Forwarded from Alexandria Apócrifa
E nada mais dissipa os furacões mais contínuos da tristeza do que a lembrança de Deus (μνημονεύειν Θεοῦ), e o saber que, mesmo sendo mortais e criados e assim existindo, ainda assim jamais veremos acontecer algo para nossa destruição, mas tudo, de fato, serve fortemente para a salvação, por meio do Espírito.
Pois até mesmo os primeiros intelectos (νοῦς) se apresentam a Ele com servidão, por meio de quem também a φύσις (natureza), tendo-se separado d’Ele e deslizando para aquilo que deseja, é restaurada; por meio de quem ela se torna virtuosa (ἀρεταίνει), por meio de quem foi elevada (ἐπήχθη) e por meio de quem permanece (διαμένει), ainda que, por causa da multiplicidade (πολυειδὲς) própria dela, se apresse em direção à dissolução (τὸ λυθῆναι).”
Pois, quando este (a natureza humana) se reverte e se transforma, a instabilidade das coisas da vida torna-se manifesta, porque também os próprios traços/disposições da alma, ao mudarem, saltam para fora das relações anteriores (subordinação do Nous a Deus), sem guardar memória de nenhuma daquelas coisas que antes amava ternamente.
_ Peças Morais do Imperador Teodoro II Láskaris de Niceia
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O Casamento de Dioniso
Naxos, cercada pelo mar Egeu, deu-lhe em casamento uma donzela abandonada [Ariadne], compensando sua perda com um marido melhor. Da rocha seca jorrou licor nictélico [vinho]; riachos murmurantes dividiram os prados verdejantes; a terra profunda bebeu os sucos doces, fontes brancas de leite nevado e vinho lésbico misturado com tomilho perfumado. A noiva recém-casada é conduzida aos céus elevados; Febo [Apolo] canta um hino majestoso, com seus cachos caindo sobre os ombros, e os gêmeos Cupidos [Erotes] brandem suas tochas. Júpiter [Zeus] depõe suas armas de fogo e, quando Baco chega, abomina seu raio.
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Naxos, cercada pelo mar Egeu, deu-lhe em casamento uma donzela abandonada [Ariadne], compensando sua perda com um marido melhor. Da rocha seca jorrou licor nictélico [vinho]; riachos murmurantes dividiram os prados verdejantes; a terra profunda bebeu os sucos doces, fontes brancas de leite nevado e vinho lésbico misturado com tomilho perfumado. A noiva recém-casada é conduzida aos céus elevados; Febo [Apolo] canta um hino majestoso, com seus cachos caindo sobre os ombros, e os gêmeos Cupidos [Erotes] brandem suas tochas. Júpiter [Zeus] depõe suas armas de fogo e, quando Baco chega, abomina seu raio.
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Διος Φως
Enquanto as estrelas brilhantes dos céus antigos correrem em seus cursos; enquanto Oceano circunda a terra aprisionada com suas águas; enquanto a Lua cheia [Selene, a lua] reune novamente seu esplendor perdido; enquanto Lúcifer [Eósforo, a estrela da manhã] anuncia o amanhecer, e enquanto as majestosas Ursas [constelações Ursae] não conhecem nada do caerúleo Nereu; por tanto tempo adoraremos o rosto brilhante do belo Lieu [Dionísio]."
- Sêneca, Édipo, 401ss.
Enquanto as estrelas brilhantes dos céus antigos correrem em seus cursos; enquanto Oceano circunda a terra aprisionada com suas águas; enquanto a Lua cheia [Selene, a lua] reune novamente seu esplendor perdido; enquanto Lúcifer [Eósforo, a estrela da manhã] anuncia o amanhecer, e enquanto as majestosas Ursas [constelações Ursae] não conhecem nada do caerúleo Nereu; por tanto tempo adoraremos o rosto brilhante do belo Lieu [Dionísio]."
- Sêneca, Édipo, 401ss.
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Νοῦς Διός
Resta-nos agora ascender à hyparxis ou mônada de todos os Deuses mundanos, Dioniso, em cuja divindade todos eles subsistem e estão enraizados, de forma semelhante às estrelas fixas na esfera inerrática. Pois, desta maneira, cada mônada contém analogamente sua multidão coordenada. Dioniso, portanto, é o intelecto mundano, do qual a alma e o corpo do mundo se originam.
-- Thomas Taylor, in Proclo, Theologia Platonica, VII, 23.
Resta-nos agora ascender à hyparxis ou mônada de todos os Deuses mundanos, Dioniso, em cuja divindade todos eles subsistem e estão enraizados, de forma semelhante às estrelas fixas na esfera inerrática. Pois, desta maneira, cada mônada contém analogamente sua multidão coordenada. Dioniso, portanto, é o intelecto mundano, do qual a alma e o corpo do mundo se originam.
-- Thomas Taylor, in Proclo, Theologia Platonica, VII, 23.
A Definição de "Lei"
Eles também pensam que o nome grego para lei (νόμος), derivado de νέμω, distribuir, implica a própria natureza da coisa, ou seja, dar a cada um o que lhe é devido. De minha parte, imagino que a essência moral da lei seja melhor expressa por seu nome latino, (lex), que transmite a ideia de seleção ou discriminação. Segundo os gregos, portanto, o nome lei implica uma distribuição equitativa dos bens; segundo os romanos, uma discriminação equitativa entre o bem e o mal.
A verdadeira definição de lei deve, no entanto, incluir ambas as características.
- Cícero. Leis, I:18-9
Eles também pensam que o nome grego para lei (νόμος), derivado de νέμω, distribuir, implica a própria natureza da coisa, ou seja, dar a cada um o que lhe é devido. De minha parte, imagino que a essência moral da lei seja melhor expressa por seu nome latino, (lex), que transmite a ideia de seleção ou discriminação. Segundo os gregos, portanto, o nome lei implica uma distribuição equitativa dos bens; segundo os romanos, uma discriminação equitativa entre o bem e o mal.
A verdadeira definição de lei deve, no entanto, incluir ambas as características.
- Cícero. Leis, I:18-9
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É interessante especular que a sentença de Herótodo (Hist. III, 38) não se trata de mero clubismo e negação de uma universalidade, mas dessa noção do nomos sendo o paradigma de um povo, a ele distribuído por Deus e por ele utilizado para julgar o mundo.
"οὕτω νομίζουσι πολλόν τι καλλίστους τοὺς ἑωυτῶν νόμους ἕκαστοι εἶναι; assim, cada um acredita/julga que os seus próprios costumes/leis são de longe os mais belos"
Outra ocorrência de "nomos" como juízo:
"καὶ τὸ μὴ μίσγεσθαι γυναιξὶ ἐν ἱροῖσι μηδὲ ἀλούτους ἀπὸ γυναικῶν ἐς ἱρὰ ἐσιέναι οὗτοι εἰσὶ οἱ πρῶτοι θρησκεύσαντες. οἱ μὲν γὰρ ἄλλοι σχεδὸν πάντες ἄνθρωποι, πλὴν Αἰγυπτίων καὶ Ἑλλήνων, μίσγονται ἐν ἱροῖσι καὶ ἀπὸ γυναικῶν ἀνιστάμενοι ἄλουτοι ἐσέρχονται ἐς ἱρόν, νομίζοντες ἀνθρώπους εἶναι κατά περ τὰ ἄλλα κτήνεα·
E quanto a não se deitar com mulheres nos templos, nem entrar impuros (isto é, sem se lavarem) nos santuários após as mulheres — esses são os primeiros que praticaram esse culto. Pois quase todos os outros homens, exceto os egípcios e os gregos, se deitam com mulheres nos templos e, levantando-se das mulheres, entram sem se lavarem no santuário, julgando/tendo-por-costume-ou-lei que os homens são como os outros animais."
(História, II, 64)
"οὕτω νομίζουσι πολλόν τι καλλίστους τοὺς ἑωυτῶν νόμους ἕκαστοι εἶναι; assim, cada um acredita/julga que os seus próprios costumes/leis são de longe os mais belos"
Outra ocorrência de "nomos" como juízo:
"καὶ τὸ μὴ μίσγεσθαι γυναιξὶ ἐν ἱροῖσι μηδὲ ἀλούτους ἀπὸ γυναικῶν ἐς ἱρὰ ἐσιέναι οὗτοι εἰσὶ οἱ πρῶτοι θρησκεύσαντες. οἱ μὲν γὰρ ἄλλοι σχεδὸν πάντες ἄνθρωποι, πλὴν Αἰγυπτίων καὶ Ἑλλήνων, μίσγονται ἐν ἱροῖσι καὶ ἀπὸ γυναικῶν ἀνιστάμενοι ἄλουτοι ἐσέρχονται ἐς ἱρόν, νομίζοντες ἀνθρώπους εἶναι κατά περ τὰ ἄλλα κτήνεα·
E quanto a não se deitar com mulheres nos templos, nem entrar impuros (isto é, sem se lavarem) nos santuários após as mulheres — esses são os primeiros que praticaram esse culto. Pois quase todos os outros homens, exceto os egípcios e os gregos, se deitam com mulheres nos templos e, levantando-se das mulheres, entram sem se lavarem no santuário, julgando/tendo-por-costume-ou-lei que os homens são como os outros animais."
(História, II, 64)
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Quando Cícero prega a necessidade de adorar a Deus, o faz pois isso é indissociável do Nomos recebido dos Deuses pela Polis. Ele não trata de crer em um Deus, mas de adorar, justamente por esse motivo. A impiedade, a transgressão à lei, o esquecimento das tradições, estavam todos contidos no que se entendia por "ateísmo", que por violar a Pax Deorum da Polis ou Civis, a levaria à perdição.
Por isso Zósimo Historiador relata a salvação de Atenas pela manutenção da piedade, e a danação de Roma pela impiedade.
Por isso Zósimo Historiador relata a salvação de Atenas pela manutenção da piedade, e a danação de Roma pela impiedade.
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"Tendo os tebanos escapado, ele avançou para Atenas, esperando tomar aquela cidade com facilidade, visto que, devido à sua magnitude, não poderia ser facilmente defendida; nem, sendo contígua ao Pireu, poderia resistir por muito tempo antes de ser obrigada a se render.
Essa era a esperança de Alarico. Mas a antiguidade da cidade, em meio a esses desígnios ímpios, foi capaz de chamar em seu auxílio as divindades que a presidiam, pelas quais foi preservada.
[...]
Enquanto se ocupavam com essas reflexões, Pompeiano, o prefeito da cidade, encontrou-se acidentalmente com algumas pessoas que tinham vindo da Toscana para Roma, e relataram que uma cidade chamada Neveia havia se livrado de um perigo extremo, tendo os bárbaros sido repelidos por tempestades de trovões e relâmpagos, causadas pela devoção de seus habitantes aos deuses, no antigo modo de culto. Tendo conversado com esses homens, ele realizou tudo o que estava em seu poder, de acordo com os livros dos principais sacerdotes. Recordando, no entanto, as opiniões então predominantes, resolveu proceder com maior cautela e propôs todo o assunto ao bispo da cidade, cujo nome era Inocêncio. Preferindo a preservação da cidade à sua própria opinião particular, deu-lhes permissão para fazerem em particular o que soubessem ser conveniente. Declararam, no entanto, que o que pudessem fazer seria inútil, a menos que os sacrifícios públicos e costumeiros fossem realizados e a menos que o senado subisse à capital, realizando ali e nos diferentes mercados da cidade tudo o que fosse essencial. Como ninguém ousou participar das antigas ordenanças religiosas, dispensaram os homens que vieram da Toscana e se dedicaram a apaziguar os bárbaros da melhor maneira possível."
(Zósimo. Historia Nova, V)
Essa era a esperança de Alarico. Mas a antiguidade da cidade, em meio a esses desígnios ímpios, foi capaz de chamar em seu auxílio as divindades que a presidiam, pelas quais foi preservada.
[...]
Enquanto se ocupavam com essas reflexões, Pompeiano, o prefeito da cidade, encontrou-se acidentalmente com algumas pessoas que tinham vindo da Toscana para Roma, e relataram que uma cidade chamada Neveia havia se livrado de um perigo extremo, tendo os bárbaros sido repelidos por tempestades de trovões e relâmpagos, causadas pela devoção de seus habitantes aos deuses, no antigo modo de culto. Tendo conversado com esses homens, ele realizou tudo o que estava em seu poder, de acordo com os livros dos principais sacerdotes. Recordando, no entanto, as opiniões então predominantes, resolveu proceder com maior cautela e propôs todo o assunto ao bispo da cidade, cujo nome era Inocêncio. Preferindo a preservação da cidade à sua própria opinião particular, deu-lhes permissão para fazerem em particular o que soubessem ser conveniente. Declararam, no entanto, que o que pudessem fazer seria inútil, a menos que os sacrifícios públicos e costumeiros fossem realizados e a menos que o senado subisse à capital, realizando ali e nos diferentes mercados da cidade tudo o que fosse essencial. Como ninguém ousou participar das antigas ordenanças religiosas, dispensaram os homens que vieram da Toscana e se dedicaram a apaziguar os bárbaros da melhor maneira possível."
(Zósimo. Historia Nova, V)
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O Último Arconte ♄
Quando Cícero prega a necessidade de adorar a Deus, o faz pois isso é indissociável do Nomos recebido dos Deuses pela Polis. Ele não trata de crer em um Deus, mas de adorar, justamente por esse motivo. A impiedade, a transgressão à lei, o esquecimento das…
Isso não significa que o culto se resumiria a isso, ainda mais no contexto do texto de Cícero, onde Deus é a Verdade e o Bem, porém havia uma ênfase cultural nisso que se perdeu entre nós, que explica o porquê dele ter dito "culto" e não apenas "crença".
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O Nome "Mundo"
Quanto ao nome ["mundo"], sou influenciado pelas opiniões unânimes de todas as nações. Pois o que os gregos, por sua ornamentação, chamaram de κόσμος ("ordem", "ornamento"), nós, por sua elegância perfeita e completa, chamamos de mundus. O nome cœlum, sem dúvida, refere-se ao fato de estar gravado (caelati), por assim dizer, com as estrelas, como Varrão sugere. Em confirmação dessa ideia, podemos citar o Zodíaco, no qual há doze figuras de animais; é por meio delas que o sol continuou seu curso por tantas eras.
- Plínio, o Velho. História Natural, II, 3.
Quanto ao nome ["mundo"], sou influenciado pelas opiniões unânimes de todas as nações. Pois o que os gregos, por sua ornamentação, chamaram de κόσμος ("ordem", "ornamento"), nós, por sua elegância perfeita e completa, chamamos de mundus. O nome cœlum, sem dúvida, refere-se ao fato de estar gravado (caelati), por assim dizer, com as estrelas, como Varrão sugere. Em confirmação dessa ideia, podemos citar o Zodíaco, no qual há doze figuras de animais; é por meio delas que o sol continuou seu curso por tantas eras.
- Plínio, o Velho. História Natural, II, 3.
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O Caráter Estático da Perspectiva Guénoniana e a Tarefa da Escola Tradicional
O pensamento de R. Guénon, melhor exemplificado pela sua Teoria dos Estados Múltiplos do Ser, é caracteristicamente estático. Se formos utilizar o termo "metafísico" como sinônimo de "estático" em oposição ao "dialético", sinônimo de "dinâmico", como faziam no século XIX, Guénon seria um metafísico por excelência.
Assim como o estático Parmênides teve seu pensamento vitalizado, posto em movimento, por Platão; assim como Böhme coroou o pensamento cristão ao revelar os mistérios da trindade nas sucessões dialéticas da Natureza, é tarefa dos tradicionalistas completar sua escola, de início estático, com o pensamento dinâmico.
O pensamento de R. Guénon, melhor exemplificado pela sua Teoria dos Estados Múltiplos do Ser, é caracteristicamente estático. Se formos utilizar o termo "metafísico" como sinônimo de "estático" em oposição ao "dialético", sinônimo de "dinâmico", como faziam no século XIX, Guénon seria um metafísico por excelência.
Assim como o estático Parmênides teve seu pensamento vitalizado, posto em movimento, por Platão; assim como Böhme coroou o pensamento cristão ao revelar os mistérios da trindade nas sucessões dialéticas da Natureza, é tarefa dos tradicionalistas completar sua escola, de início estático, com o pensamento dinâmico.
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Um Exemplo de Stasis
Uma das questões mais polêmicas de seu pensamento — a transmigração — ilustra o caráter estático do mesmo ao qual me refiro.
Guénon distingue Ser e Existência. O Ser, em si, está no não-Ser e é, portanto, imanifesto. A manifestação é a manifestação do Ser e seus estados, que se dá no que ele denomina "Existência".
Esses estados do Ser são manifestações do Ser entendido em sua pluralidade, pois interage com a existência também enquanto seres. Cada um desses seres terá, em si, todas as possibilidades de manifestação, algumas possuem sucessão entre si, outras não. Nesse sentido, cada possui cada manifestação do Ser total, que são como planos horizontais que recebem indefinidas linhas verticais (os seres). Essa sucessão não é uma sucessão temporal, mas uma sucessão lógica, pois a sucessão temporal está presente em algumas modalidades dos estados do Ser; no estado humano, em sua modalidade grosseira/corpórea apenas.
Sendo a passagem de um estado para outro, o sujeito dessa passagem sendo este ou aquele ser, a "passagem" só se dá do ponto de vista do estado, mas não do ser que se manifesta, na perspectiva deste, a sucessão é algo que nunca pode estar no futuro ou no passado, na anterioridade ou na posterioridade, pois essas relações não são supostas da relação entre ser e estado, mas entre um estado individual e outro estado. Por essa razão, não há sentido o "retorno". Seria redundância.
Assim conclui, aparentemente em contradição com os dados tradicionais. Uma visão madura de sua obra não buscará mais essa polêmica, mas entenderá a retidão dessa concepção, que, por ser estática, não poderia chegar, sendo honesta a si mesma, a outra conclusão.
Uma das questões mais polêmicas de seu pensamento — a transmigração — ilustra o caráter estático do mesmo ao qual me refiro.
Guénon distingue Ser e Existência. O Ser, em si, está no não-Ser e é, portanto, imanifesto. A manifestação é a manifestação do Ser e seus estados, que se dá no que ele denomina "Existência".
Esses estados do Ser são manifestações do Ser entendido em sua pluralidade, pois interage com a existência também enquanto seres. Cada um desses seres terá, em si, todas as possibilidades de manifestação, algumas possuem sucessão entre si, outras não. Nesse sentido, cada possui cada manifestação do Ser total, que são como planos horizontais que recebem indefinidas linhas verticais (os seres). Essa sucessão não é uma sucessão temporal, mas uma sucessão lógica, pois a sucessão temporal está presente em algumas modalidades dos estados do Ser; no estado humano, em sua modalidade grosseira/corpórea apenas.
Sendo a passagem de um estado para outro, o sujeito dessa passagem sendo este ou aquele ser, a "passagem" só se dá do ponto de vista do estado, mas não do ser que se manifesta, na perspectiva deste, a sucessão é algo que nunca pode estar no futuro ou no passado, na anterioridade ou na posterioridade, pois essas relações não são supostas da relação entre ser e estado, mas entre um estado individual e outro estado. Por essa razão, não há sentido o "retorno". Seria redundância.
Assim conclui, aparentemente em contradição com os dados tradicionais. Uma visão madura de sua obra não buscará mais essa polêmica, mas entenderá a retidão dessa concepção, que, por ser estática, não poderia chegar, sendo honesta a si mesma, a outra conclusão.
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AMON E O CORPO
I - Período Amarnita
Atem, no período Amarnita (Akhenaton) é Uno e criador de todas as coisas por meio de si (creatio ex et in Deo). Todas as coisas são, portanto, manifestações e transformações do Sol (Atem).
I - Período Amarnita
Atem, no período Amarnita (Akhenaton) é Uno e criador de todas as coisas por meio de si (creatio ex et in Deo). Todas as coisas são, portanto, manifestações e transformações do Sol (Atem).
Tu és o Único, mas há um milhão de vidas em ti, Para fazê-las viver.
A visão dos teus raios
É um sopro de vida para os seus narizes. (Hino Curto Amarnita a Atem)
Você cria milhões de formas (hprw) sozinho,
Cidades, vilas, campos,
Estradas e rios. (Grande Hino Amarnita a Atem)
II - O Coração (Ba) de Todas as Coisas
Posteriormente, suas características de Unidade, traduzidas no sentido de solitude e primazia, serão atribuídas a Amum, o Deus Único, é o Ba de todas as coisas.
"A palavra Ba está exclusiva e inequivocamente relacionada ao paradigma da manifestação. Pode-se até dizer que é o termo egípcio para "manifestação". Ba se refere a um poder oculto que anima um objeto visível, por exemplo, a presença divina residindo em uma estátua de culto, e se refere inversamente a um fenômeno perceptível, por exemplo, o vento, como o "Ba", ou seja, a manifestação de uma divindade invisível, o deus Shu". J. Assmann, Thinking the One in Egyptian Theology.
Jâmblico entenderá Amum como o intelecto demiúrgico, que, como anteriormente explicado, cria por meio da magia. Ao mesmo tempo, atribuirá as qualidades demiúrgicas de aperfeiçoamento e harmonização a Ptah.
Posteriormente, suas características de Unidade, traduzidas no sentido de solitude e primazia, serão atribuídas a Amum, o Deus Único, é o Ba de todas as coisas.
O Único que criou o que é.
O ilustre Ba dos deuses e dos humanos.
"A palavra Ba está exclusiva e inequivocamente relacionada ao paradigma da manifestação. Pode-se até dizer que é o termo egípcio para "manifestação". Ba se refere a um poder oculto que anima um objeto visível, por exemplo, a presença divina residindo em uma estátua de culto, e se refere inversamente a um fenômeno perceptível, por exemplo, o vento, como o "Ba", ou seja, a manifestação de uma divindade invisível, o deus Shu". J. Assmann, Thinking the One in Egyptian Theology.
Salve, aquele que se transforma em milhões,
Cujo comprimento e largura são ilimitados!
Poder em prontidão, que deu à luz a si mesmo,
Uraeus com grande chama;
Grande da magia com forma secreta,
Ba secreto, a quem se demonstra respeito. (Hino a Amon-Ra)
Eu sou Atum, eu que estava sozinho;
Eu sou Rá em sua primeira aparição.
Eu sou o Grande Deus, autogerador,
Que moldou seus nomes, senhor dos deuses,
De quem ninguém se aproxima entre os deuses.
Eu era ontem, eu sei o amanhã. O campo de batalha dos deuses foi criado quando eu falei. Eu sei o nome daquele Grande Deus que nele está.
[...]
Eu sou aquela grande Fênix que está em Heliópolis.
- O Livro dos Mortos, VII.
Jâmblico entenderá Amum como o intelecto demiúrgico, que, como anteriormente explicado, cria por meio da magia. Ao mesmo tempo, atribuirá as qualidades demiúrgicas de aperfeiçoamento e harmonização a Ptah.
O intelecto demiúrgico, que é o curador da verdade e da sabedoria, descendo de geração em geração e conduzindo o poder das razões ocultas à luz, é chamado na língua egípcia de Amon, mas em consequência de aperfeiçoar todas as coisas com veracidade e artificialmente, ele é chamado de Ptah. (Jâmblico, D.M. VIII, 3).
III - Ptah, o Corpo e o Mundo
Amum é o coração de todas as coisas, aquele que está oculto mas vem a se revelar por meio de seus nomes feitos em palavras. Essa revelação se dá tanto nos Neteru quanto no Mundo. Em sua função criativa, é dito que Amum é incriado, mas cria a si mesmo, afirmação aparentemente paradoxal, mas que se o mundo for entendido como em Amum e de Amum, é resolvida.
Re é sua face luminosa e revelada, Ptah é a imanência de Amum, seu corpo.
O corpo muitas vezes é referenciado como terra e, como mostrado acima, associado a Ptah; terra aqui não deve ser entendido em sentido elemental ou topográfico, mas no sentido de corpo, por isso é associado a Ele. Ele é descrito tanto astrologicamente quanto topograficamente, de modo que todo o mundo é o Corpo de Amum.
Esse corpo é principial às diversas criaturas mortais.
O corpo divino descrito tem em cada parte um princípio dos fenômenos naturais, porém isso não exclui as criaturas oriundas desses princípios do corpo. Essa não exclusão se dá em dois níveis: (i) A vida de todas as coisas é divina, e enquanto é plural por habitar cada um de nós é um "membro" de Amum, como foi citado: "Seus membros são o sopro da vida para cada nariz", alegoria parecida com os membros da Igreja em Paulo, já explicada por nós. (ii) Todas as coisas são transformações divinas, apesar de distintas de Amum.
Amum é o coração de todas as coisas, aquele que está oculto mas vem a se revelar por meio de seus nomes feitos em palavras. Essa revelação se dá tanto nos Neteru quanto no Mundo. Em sua função criativa, é dito que Amum é incriado, mas cria a si mesmo, afirmação aparentemente paradoxal, mas que se o mundo for entendido como em Amum e de Amum, é resolvida.
Ele está oculto para deuses e homens, e Ele é um mistério para Suas criaturas. Nenhum homem sabe como conhecê-Lo — Seu nome permanece oculto; Seu nome é um mistério para Seus filhos. Seus nomes são inumeráveis, são múltiplos e ninguém conhece seu número — Deus é a verdade e Ele vive pela verdade e se alimenta dela. Ele é o rei da verdade e estabeleceu a terra sobre ela - Deus é vida e por meio dele só, o homem vive. Ele dá vida ao homem, Ele sopra o fôlego da vida em suas narinas — Deus é pai e mãe, pai dos pais e mãe das mães. Ele gera, mas nunca foi gerado; Ele produz, mas nunca foi produzido; Ele gerou a si mesmo e produziu a si mesmo. Ele cria, mas nunca foi criado; Ele é o criador de sua própria forma e o modelador de seu próprio corpo — o próprio Deus é existência, Ele perdura sem aumento ou diminuição, Ele se multiplica milhões de vezes e é múltiplo em formas e em membros — Deus fez o universo e criou tudo o que nele existe; Ele é o Criador do que está neste mundo, do que foi, do que é e do que será. Ele é o Criador dos céus e da terra, do abismo, das águas e das montanhas. Deus estendeu os céus e fundou a terra — o que seu coração (Ba) concebeu imediatamente aconteceu, e quando ele falou, aconteceu e permanece para sempre — Deus é o pai dos deuses; Ele formou os homens e formou os deuses. (Hino ao Deus Uno; Amum)
Re é sua face luminosa e revelada, Ptah é a imanência de Amum, seu corpo.
Todos os deuses são três:
Amon, Re e Ptah; não há ninguém como eles.
Aquele que esconde seu nome como Amon,
ele é Re (o sol) na (visão dos) rostos,
seu corpo é Ptah (a terra).
O corpo muitas vezes é referenciado como terra e, como mostrado acima, associado a Ptah; terra aqui não deve ser entendido em sentido elemental ou topográfico, mas no sentido de corpo, por isso é associado a Ele. Ele é descrito tanto astrologicamente quanto topograficamente, de modo que todo o mundo é o Corpo de Amum.
Sua pele é a luz, seu sopro é o "fogo da vida",
todas as pedras preciosas estão unidas em seu corpo.
Seus membros são o sopro da vida para cada nariz,
inalar você traz vida.
Seu paladar é o Nilo,
as pessoas se ungem com o brilho do seu olho-de-luz (...)
Ir e vir é possível quando você aparece
como deus da terra. (Hino de Ramesses III)
Pois é do seu nariz que vem o ar
e da sua boca que vem o dilúvio.
A "árvore da vida" cresce sobre você,
você torna a terra verde, para que os deuses tenham mais do que o suficiente,
assim como os seres humanos e os animais.
É a sua luz que os faz ver.
Quando você se põe, a escuridão vem.
Seus olhos criam luz (...)
Seu olho direito é o sol,
seu olho esquerdo é a lua. (Hino a Ptah)
Esse corpo é principial às diversas criaturas mortais.
Pelo meu olho eu chorei. E das minhas lágrimas surgiram os homens (Hino a Amum)
O corpo divino descrito tem em cada parte um princípio dos fenômenos naturais, porém isso não exclui as criaturas oriundas desses princípios do corpo. Essa não exclusão se dá em dois níveis: (i) A vida de todas as coisas é divina, e enquanto é plural por habitar cada um de nós é um "membro" de Amum, como foi citado: "Seus membros são o sopro da vida para cada nariz", alegoria parecida com os membros da Igreja em Paulo, já explicada por nós. (ii) Todas as coisas são transformações divinas, apesar de distintas de Amum.
IV- Considerações e Conclusão
Os hinos citados são um recorte de diversos períodos, não representam uma teologia concisa, mas visam dar ao leitor notícia de certas ideias como enunciadas por alguns acadêmicos.
São tentadoras as associações com o conteúdo do Corpus Hermeticum. Sabemos que os assuntos se comunicam, mas não podemos traçar qualquer influência direta, sendo aconselhado ao leitor se manter no nível puramente especulativo.
Enfim, do que foi dito é possível abstrair (conclusivamente e especulativamente) alguns pontos:
1. A Unidade do Princípio.
2. O caráter oculto do que se encontra nessa unidade antes do ato criativo.
3. Que o que se encontra oculto, de certa forma, é conteúdo essencial (Ba) daquilo que se manifesta.
4. Há múltiplos nomes divinos ocultos na unidade, dos quais alguns serão revelados, ocasionando o fenômeno da multiplicidade tanto de Amum quanto das processões dele.
5. Amum é o Princípio Oculto. Re é a Revelação. Ptah é o topos e sustentáculo daquilo que se revela.
6. Amum tem um corpo, Deus tem um corpo, e esse corpo é o mundo.
7. Esse corpo é, de certa forma, principial aos homens e demais criaturas.
8. O mundo, portanto, é o ícone da Divindade.
Os hinos citados são um recorte de diversos períodos, não representam uma teologia concisa, mas visam dar ao leitor notícia de certas ideias como enunciadas por alguns acadêmicos.
São tentadoras as associações com o conteúdo do Corpus Hermeticum. Sabemos que os assuntos se comunicam, mas não podemos traçar qualquer influência direta, sendo aconselhado ao leitor se manter no nível puramente especulativo.
Enfim, do que foi dito é possível abstrair (conclusivamente e especulativamente) alguns pontos:
1. A Unidade do Princípio.
2. O caráter oculto do que se encontra nessa unidade antes do ato criativo.
3. Que o que se encontra oculto, de certa forma, é conteúdo essencial (Ba) daquilo que se manifesta.
4. Há múltiplos nomes divinos ocultos na unidade, dos quais alguns serão revelados, ocasionando o fenômeno da multiplicidade tanto de Amum quanto das processões dele.
5. Amum é o Princípio Oculto. Re é a Revelação. Ptah é o topos e sustentáculo daquilo que se revela.
6. Amum tem um corpo, Deus tem um corpo, e esse corpo é o mundo.
7. Esse corpo é, de certa forma, principial aos homens e demais criaturas.
8. O mundo, portanto, é o ícone da Divindade.
AMON E O CORPO
Sumário
I - Período Amarnita
II - O Coração (Ba) de Todas as Coisas
III - Ptah, o Corpo e o Mundo
IV - Considerações e Conclusão
Bibliografia
(Os hinos que citei genericamente podem ser encontrados aqui)
J. Assmann, Thinking the One in Egyptian Theology.
Matthews e Benjamin, Old Testament Parallels.
J. H. Breasted. Development of Religion and Thought in Ancient Egypt.
Sumário
I - Período Amarnita
II - O Coração (Ba) de Todas as Coisas
III - Ptah, o Corpo e o Mundo
IV - Considerações e Conclusão
Bibliografia
(Os hinos que citei genericamente podem ser encontrados aqui)
J. Assmann, Thinking the One in Egyptian Theology.
Matthews e Benjamin, Old Testament Parallels.
J. H. Breasted. Development of Religion and Thought in Ancient Egypt.
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A Vitória sobre Apep
Volta! Vai! Vai embora! Tu caíste, foste expulso e retrocedeste, ó ʿApep. A Grande Enéade que está em Heliópolis te expulsa, Hórus repeliu tua fúria, Seth tornou teu momento de ação impotente. Ísis te repele, Néftis te corta, a Grande Enéade que está na proa do barco de Rê te expulsa, Seth te apunhalou no pescoço, os Filhos de Hórus cravaram suas lanças em ti, aqueles deuses que guardam as portas dos portais misteriosos te repelem, sua rajada de fogo sai contra ti em fogo. Vai embora na rajada de chamas que sai de suas bocas, cai e rasteja para longe, ʿApep [...] Seu Ba foi aniquilado, seu Sheut (sombra) foi destruído, pois você foi destinado ao Olho flamejante de Hórus; ele terá poder sobre você, ele o devorará completamente. Sê aniquilado, ó Apep! Ele te traspassou, te fez voltar, te destruiu, te aniquilou.
-- Os Livros da Derrubada de Apep, 23-24
Volta! Vai! Vai embora! Tu caíste, foste expulso e retrocedeste, ó ʿApep. A Grande Enéade que está em Heliópolis te expulsa, Hórus repeliu tua fúria, Seth tornou teu momento de ação impotente. Ísis te repele, Néftis te corta, a Grande Enéade que está na proa do barco de Rê te expulsa, Seth te apunhalou no pescoço, os Filhos de Hórus cravaram suas lanças em ti, aqueles deuses que guardam as portas dos portais misteriosos te repelem, sua rajada de fogo sai contra ti em fogo. Vai embora na rajada de chamas que sai de suas bocas, cai e rasteja para longe, ʿApep [...] Seu Ba foi aniquilado, seu Sheut (sombra) foi destruído, pois você foi destinado ao Olho flamejante de Hórus; ele terá poder sobre você, ele o devorará completamente. Sê aniquilado, ó Apep! Ele te traspassou, te fez voltar, te destruiu, te aniquilou.
-- Os Livros da Derrubada de Apep, 23-24
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Osíris e Set eram de fato irmãos e nasceram da mesma semente. Não há, contudo, entre eles, uma única e mesma relação que entre almas e corpos. Pois não é congruente para as almas nascerem na Terra, dos pais de alguém, mas sim fluírem de uma única fonte. Mas a natureza do mundo concede duas fontes; uma de fato sendo luminosa, mas a outra obscura e sem luz. E uma espalha seus fluxos da terra, como se tivesse suas raízes abaixo, e salta de cavernas terrenas, a fim de oferecer violência à lei divina. Mas a outra está suspensa no fundo do céu. E é enviada de lá, de fato, com o propósito de adornar o lote terreno.
-- Sinésio de Cirene, Da Providência.
Imagem: Horus e Set coroando Ramesses III
-- Sinésio de Cirene, Da Providência.
Imagem: Horus e Set coroando Ramesses III
Eros como Unidade
'Quem é então Eros?', perguntei; 'Ele é mortal?' 'Não.' 'O que é então?' 'Como no caso anterior, ele não é mortal nem imortal, mas um meio-termo entre os dois.' 'O que é ele, Diotima?' 'Ele é um Grande Daemon e, como todos os daemons, é intermediário entre o divino e o mortal.' 'E qual', eu disse, 'é o seu poder?' 'Ele interpreta', ela respondeu, 'entre deuses e homens, transmitindo e levando aos deuses as preces e sacrifícios dos homens, e aos homens as ordens e respostas dos deuses; ele é o mediador que atravessa o abismo que os divide e, portanto, nele tudo está unido, e por meio dele as artes do profeta e do sacerdote, seus sacrifícios, mistérios e encantos, e toda profecia e encantamento, encontram seu caminho.
-- Platão, Simpósio.
'Quem é então Eros?', perguntei; 'Ele é mortal?' 'Não.' 'O que é então?' 'Como no caso anterior, ele não é mortal nem imortal, mas um meio-termo entre os dois.' 'O que é ele, Diotima?' 'Ele é um Grande Daemon e, como todos os daemons, é intermediário entre o divino e o mortal.' 'E qual', eu disse, 'é o seu poder?' 'Ele interpreta', ela respondeu, 'entre deuses e homens, transmitindo e levando aos deuses as preces e sacrifícios dos homens, e aos homens as ordens e respostas dos deuses; ele é o mediador que atravessa o abismo que os divide e, portanto, nele tudo está unido, e por meio dele as artes do profeta e do sacerdote, seus sacrifícios, mistérios e encantos, e toda profecia e encantamento, encontram seu caminho.
-- Platão, Simpósio.
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