é telúrico, mas relaciona-se fortemente com a água.

Orígenes identifica Behemoth com Lúcifer, por ser "a primeira obra de Deus" (Jó 40:19; Peri Archon, I, 5:5). Como Behemoth é tentador -- "Virá a ti com muitas súplicas, ou dirigir-te-á com palavras ternas" (Jó 40:27) -- Evágrio o colocará como causa do movimento:

Aquele [Behemoth] que foi criado para ser o brinquedo [ou motivo de chacota] dos anjos [Jó 40:19; 41:25] de Deus, não seria ele o iniciador do movimento; e no princípio transgrediu as fronteiras da maldade, e por isso foi chamado de princípio das criaturas [ἀρχὴ πλάσματος Κυρίου], do Senhor? (K.G. VI, 36)


Não contradizendo Orígenes, ainda interpreta que tenha sido criado como todas as outras naturezas racionais -- quente e na unidade -- sendo o primeiro a transgredir. Porém o texto deixa implícito se ele teria, após isso, atiçado as criaturas ao movimento. Isso se dá pela a ambiguidade do texto grego, onde ἀρχὴ é o primeiro em relação a ordem, mas também significa origem, como em "princípio". Seria possível especular até que ponto Behemoth como princípio se relacionaria à natureza úmida do hermetismo, mas isso não nos cabe aqui.

Em conclusão, frieza, no contexto alexandrino, tanto hermético quanto origenista, significa escuridão e algo afastado de Deus, daí que os seres mais baixos são identificados como répteis e afins, e o fogo, em sua forma sutil, será reservado para o hyperouranion. Mesmo Jâmblico o reservou, em sua forma pura e sutil, a entes de maior dignidade (DM. II, 4).
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Na pureza e tranquilidade,
Gradualmente adentre o verdadeiro Dao.
Quando o verdadeiro Dao é adentrado
Está realizado.

Mesmo que falemos de "realização"
Não há nada a ser alcançado.


- Qingjing jing
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O Nous do Todo é Demiurgo de todas as coisas, mas o Nous do homem é Demiurgo somente das coisas sobre a terra; pois, nos homens, estando desnudo do fogo, sendo humano pela ação de habitar, o Nous [humano] não pode criar as coisas divinas. (C.H. X, 18)
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As coisas divinas aí referidas são os Deuses Celestes ou os planetas. Em outro lugar (Logos Teleios, 23) afirma que o homem pode sim criar coisas divinas, e se refere a essas como Deuses Terrestres, que são as estátuas animadas nos templos. Estas, no entanto, são receptáculo da energeia de Deuses, daemons, heróis, etc., possuindo uma dinâmica diferente dos Deuses Celestes, daí que o texto do C.H. não necessariamente contradiz o Logos Teleios.
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O Escudo de Aquiles forjado por Hephaistos

Eis vai-se aos foles, Vira-os ao fogo, e ordena-lhes que operem.
Eles em vinte forjas respiravam, Ora com sopro lento, ora apressado,
Segundo o que há na mente e quer o artista.

[...]

Sólido forma o escudo, ornado e vário De orla alvíssima e triple, donde argênteo
Boldrié pende, e lâminas tem cinco. Com dedáleo primor, divino engenho,
Insculpiu nele os céus e o mar e a terra; Nele as constelações, do pólo engastes,
Orion valente, as Híadas, as Pleias,
A Ursa que o vulgo domina Plaustro,
A só que não se lava no Oceano.
Duas cidades povoou.

[...]

Completo alçando o arnês, à mãe de Aquiles
O deus o oferta; ao gavião parelha,
Toma as Vulcânias coruscantes armas,
Do alto nevoso Olimpo se despenha.

Homero, Ilíada, XVIII
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O bom poeta não pode compor bem, a menos que conheça o seu assunto, e se não possuir tal conhecimento, jamais conseguirá ser poeta.

- Platão, República, X.
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Os poetas e a República - Razão da Expulsão - Parte 1

A seguir Platão critica essa visão, afirmando que os poetas são imitadores. Coloca 4 sujeitos nesse livro, o Demiurgo, aquele que fabrica as formas naturais; o fabricador (ποιητής), aquele que, tendo em mente as formas naturais e conhecendo seu funcionamento, as fabrica na matéria; os imitadores, que imitam a obra dos fabricadores através da arte (como é o caso do artista que pinta um carpinteiro e suas obras, desconhecendo a carpintaria); os que fazem uso dos objetos fabricados.

O flautista faz uso da flauta, portanto detém o conhecimento do que é a flauta e de para o que é a flauta. Ele então, como um mensageiro (ἄγγελος), informa o fabricante de como a flauta fabricada é boa para ele, este, tendo a crença no fabricante de que a flauta feita desse ou daquele jeito é boa, fabrica de acordo com isso. Se o flautista realmente conhecer, o fabricante de flautas terá uma crença verdadeira (πίστιν ὀρθήν) e será assim indiretamente iluminado pelo luz do conhecimento através do flautista, assim como, em Kallipolis (pólis da República de Platão), o governado é iluminado pelo governante.

O imitador não teria lugar nessa polis, pois não seria de forma alguma iluminado pela luz do Sol do conhecimento, mas teria seu saber todo baseado nas impressões das formas sensíveis.
Os poetas e a República - O Verdadeiro Poeta - Parte 2

"Poeta" é um termo ambíguo, ao mesmo tempo que denota "Homero", também denota um "feitor", assim, aquele que fabrica flautas é chamado "αὐλοποιός".

Platão faz um jogo de palavras que me parece proposital nessa livro. Pois nos dogmas apresentados do Simpósio, do Fedro e do Íon, onde o poeta é inspirado por um mensageiro (ἄγγελος; angelos, anjo; assim como o utilizador é o ἄγγελος do fabricante de flautas) e então revela as verdades divinas em suas palavras, certamente não está limitado à sensibilidade, mas o conteúdo de sua mania, que é loucura para os artistas imitativos, é análogo à crença dos fabricantes de flautas nos flautistas. Essas crenças constituem os dogmas e os ritos dos homens.
Os poetas e a República - O Demiurgo - Parte 3

No Timeu, interessantemente, o Demiurgo é tido como o Fabricador do Mundo. Desempenha essa fabricação observando o Paradigma por meio do qual plasmará todas as coisas.

No livro em questão da República, Platão deixará implícito que o demiurgo só pode sê-lo no que tange ao que existe, mas que, mesmo aquilo que existe, é aparência. Uma fração daquilo que é completo. Assim são não só as coisas sensíveis, mas também as ideias naturais nas mentes dos artesãos mundanos fabricadas pelo Demiurgo. E que, nesse sentido, serão imitação da imitação.
Os Poetas e a República - Conclusão

A passagem em questão não deve ser interpretada conforme sua aparência, mas seu conteúdo comunica com diversas outras ideias presentes na obra platônica.

Episteme e Doxa são respectivamente atribuídas ao utilizador e ao fabricador. Sendo o utilizador o conhecer não só porque sabe do funcionamento do objeto, mas da "utilidade para que o destinou a natureza ou o artífice" (601d), ou seja, a finalidade/completude do objeto.

São analogáveis, enquanto conhecer e crente, ao governante e governado. O poeta, o profeta ou o místico inspirado que tem ciência daquilo que canta ou desvela, é um conhecedor, e portanto, um filósofo, mas também um demiurgo, pois este conhece sua obra.
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Kosmokrator

No ícone de pentecostes, há no centro, mas abaixo, uma figura desconhecida, um rei, desprovido de auréola, com doze pergaminhos. Esse rei é o mundo [Rei Kosmos], que será ceifado pelos doze apóstolos, que se dirigirão a doze nações (a todas as nações do mundo).

Essa figura parece predatar o cristianismo, como no ícone que enviei aqui anteriormente retratando o escudo de Aquiles, estando Helios no centro. O título Kosmokrator também se aplica a Alexandre.
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Dioniso, o Intelecto Universal

Se há uma Alma do Mundo e ela é perfeita, certamente é dotada de Nous, donde supomos a existência de um Intelecto do Mundo. Esse Intelecto é o meio termo entre o Nous do Zeus Demiurgo e as almas, que participam nele para participarem nesse Intelecto.

É Dioniso Kardiaeus, cujo corpo fora espalhado pelos titãs, como o intelecto é entre as almas, mas o coração está na coxa de Zeus, sendo meio termo entre Ele e o que está em seus pés. A mulher que o portou se chama Hipta, mesmo nome que se dá à Alma do Mundo.
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A forma sem forma é forma verdadeira. A forma verdadeira não vem dos frutos de práticas ou caridade realizadas enquanto se debruça sobre as aparências. Ela vem do retorno à pureza e simplicidade prístinas, esquecendo objetos e acabando com sentimentos. Quando você encontra a forma verdadeira, cada ação, cada quietude, é realidade natural; você espontaneamente alcança a aceitação da verdade da não originação.

-- Liu Yiming, Comentário em Wuzhen Pian.
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HYPERBOREA E ATLANTIS

Sumário:

Introdução
I. Apontamentos astronômicos
II. Thule
III. Hyperborea
IV. Atlântis
Bônus: A Irlanda

Introdução

O assunto ciclos cósmicos foi imensamente prostituído por grupos modernos e que, sob o entusiasmo por civilizações antigas, cambiou seu significado simbólico por um corpóreo e profano. A redescoberta do tema se deve ao ocultista Fabre d'Olivet em sua obra Histoire Philosophique du Genre Humain, que de maneira mais ou menos profana, repopularizou o assunto. Aqui trataremos de termos básicos da geografia ligada a esse tema e explanaremos - na medida do possível e de nosso entendimento - sua origem textual e seu significado.
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HYPERBOREA E ATLANTIS: I. Apontamentos astronômicos

A fim de que o simbolismo seja compreendido, precisamos olhar para o céu e ver a movimentação do Sol. Nasce ao leste e morre ao oeste, porém, para além do ciclo diário, possui um ciclo anual. No solstício de verão, ao meio dia, no hemisfério norte, acima da linha do Equador, está acima da cabeça no observador ao meio dia; porém, no solstício de inverno, está o mais ao norte possível, nascendo mais ao norte e se ponto mais ao norte. Por essa razão, a hyperborea é o lar de Apollo Hyperboreos.

Quando ao norte, as noites são mais longas e é inverno. Conforme caminhamos ao norte, mais as noites ficam longas. Isso sempre foi sabido, mas notoriamente anotado por Euclides em sua obra "Fenômenos".

O norte é então relacionado ao frio e à escuridão, é a direção de Bóreas, o vento norte invernal. Paradoxalmente, é relacionado com o Sol, pois para lá, no Inverno, ele se esconde.

Se se estiver no polo norte, no solstício de verão é sempre dia, nos equinócios, sempre crepúsculo/alvorada, onde o sol se põe lentamente ao decorrer do ano até desaparecer, descendendo até o solstício de inverso, quando volta a ascender. Um dia é, portanto, um ano. Por isso Hyperborea é tida como uma terra perene ou semi-perene.
HYPERBOREA E ATLANTIS: II. Thule

A origem escrita do termo é traçada de Ctesias de Cnidos (sec. V a.C), por meio de uma citação de Sérvio, o Gramático. Das especulações etimológicas, as que nos chamam a atenção são aquelas que visam traçar esta palavra de alguma fenícia ou cartaginesa cujo significado é “trevas”, “escuridão”.

É utilizado para se referir a uma ilha ao extremo norte, no Mar Crônida, que Phytheas de Massália supostamente teria visitado. Apesar do termo poder ser utilizado para se referir à Hyperborea, não se trata da terra referida por Phytheas, pois nesta terra, a noite dura duas ou três horas, em Hyperborea não há noite.

René Guénon em seus artigos presentes no livro "Ciclos Cósmicos e Formas Tradicionais", aponta que Thule pode ser referir tanto a Atlantis, quanto a Hyperborea, desde que se trate de uma terra ou ilha ao norte.
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HYPERBOREA E ATLANTIS: III. Hyperborea

O nome significa o que está para além ou para cima de Bóreas, o nome Bóreas pode vir do proto-eslávico *gora, que significa "montanha", se referindo à "montanha de Bóreas", ou às montanhas da Trácia, ao norte da Grécia.

Quer dizer especificamente uma terra polar ao extremo norte, hoje gélida e inóspita, mas onde lar de um povo divino, os hyperboreos, correspondentes à raça de ouro de Hesíodo. Um povo cujos corpos eram sutis e não conheciam a corrupção, mas manifestavam limpidamente toda a sabedoria divina, em microcósmo.

A idade de ouro acaba quando o Sol está no horizonte, onde o homem perene toca tem seu primeiro contato com o Devir, começando a Era de Prata. Na Era de Bronze, já é inverso e Hyperborea é inabitada. O homem agora conhece o Sol como nascendo ao leste e morrendo ao oeste diariamente, conhece, portanto, geração e corrupção.