O Último Arconte ♄
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Canal dedicado ao estudo de temas tradicionais e reflexões pessoais.
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O Nome como Perfeição do Imperfeito

Por mais que um retrato seja inferior a um rosto real, da mesma forma o mundo é inferior ao reino vivo (o Pleroma). Agora, qual é a causa da eficácia do retrato? É a majestade do rosto que forneceu ao pintor um protótipo para que o retrato pudesse ser honrado com seu nome. Pois a forma não foi reproduzida com perfeita fidelidade, mas o nome completou a deficiência no ato da modelagem. E assim também Deus coopera invisivelmente com o que foi modelado (ou seja, o mundo material) para lhe dar credibilidade.

- Valentino, Fr. 5
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O tempo é impotente contra o que é realmente belo na arte. De outro modo não admiraríamos ainda hoje a Homero, a Dante e Shakespeare, ou a Rafael, Ticiano e Poussin, ou a Palestrina, Haendel e Glück.

- A. N. Serov, Artigos Críticos, v. II.
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O Esquecimento da Forma Humana

A metafísica [sic], base da fundação do biologismo do século XIX e da psicanálise, mais precisamente, a metafísica do completo esquecimento do ser, é a fonte de um total desconhecimento das leis do ser, cuja última consequência é uma hominização desproporcional da “criatura”, isto é, do animal, e a correspondente animalização do homem.

- Heidegger, Parmênides, §8, d.
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O Homem e o Cosmos como Altares de Deus Divinizados por Seus Nomes

Em uma cosmovisão tradicional, o antropocentrismo e o teocentrismo são a mesma coisa, por que? Pois o homem é imagem e semelhança de Deus, pois ele é a joia da criação, aquele que unifica o céu e a terra e a criatura pela que, sob aspecto limitado, manifesta o Deus ilimitado. Possuindo em si todo o Cosmos, a totalidade divina manifesta em totalidade corpórea, exaltar o Homem é exaltar o Cosmos, exaltar o Homem ou o Cosmos é exaltar a Deus, pois todos os seus nomes que foram revelados de manifestam neles, e sendo o Cosmos um Deus, também o é o Homem.

Essa é a verdade do Homem Universal, para a qual Guénon chamou atenção, e a qual Charles Upton alertou estar sendo perdida com a modernidade.

Antes do esquecimento do Ser, há o esquecimento do Homem, da sacralidade do mundo e da correspondência entre Macrocósmo e Microcósmo. Ora, mesmo os que quiseram vencer o niilismo acreditavam em alguma sacralidade, acreditavam que o Ser estava, ao menos, oculto no Devir, por que não conseguiram? Por que sua lembrança é senão um deslumbramento infantil de uma beleza incompreendida? Porque se esqueceram da sacralidade do altar dessa Divindade, que reduziram ao Devir.
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A parte terrestre do Cosmos é preservada pelas artes e ciências, sem as quais o mundo seria imperfeito aos olhos de Deus.

[...]

Deus, Criador do Cosmos e de tudo o que ele contém, governa todo esse conjunto e o submete o governo do homem. E assim o homem faz disso sua atividade própria, de modo que o Cosmos e o homem são são um o ornamento do outro, e é com razão que o Cosmos em grego de chama ordem [Kosmos; a palavra "cosmético" que significa ornamento vem de kosmos].

Logos Teleios, 8.
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Uma questão central para a Arte

Acho que eu subestimei o debate sobre o conteúdo produzido por IA ser arte. Ele é talvez o debate central de toda a arte. Pois conhecer é adequação do sujeito ao objeto. Fazer (poiesis) a expansão do sujeito sobre o objeto através de seus conceitos.

Quando o sujeito faz algo, é através daquilo que conhece; ele imparta um objeto em outro objeto, isso faz a arte morta, por isso Platão desgostou dos poetas na República. (O sujeito conhece o objeto A, então trabalha o objeto B à imagem de A, arte morta).

Que poderia, então, de subjetivo, ser imposto na obra artística? Nada? Então a arte feita por IA é arte. Algo? Então o que a IA faz não é arte, no máximo, arte morta.

Não é, portanto, uma questão sobre IA ou qualquer outro assunto normie, é se há arte viva ou se toda arte é morta.
Um norte para responder essa questão seria investigar a natureza de coisas como o numen, que quando vistas pelo homem enquanto homem, e não enquanto um observador separado que objetifica tudo, até a própria consciência, parecem fugir da objetividade.
Embora Deus seja tudo em tudo, a humanidade não é Deus. Pode-se, no entanto, admitir a afirmação de Hermes Trismegisto, em sólida compreensão. Ele disse que Deus é nomeado com o nome de todas as coisas e todas as coisas com o nome de Deus. Como resultado, uma pessoa pode ser chamada de deus feito humano.

-- Nicolau de Cusa, Sobre o Presente do Pai das Luzes, 2. (TH. 38a)
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Forwarded from Alexandria Apócrifa
Como! Este suposto grande arcebispo [ou seja, o Papa; em latim sacerdotum princeps; em grego [αρχιερευς], excomungando todos os dias Vossa Majestade pelo nome na presença de todos os homens e todos os seus súbditos romanos (em latim Graecos), chamando descaradamente de hereges os romanos mais ortodoxos, de quem a fé cristã chegou aos limites extremos do Universo...

Desejamos defender não apenas nossos próprios direitos, mas também os de nossos vizinhos amigos e amados, a quem o amor puro e sincero em Cristo uniu a nós, e especialmente os gregos, nossos amigos íntimos... [O papa chama] os gregos mais piedosos e ortodoxos de ímpios e hereges.


_ Cartas de Frederico II Hohenstaufen, Sacro Imperador Romano-Germânico ao "Imperador" de Tessalônica ou déspota de Épiro Teodoro Komnenos Doukas
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Forwarded from Alexandria Apócrifa
Assim, a alma, sendo composta, passa de um caminho para outro e de um lugar, forma e sinal para outros conjuntos de formas e figuras, e fica inquieta ao andar em círculos, prejudicando-se ao se voltar ocasionalmente para o prazer e viver na devassidão. Sendo corrompida mil vezes, a alma, portanto, arruína seus olhos ao se deixar levar pelo prazer e desprezar a dignidade da imaterialidade. Por essa razão, depois de absorver em si mesma as corrupções do momento — e porque ela se corrompe com a corrupção por sua própria vontade —, a alma se aproxima da destruição e gira em círculos, imitando a inconstância do tempo. Pois a tendência obscura do momento, a inconstância da fortuna, o relaxamento da alma e a mudança das circunstâncias conferem inexistência às coisas que parecem existir e assolam o viajante alegre com a dureza da tristeza.


_ Peças Morais do Imperador Teodoro II Laskáris de Niceia
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Adão Primordial

Ó humanidade! Lembrai-vos do vosso Senhor que vos criou de uma única alma (nafs), e dela Ele criou a sua companheira, e através de ambos Ele espalhou incontáveis homens e mulheres.
-- Al-Corão, 4:1

Abd al-Razzaq Kashani, em seu comentário ao Corão, diz que esta alma “é a alma-racional-discursiva (al-nafs al-natiqa al-kulliyya) que é o coração do mundo, sendo o verdadeiro Adão.”
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Forwarded from Alexandria Apócrifa
E nada mais dissipa os furacões mais contínuos da tristeza do que a lembrança de Deus (μνημονεύειν Θεοῦ), e o saber que, mesmo sendo mortais e criados e assim existindo, ainda assim jamais veremos acontecer algo para nossa destruição, mas tudo, de fato, serve fortemente para a salvação, por meio do Espírito.


Pois até mesmo os primeiros intelectos (νοῦς) se apresentam a Ele com servidão, por meio de quem também a φύσις (natureza), tendo-se separado d’Ele e deslizando para aquilo que deseja, é restaurada; por meio de quem ela se torna virtuosa (ἀρεταίνει), por meio de quem foi elevada (ἐπήχθη) e por meio de quem permanece (διαμένει), ainda que, por causa da multiplicidade (πολυειδὲς) própria dela, se apresse em direção à dissolução (τὸ λυθῆναι).”


Pois, quando este (a natureza humana) se reverte e se transforma, a instabilidade das coisas da vida torna-se manifesta, porque também os próprios traços/disposições da alma, ao mudarem, saltam para fora das relações anteriores (subordinação do Nous a Deus), sem guardar memória de nenhuma daquelas coisas que antes amava ternamente.


_ Peças Morais do Imperador Teodoro II Láskaris de Niceia
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O Casamento de Dioniso

Naxos, cercada pelo mar Egeu, deu-lhe em casamento uma donzela abandonada [Ariadne], compensando sua perda com um marido melhor. Da rocha seca jorrou licor nictélico [vinho]; riachos murmurantes dividiram os prados verdejantes; a terra profunda bebeu os sucos doces, fontes brancas de leite nevado e vinho lésbico misturado com tomilho perfumado. A noiva recém-casada é conduzida aos céus elevados; Febo [Apolo] canta um hino majestoso, com seus cachos caindo sobre os ombros, e os gêmeos Cupidos [Erotes] brandem suas tochas. Júpiter [Zeus] depõe suas armas de fogo e, quando Baco chega, abomina seu raio.

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Διος Φως

Enquanto as estrelas brilhantes dos céus antigos correrem em seus cursos; enquanto Oceano circunda a terra aprisionada com suas águas; enquanto a Lua cheia [Selene, a lua] reune novamente seu esplendor perdido; enquanto Lúcifer [Eósforo, a estrela da manhã] anuncia o amanhecer, e enquanto as majestosas Ursas [constelações Ursae] não conhecem nada do caerúleo Nereu; por tanto tempo adoraremos o rosto brilhante do belo Lieu [Dionísio]."

- Sêneca, Édipo, 401ss.
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Νοῦς Διός

Resta-nos agora ascender à hyparxis ou mônada de todos os Deuses mundanos, Dioniso, em cuja divindade todos eles subsistem e estão enraizados, de forma semelhante às estrelas fixas na esfera inerrática. Pois, desta maneira, cada mônada contém analogamente sua multidão coordenada. Dioniso, portanto, é o intelecto mundano, do qual a alma e o corpo do mundo se originam.

-- Thomas Taylor, in Proclo, Theologia Platonica, VII, 23.
Entre os homens não há povo tão selvagem e feroz a ponto de negar a necessidade de adorar a Deus, por mais ignorante que seja a respeito da natureza de seus atributos.

- Cícero. Leis, I:23.
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A Definição de "Lei"

Eles também pensam que o nome grego para lei (νόμος), derivado de νέμω, distribuir, implica a própria natureza da coisa, ou seja, dar a cada um o que lhe é devido. De minha parte, imagino que a essência moral da lei seja melhor expressa por seu nome latino, (lex), que transmite a ideia de seleção ou discriminação. Segundo os gregos, portanto, o nome lei implica uma distribuição equitativa dos bens; segundo os romanos, uma discriminação equitativa entre o bem e o mal.

A verdadeira definição de lei deve, no entanto, incluir ambas as características.

- Cícero. Leis, I:18-9
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É interessante especular que a sentença de Herótodo (Hist. III, 38) não se trata de mero clubismo e negação de uma universalidade, mas dessa noção do nomos sendo o paradigma de um povo, a ele distribuído por Deus e por ele utilizado para julgar o mundo.

"οὕτω νομίζουσι πολλόν τι καλλίστους τοὺς ἑωυτῶν νόμους ἕκαστοι εἶναι; assim, cada um acredita/julga que os seus próprios costumes/leis são de longe os mais belos"

Outra ocorrência de "nomos" como juízo:

"καὶ τὸ μὴ μίσγεσθαι γυναιξὶ ἐν ἱροῖσι μηδὲ ἀλούτους ἀπὸ γυναικῶν ἐς ἱρὰ ἐσιέναι οὗτοι εἰσὶ οἱ πρῶτοι θρησκεύσαντες. οἱ μὲν γὰρ ἄλλοι σχεδὸν πάντες ἄνθρωποι, πλὴν Αἰγυπτίων καὶ Ἑλλήνων, μίσγονται ἐν ἱροῖσι καὶ ἀπὸ γυναικῶν ἀνιστάμενοι ἄλουτοι ἐσέρχονται ἐς ἱρόν, νομίζοντες ἀνθρώπους εἶναι κατά περ τὰ ἄλλα κτήνεα·

E quanto a não se deitar com mulheres nos templos, nem entrar impuros (isto é, sem se lavarem) nos santuários após as mulheres — esses são os primeiros que praticaram esse culto. Pois quase todos os outros homens, exceto os egípcios e os gregos, se deitam com mulheres nos templos e, levantando-se das mulheres, entram sem se lavarem no santuário, julgando/tendo-por-costume-ou-lei que os homens são como os outros animais."

(História, II, 64)
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Quando Cícero prega a necessidade de adorar a Deus, o faz pois isso é indissociável do Nomos recebido dos Deuses pela Polis. Ele não trata de crer em um Deus, mas de adorar, justamente por esse motivo. A impiedade, a transgressão à lei, o esquecimento das tradições, estavam todos contidos no que se entendia por "ateísmo", que por violar a Pax Deorum da Polis ou Civis, a levaria à perdição.

Por isso Zósimo Historiador relata a salvação de Atenas pela manutenção da piedade, e a danação de Roma pela impiedade.
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"Tendo os tebanos escapado, ele avançou para Atenas, esperando tomar aquela cidade com facilidade, visto que, devido à sua magnitude, não poderia ser facilmente defendida; nem, sendo contígua ao Pireu, poderia resistir por muito tempo antes de ser obrigada a se render.

Essa era a esperança de Alarico. Mas a antiguidade da cidade, em meio a esses desígnios ímpios, foi capaz de chamar em seu auxílio as divindades que a presidiam, pelas quais foi preservada.

[...]

Enquanto se ocupavam com essas reflexões, Pompeiano, o prefeito da cidade, encontrou-se acidentalmente com algumas pessoas que tinham vindo da Toscana para Roma, e relataram que uma cidade chamada Neveia havia se livrado de um perigo extremo, tendo os bárbaros sido repelidos por tempestades de trovões e relâmpagos, causadas pela devoção de seus habitantes aos deuses, no antigo modo de culto. Tendo conversado com esses homens, ele realizou tudo o que estava em seu poder, de acordo com os livros dos principais sacerdotes. Recordando, no entanto, as opiniões então predominantes, resolveu proceder com maior cautela e propôs todo o assunto ao bispo da cidade, cujo nome era Inocêncio. Preferindo a preservação da cidade à sua própria opinião particular, deu-lhes permissão para fazerem em particular o que soubessem ser conveniente. Declararam, no entanto, que o que pudessem fazer seria inútil, a menos que os sacrifícios públicos e costumeiros fossem realizados e a menos que o senado subisse à capital, realizando ali e nos diferentes mercados da cidade tudo o que fosse essencial. Como ninguém ousou participar das antigas ordenanças religiosas, dispensaram os homens que vieram da Toscana e se dedicaram a apaziguar os bárbaros da melhor maneira possível."

(Zósimo. Historia Nova, V)
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