Os Dois Reinos 1/2
— João 18:36ss.
Jesus respondeu:
Meu reino não é deste mundo
Se meu reino fosse deste mundo,
meus súditos teriam combatido
para que eu não fosse entregue aos judeus.
Mas meu reino não é daqui.
[...]
Respondeu Jesus [a Pilatos]:
Tu o dizes, eu sou rei
e para isto vim ao mundo:
para dar testemunho (martyreso) da Verdade
Quem é da Verdade escuta minha vós
[...]
Os judeus responderam- lhe: "Nós temos uma lei e, conforme essa Lei, ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus".
[...]
Disso Pilatos aos judeus: "eis o vosso rei". Eles gritavam: "À morte! À morte! Crucifica-o"". Disse-lhes Pilatos: "Crucificarei o vosso rei?!" Os chefes dos sacerdotes responderam: "Não temos outro rei a não ser César!" ["O seu sangue caia sobre nós e nossos filhos. Mt. 27:25]. Então Pilatos o entregou para ser crucificado.
[...]
[Os judeus a Pilatos] "Não escrevas 'rei dos judeus', mas 'este homem disse: Eu sou o rei dos judeus'". Pilatos respondeu: "O que escrevi, escrevi".
— João 18:36ss.
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Os Dois Reinos 2/2
A questão do reino na paixão é clara: há dois reinos, um deste mundo e um de outro mundo. O reino de César e o reino dos Céus. "Dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus" (Mt 22:21) tem um significado dúplice:
1. Este mundo é o mundo das trevas, o diabo é seu príncipe, tudo o que é adquirido daqui deve ser abandonado para que alguém entre no reino dos Céus. Por isso o rico não pode herdá-lo, pois teria de dar aos pobres todas as suas posses, despir-se delas.
2. Por outro lado, toda foi constituída por Deus (Rm. 13:1), também, Pilatos reconheceu a monarquia de Cristo, o centurião reconheceu que o Cristo era um justo, o Filho de Deus. A autoridade secular, que preside a Terra, quando é orientada pelo a autoridade espiritual, se torna parte da economia da salvação e providencial. Por conta disso, ao justo governante é devida obediência, assim como ao Cristo.
Os romanos, enquanto gentios, reconheceram o Filho de Deus, os judeus, enquanto povos da Lei, não o reconheceram, e deram sua lealdade a César, ao César que persegue o justo, ao diabo. Por essa razão, o sangue recaiu apenas sob os judeus, que foram isentos da efetivação dessa maldição por nascimento, pois o Cristo falou "Senhor, perdoa-os, pois não sabem o que fazem" (Lc 23:34). Porém, essa pena recai a todos aqueles que se dão ao mundo e perseguem os justos, pois se tornam servos do diabo e membros da sinagoga de Satanás.
A questão do reino na paixão é clara: há dois reinos, um deste mundo e um de outro mundo. O reino de César e o reino dos Céus. "Dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus" (Mt 22:21) tem um significado dúplice:
1. Este mundo é o mundo das trevas, o diabo é seu príncipe, tudo o que é adquirido daqui deve ser abandonado para que alguém entre no reino dos Céus. Por isso o rico não pode herdá-lo, pois teria de dar aos pobres todas as suas posses, despir-se delas.
2. Por outro lado, toda foi constituída por Deus (Rm. 13:1), também, Pilatos reconheceu a monarquia de Cristo, o centurião reconheceu que o Cristo era um justo, o Filho de Deus. A autoridade secular, que preside a Terra, quando é orientada pelo a autoridade espiritual, se torna parte da economia da salvação e providencial. Por conta disso, ao justo governante é devida obediência, assim como ao Cristo.
Os romanos, enquanto gentios, reconheceram o Filho de Deus, os judeus, enquanto povos da Lei, não o reconheceram, e deram sua lealdade a César, ao César que persegue o justo, ao diabo. Por essa razão, o sangue recaiu apenas sob os judeus, que foram isentos da efetivação dessa maldição por nascimento, pois o Cristo falou "Senhor, perdoa-os, pois não sabem o que fazem" (Lc 23:34). Porém, essa pena recai a todos aqueles que se dão ao mundo e perseguem os justos, pois se tornam servos do diabo e membros da sinagoga de Satanás.
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Dia e Noite — Fyodor Tyutchev
Sobre o arcano mundo dos espíritos,
E sobre o abismo inominado,
Um áureo manto foi lançado
Pela alta vontade dos deuses.
O dia — este fulgente véu dourado —,
Que anima os filhos desta terra,
E à alma enferma alívio encerra,
Amigo é dos homens e dos deuses.
Mas o dia esmorece — chega a noite;
E ela, do mundo fatal e escuro,
Arranca o véu sagrado e puro,
E o lança ao longe, em brusco açoite.
E o abismo então nos é revelado,
Com seus terrores e neblinas,
Sem mais fronteiras que nos definam —
Eis por que a noite infunde espanto.
Sobre o arcano mundo dos espíritos,
E sobre o abismo inominado,
Um áureo manto foi lançado
Pela alta vontade dos deuses.
O dia — este fulgente véu dourado —,
Que anima os filhos desta terra,
E à alma enferma alívio encerra,
Amigo é dos homens e dos deuses.
Mas o dia esmorece — chega a noite;
E ela, do mundo fatal e escuro,
Arranca o véu sagrado e puro,
E o lança ao longe, em brusco açoite.
E o abismo então nos é revelado,
Com seus terrores e neblinas,
Sem mais fronteiras que nos definam —
Eis por que a noite infunde espanto.
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Simulacro e Simulação
— Baudrillard. Simulacros e Simulação. I.
A representação deriva do princípio da equivalência entre o signo e o real (mesmo que essa equivalência seja utópica, é um axioma fundamental). A simulação, ao contrário, deriva da utopia do princípio da equivalência, da negação radical do signo como valor, do signo como reversão e sentença de morte de toda referência. Enquanto a representação tenta absorver a simulação interpretando-a como uma falsa representação, a simulação envolve toda a estrutura da própria representação como um simulacro.
Tais seriam as fases sucessivas da imagem:
- é o reflexo de uma realidade profunda;
- mascara e desnatura uma realidade profunda;
- mascara a ausência de uma realidade profunda;
- não tem relação alguma com qualquer realidade: é seu próprio simulacro puro.
— Baudrillard. Simulacros e Simulação. I.
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Assim como foi percebido pelos pós-estruturalistas que a linguagem constitui nossa percepção da realidade, a narrativa também a constitui. O elo entre o real e sua representação que caracteriza um bom discurso é constantemente rompido. O discurso se torna alienado da realidade, ele só informa sobre si mesmo, ele constitui uma nova "realidade" enquanto o gesto de apontar ao real a contradizer esse discurso-simulacro — este por vezes é hipersticioso — tem um efeito retórico cada vez menor.
A razão escapa por nossos dedos em uma frequência cada vez maior.
A razão escapa por nossos dedos em uma frequência cada vez maior.
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A primavera da velhice
Imam Khomeini.
Ordibehesht 1366 AHS.
Abril/Maio, 1987.
Chegou a primavera — inicio a juventude após a velhice
Sento-me ao lado da amada e desfruto do fruto da minha vida
Retorno ao jardim de flores, misturo-me com flores e botões
À margem do jardim, acaricio o rosto da amada de face lunar
Um dia deixo para trás o outono e sua palidez/amarelecimento
Pois no jardim chega notícia da amada de face rosada
Minhas penas e asas caíram em Dey (inverno) por causa da separação da amada
Em Farvardin (primavera), lembrando a união com ela, recupero asas e penas
No outono, havia descido sobre esta ruína
Quando veio a primavera, estou pronto para voar rumo à união com ela
Se o copeiro derramar uma gota do cálice sobre os amantes
Se derramar por embriaguez, arrancarei o véu de seu rosto
Imam Khomeini.
Ordibehesht 1366 AHS.
Abril/Maio, 1987.
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Assim, cooperando a filosofia [Wissenschaft] e o senso comum para provocar a queda da metafísica, presenciou-se o estranho espetáculo de uma nação culta sem metafísica – como um templo ricamente ornamentado em outros aspectos, mas sem um santo dos santos. A teologia, que em tempos passados fora a guardiã dos mistérios especulativos e da metafísica (embora esta lhe fosse subordinada), havia abandonado essa ciência em troca de sentimentos, do que era popularmente considerado factual e da erudição histórica.
— G. Hegel. Primeiro Prefácio à Ciência da Lógica.
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Forwarded from Hexis Aristokratika
"O poeta... é o homem da metáfora: enquanto o filósofo se interessa apenas pela verdade do significado, para além dos signos e dos nomes, e o sofista manipula signos vazios... o poeta brinca com a multiplicidade dos significados."
~ Jacques Derrida
~ Jacques Derrida
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Forwarded from Hexis Aristokratika
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, pra sempre, à margem de nós mesmos."
~ Fernando Pessoa
~ Fernando Pessoa
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A Devoção e Ascensão de Nekhepso
— Vettius Valens. Antologias, VI, 1.
Imagem: Faraó da 26ª Dinastia do período Saíta, a qual Nekhepso pertenceu.
O Último Arconte
[A devoção dos antigos reis à astrologia] era tão entusiástica e inabalável que eles deixaram a esfera terrena e caminharam pelos céus, associando-se às almas celestiais e às mentes divinas e santas. Nekhepso é testemunha disso quando diz:
Parecia que eu caminhava pelo éter da meia-noite,
e uma voz do céu ecoava ao meu redor,
e então o manto escuro cobriu minha carne,
trazendo a escuridão da noite…
e assim em diante.
— Vettius Valens. Antologias, VI, 1.
Imagem: Faraó da 26ª Dinastia do período Saíta, a qual Nekhepso pertenceu.
O Último Arconte
O Último Arconte ♄
A Devoção e Ascensão de Nekhepso [A devoção dos antigos reis à astrologia] era tão entusiástica e inabalável que eles deixaram a esfera terrena e caminharam pelos céus, associando-se às almas celestiais e às mentes divinas e santas. Nekhepso é testemunha…
Não é tão importante o elogio de Valens à astrologia quanto o conteúdo do texto citado. Provavelmente, esse texto é oriundo de um obra ou inscrição do primeiro século ou anterior — Valens é do século II — e possui paralelos interessantes com textos herméticos, como a noção de "voz", transcendência aos astros e sentidos sendo relacionáveis com o C.H. I e o manto escuro ser relacionável ao "Negro Perfeito" (to teleian melan), dentre outras semelhanças menores.
Não sabemos de onde são esses versos, mas certamente são importantes, confirmado pelo que Valens diz depois, que a astrologia seria uma arte abençoada e superior às outras, pois ele usa essa instância para validar a própria arte, como se ela fosse caminho para essa transcendência. A astrologia diz respeito aos movimentos dos astros e sua influência nos homens, o que inclui os vícios relacionados aos mesmos, ela seria, aqui, medicina para a alma, junto à filosofia, como diz o texto "afim de que a filosofia e a magia sejam nutrissem a alma, e que a medicina curasse o corpo quando ele é afligido por algum mal" (Kore Kosmou, 68); assim como a fisiologia é o conhecimento do corpo e a medicina (também chamada de fisiologia) é a aplicação desse conhecimento, a astrologia prática teria como fim último curar a alma, não necessariamente através das operações mágicas que Zósimo condena, justamente por dizerem respeito não à alma mas ao corpo ou sínolo, e essa cura seria feita através da ascensão pelas esferas até essa região etérea, qualificada pela morte do corpo/recolhimento dos sentidos ("manto escuro que cobre a carne") e vitalidade da alma (Valens diz "Como diz o divino Orfeu: 'A alma do homem radica no éter.' e 'Quando absorvemos o ar, colhemos a alma divina.'" [Antologias. IX. 1]), em oposição à situação onde nos encontramos, onde os sentidos são vivos e a alma é morta.
O Último Arconte
Não sabemos de onde são esses versos, mas certamente são importantes, confirmado pelo que Valens diz depois, que a astrologia seria uma arte abençoada e superior às outras, pois ele usa essa instância para validar a própria arte, como se ela fosse caminho para essa transcendência. A astrologia diz respeito aos movimentos dos astros e sua influência nos homens, o que inclui os vícios relacionados aos mesmos, ela seria, aqui, medicina para a alma, junto à filosofia, como diz o texto "afim de que a filosofia e a magia sejam nutrissem a alma, e que a medicina curasse o corpo quando ele é afligido por algum mal" (Kore Kosmou, 68); assim como a fisiologia é o conhecimento do corpo e a medicina (também chamada de fisiologia) é a aplicação desse conhecimento, a astrologia prática teria como fim último curar a alma, não necessariamente através das operações mágicas que Zósimo condena, justamente por dizerem respeito não à alma mas ao corpo ou sínolo, e essa cura seria feita através da ascensão pelas esferas até essa região etérea, qualificada pela morte do corpo/recolhimento dos sentidos ("manto escuro que cobre a carne") e vitalidade da alma (Valens diz "Como diz o divino Orfeu: 'A alma do homem radica no éter.' e 'Quando absorvemos o ar, colhemos a alma divina.'" [Antologias. IX. 1]), em oposição à situação onde nos encontramos, onde os sentidos são vivos e a alma é morta.
O Último Arconte
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O Último Arconte ♄
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Especulação sobre o significado do Pentalfa (Pentagrama) no Testamento de Salomão.
Bem-aventurados os que estão embriagados com o teu amor e que reconhecem, em si, o brilho de Deus 1/3
— Mar João Saba. Cartas. VII.
O Último Arconte
Doravante, cessarei as palavras. Uma coisa transfigurou tudo: Aquele em cujo lugar nada pode satisfazer. Compreenda, meu irmão, este mistério que é a vida dos seres celestiais e a nossa como a deles na eternidade. Sejamos atormentados pelo amor ao Belo: este é o objetivo de todo o nosso trabalho. Bem-aventurados os que estão embriagados com o teu amor, ó meu Deus: por meio da sua embriaguez em Ti, são tomados pela loucura e ignoram as suas necessidades anteriores. Prove e veja, meu irmão, a doçura do nosso bom Pai, quão agradável Ele é! Mas para aqueles que não a experimentaram, as palavras jamais a revelarão. Aquele que é a própria doçura, adoça e sacia em Si mesmo aqueles que O amam. Ele se alegra em Si mesmo e os alegra nEle. Ele é a própria beleza do seu Ser e os transfigura à imagem da sua beleza pela sua revelação neles.
— Mar João Saba. Cartas. VII.
O Último Arconte
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Bem-aventurados os que estão embriagados com o teu amor e que reconhecem, em si, o brilho de Deus 2/3
— Mar João Saba. Cartas. VII.
O Último Arconte
Ele próprio é o banquete de casamento e a alegre câmara nupcial: vendo-O em si mesmos, regozijam-se grandemente. Ele aparece neles de dentro deles mesmos e os maravilha com a Sua beleza. Bem-aventurada a alma que se reconhece como um espelho, e, contemplando-se atentamente, vê o brilho Daquele que está oculto a todos. Aquele que disse na montanha: "Ninguém pode ver-Me e continuar vivo", é visto neste lugar. E aqueles que O veem vivem para sempre. Ó nosso Deus, que amor é o Teu, que aqueles que provaram a Sua grande doçura se tornam inimigos de todos os prazeres.
— Mar João Saba. Cartas. VII.
O Último Arconte
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Bem-aventurados os que estão embriagados com o teu amor e que reconhecem, em si, o brilho de Deus 3/3
— Mar João Saba. Cartas. XI
O Último Arconte
Todos os que, por amor a Ele, se privaram de tudo, receberam estas coisas dEle para seu deleite. Todos os que beberam absinto e fel no conflito consigo mesmos, para moldar sua vontade à vontade do Criador, tornam-se, assim, hóspedes na casa do Pai. Como disse o vidente: “Cristo é a sua mesa, da qual são sustentados pelo Pai”.³ Visto que o alimento se apodreceu em suas bocas por causa das lágrimas e dos suspiros, agora eles consomem a Deus com grande e sincera alegria. E porque, na embriaguez do seu amor, desprezaram o desejo fétido, a beleza da sua visão, mais desejável do que tudo, verdadeiramente se manifesta neles, e o desejo perverso logo se dissipa.
— Mar João Saba. Cartas. XI
O Último Arconte
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