O Último Arconte ♄
312 subscribers
196 photos
41 links
Canal dedicado ao estudo de temas tradicionais e reflexões pessoais.
Download Telegram
Simulacro e Simulação

A representação deriva do princípio da equivalência entre o signo e o real (mesmo que essa equivalência seja utópica, é um axioma fundamental). A simulação, ao contrário, deriva da utopia do princípio da equivalência, da negação radical do signo como valor, do signo como reversão e sentença de morte de toda referência. Enquanto a representação tenta absorver a simulação interpretando-a como uma falsa representação, a simulação envolve toda a estrutura da própria representação como um simulacro.

Tais seriam as fases sucessivas da imagem:

- é o reflexo de uma realidade profunda;
- mascara e desnatura uma realidade profunda;
- mascara a ausência de uma realidade profunda;
- não tem relação alguma com qualquer realidade: é seu próprio simulacro puro.


— Baudrillard. Simulacros e Simulação. I.
🔥2
Assim como foi percebido pelos pós-estruturalistas que a linguagem constitui nossa percepção da realidade, a narrativa também a constitui. O elo entre o real e sua representação que caracteriza um bom discurso é constantemente rompido. O discurso se torna alienado da realidade, ele só informa sobre si mesmo, ele constitui uma nova "realidade" enquanto o gesto de apontar ao real a contradizer esse discurso-simulacro — este por vezes é hipersticioso — tem um efeito retórico cada vez menor.

A razão escapa por nossos dedos em uma frequência cada vez maior.
👏3
A primavera da velhice

Chegou a primavera — inicio a juventude após a velhice
Sento-me ao lado da amada e desfruto do fruto da minha vida

Retorno ao jardim de flores, misturo-me com flores e botões
À margem do jardim, acaricio o rosto da amada de face lunar

Um dia deixo para trás o outono e sua palidez/amarelecimento
Pois no jardim chega notícia da amada de face rosada

Minhas penas e asas caíram em Dey (inverno) por causa da separação da amada
Em Farvardin (primavera), lembrando a união com ela, recupero asas e penas

No outono, havia descido sobre esta ruína
Quando veio a primavera, estou pronto para voar rumo à união com ela

Se o copeiro derramar uma gota do cálice sobre os amantes
Se derramar por embriaguez, arrancarei o véu de seu rosto


Imam Khomeini.
Ordibehesht 1366 AHS.
Abril/Maio, 1987.
6
Assim, cooperando a filosofia [Wissenschaft] e o senso comum para provocar a queda da metafísica, presenciou-se o estranho espetáculo de uma nação culta sem metafísica – como um templo ricamente ornamentado em outros aspectos, mas sem um santo dos santos. A teologia, que em tempos passados ​​fora a guardiã dos mistérios especulativos e da metafísica (embora esta lhe fosse subordinada), havia abandonado essa ciência em troca de sentimentos, do que era popularmente considerado factual e da erudição histórica.


— G. Hegel. Primeiro Prefácio à Ciência da Lógica.
2
Forwarded from Hexis Aristokratika
"O poeta... é o homem da metáfora: enquanto o filósofo se interessa apenas pela verdade do significado, para além dos signos e dos nomes, e o sofista manipula signos vazios... o poeta brinca com a multiplicidade dos significados."

~ Jacques Derrida
7
Tradução direta do latim de um amigo meu.
3
Forwarded from Hexis Aristokratika
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, pra sempre, à margem de nós mesmos."

~ Fernando Pessoa
51🥰1
A Devoção e Ascensão de Nekhepso

[A devoção dos antigos reis à astrologia] era tão entusiástica e inabalável que eles deixaram a esfera terrena e caminharam pelos céus, associando-se às almas celestiais e às mentes divinas e santas. Nekhepso é testemunha disso quando diz:

Parecia que eu caminhava pelo éter da meia-noite,
e uma voz do céu ecoava ao meu redor,
e então o manto escuro cobriu minha carne,
trazendo a escuridão da noite…


e assim em diante.

— Vettius Valens. Antologias, VI, 1.

Imagem: Faraó da 26ª Dinastia do período Saíta, a qual Nekhepso pertenceu.
O Último Arconte
O Último Arconte ♄
A Devoção e Ascensão de Nekhepso [A devoção dos antigos reis à astrologia] era tão entusiástica e inabalável que eles deixaram a esfera terrena e caminharam pelos céus, associando-se às almas celestiais e às mentes divinas e santas. Nekhepso é testemunha…
Não é tão importante o elogio de Valens à astrologia quanto o conteúdo do texto citado. Provavelmente, esse texto é oriundo de um obra ou inscrição do primeiro século ou anterior — Valens é do século II — e possui paralelos interessantes com textos herméticos, como a noção de "voz", transcendência aos astros e sentidos sendo relacionáveis com o C.H. I e o manto escuro ser relacionável ao "Negro Perfeito" (to teleian melan), dentre outras semelhanças menores.

Não sabemos de onde são esses versos, mas certamente são importantes, confirmado pelo que Valens diz depois, que a astrologia seria uma arte abençoada e superior às outras, pois ele usa essa instância para validar a própria arte, como se ela fosse caminho para essa transcendência. A astrologia diz respeito aos movimentos dos astros e sua influência nos homens, o que inclui os vícios relacionados aos mesmos, ela seria, aqui, medicina para a alma, junto à filosofia, como diz o texto "afim de que a filosofia e a magia sejam nutrissem a alma, e que a medicina curasse o corpo quando ele é afligido por algum mal" (Kore Kosmou, 68); assim como a fisiologia é o conhecimento do corpo e a medicina (também chamada de fisiologia) é a aplicação desse conhecimento, a astrologia prática teria como fim último curar a alma, não necessariamente através das operações mágicas que Zósimo condena, justamente por dizerem respeito não à alma mas ao corpo ou sínolo, e essa cura seria feita através da ascensão pelas esferas até essa região etérea, qualificada pela morte do corpo/recolhimento dos sentidos ("manto escuro que cobre a carne") e vitalidade da alma (Valens diz "Como diz o divino Orfeu: 'A alma do homem radica no éter.' e 'Quando absorvemos o ar, colhemos a alma divina.'" [Antologias. IX. 1]), em oposição à situação onde nos encontramos, onde os sentidos são vivos e a alma é morta.
O Último Arconte
👍5
O Último Arconte ♄
Photo
Especulação sobre o significado do Pentalfa (Pentagrama) no Testamento de Salomão.
Bem-aventurados os que estão embriagados com o teu amor e que reconhecem, em si, o brilho de Deus 1/3

Doravante, cessarei as palavras. Uma coisa transfigurou tudo: Aquele em cujo lugar nada pode satisfazer. Compreenda, meu irmão, este mistério que é a vida dos seres celestiais e a nossa como a deles na eternidade. Sejamos atormentados pelo amor ao Belo: este é o objetivo de todo o nosso trabalho. Bem-aventurados os que estão embriagados com o teu amor, ó meu Deus: por meio da sua embriaguez em Ti, são tomados pela loucura e ignoram as suas necessidades anteriores. Prove e veja, meu irmão, a doçura do nosso bom Pai, quão agradável Ele é! Mas para aqueles que não a experimentaram, as palavras jamais a revelarão. Aquele que é a própria doçura, adoça e sacia em Si mesmo aqueles que O amam. Ele se alegra em Si mesmo e os alegra nEle. Ele é a própria beleza do seu Ser e os transfigura à imagem da sua beleza pela sua revelação neles.


— Mar João Saba. Cartas. VII.
O Último Arconte
5
Bem-aventurados os que estão embriagados com o teu amor e que reconhecem, em si, o brilho de Deus 2/3

Ele próprio é o banquete de casamento e a alegre câmara nupcial: vendo-O em si mesmos, regozijam-se grandemente. Ele aparece neles de dentro deles mesmos e os maravilha com a Sua beleza. Bem-aventurada a alma que se reconhece como um espelho, e, contemplando-se atentamente, vê o brilho Daquele que está oculto a todos. Aquele que disse na montanha: "Ninguém pode ver-Me e continuar vivo", é visto neste lugar. E aqueles que O veem vivem para sempre. Ó nosso Deus, que amor é o Teu, que aqueles que provaram a Sua grande doçura se tornam inimigos de todos os prazeres.


— Mar João Saba. Cartas. VII.
O Último Arconte
4
Bem-aventurados os que estão embriagados com o teu amor e que reconhecem, em si, o brilho de Deus 3/3

Todos os que, por amor a Ele, se privaram de tudo, receberam estas coisas dEle para seu deleite. Todos os que beberam absinto e fel no conflito consigo mesmos, para moldar sua vontade à vontade do Criador, tornam-se, assim, hóspedes na casa do Pai. Como disse o vidente: “Cristo é a sua mesa, da qual são sustentados pelo Pai”.³ Visto que o alimento se apodreceu em suas bocas por causa das lágrimas e dos suspiros, agora eles consomem a Deus com grande e sincera alegria. E porque, na embriaguez do seu amor, desprezaram o desejo fétido, a beleza da sua visão, mais desejável do que tudo, verdadeiramente se manifesta neles, e o desejo perverso logo se dissipa.


— Mar João Saba. Cartas. XI
O Último Arconte
❤‍🔥5
O Último Arconte ♄
Bem-aventurada a alma que se reconhece como um espelho, e, contemplando-se atentamente, vê o brilho Daquele que está oculto a todos.
O espelho é importante tanto para Mar João como para Mar Isaque de NIneveh. Parece um tropo recorrente nos padres siríacos. Mas de onde será que isso vem? Não sei a resposta, mas posso apontar um texto de Zósimo de Panópolis que explica o significado de espelho e que pode ter influenciado esse símbolo.
O Espelho no texto siríaco de Zósimo.

[Alexandre, o Grande] Ele tinha em sua casa uma espécie de espelho que, segundo ele, era uma proteção contra todos os males; e suas palavras são verdadeiras, pois ninguém jamais será exposto a males e batalhas como as que ele teve que suportar. Seus sucessores, os reis, inferiores a ele, o veneravam e adquiriram esse espelho, que colocaram em suas casas como um talismã. Esse espelho, quando um homem se olha nele, sugere a ele a ideia de examinar a si mesmo e se purificar da cabeça aos pés.”

“O espelho foi então levado aos sacerdotes, ao templo chamado As Sete Portas. Esses espelhos foram feitos em tamanho real para mostrar aos homens que eles precisavam se purificar. Tudo isso foi apresentado como um mistério, como expliquei a você (mulher!) no livro chamado O Círculo dos Sacerdotes. “O espelho não foi colocado ali para que um homem se contemplasse fisicamente nele; pois, assim que se afastava do espelho, perdia instantaneamente toda a memória de sua própria imagem. O que era então esse espelho? Escute. “O espelho representa o espírito divino; quando uma mulher olha para ele, vê as vergonhas dentro de si e as expulsa; faz com que suas manchas desapareçam e permanece irrepreensível. Quando purificada, ela imita e toma o Espírito Santo como seu modelo; ela mesma se torna espírito; possui calma e constantemente se refere àquele estado superior, onde se conhece (a Deus) e onde se é conhecido por Ele.” Tendo se tornado imaculada (sem sombra de dúvida), ela se livra de de seus próprios laços e daqueles que compartilha com seu corpo, e ela (ascende) em direção ao Onipotente. O que, de fato, diz a palavra filosófica? Conhece-te a ti mesmo. Ela aponta, portanto, para o espelho espiritual e intelectual. Onde, então, está esse espelho, senão no espírito divino e primordial (do Pai)? “A menos que se diga que é o princípio dos princípios, o filho de Deus, o Verbo, aquele cujos pensamentos e sentimentos também procedem do Espírito Santo. Tal, ó mulher!, é a explicação do espelho.”

Quando um homem olha para ele e se vê refletido, desvia o rosto de tudo o que se chama deuses e demônios e, unindo-se ao Espírito Santo, torna-se um homem perfeito; vê Deus que está nele, por meio da mediação deste Espírito Santo. Este espelho está colocado acima dos Sete Portões, no lado ocidental, de modo que quem nele olha vê o Oriente, onde brilha a luz intelectual, que está acima do véu. É por isso que também está colocado no lado sul, acima de todos os portões que correspondem aos Sete Céus, acima deste mundo visível, acima das Doze Casas e das Plêiades, que são o mundo dos treze. Acima deles existe este Olho dos sentidos invisíveis, este Olho do espírito, que está presente ali e em todos os lugares. Ali se vê este espírito perfeito, em cujo poder tudo se encontra, de agora até a morte.” Relatamos isso porque fomos levados a isso ao falar do espelho de electrum, isto é, o espelho da mente. “Essas moedas que Alexandre espalhou pela terra, aqueles que as encontram as usam para o mesmo propósito, gravando nelas a imagem de Alexandre a cavalo. Eles as penduram em si mesmos, como amuletos. Outros, quando as encontram, gravam (palavra apagada) e prata, e as penduram em si mesmos, etc.”

— Zósimo de Panópolis, Sobre o Electrum. In CMA II, livre XIII (De Zosime).
O Último Arconte
2
O Último Arconte ♄
Especulação sobre o significado do Pentalfa (Pentagrama) no Testamento de Salomão.
Electrum é uma liga de ouro (Sol) e prata (Lua), é um dos objetivos da Obra, o anel de Salomão é tido como feito de Electrum, o que combina muito com o símbolo do pentalfa.