♃ | Augusto Freddo Fleck
90 subscribers
60 photos
23 links
Gaúcho, dissidente, bacharel em Ciências Sociais e tradutor.
Download Telegram
Lewis Hamilton, em entrevista recente, disse que espera muito que os líderes africanos se unam para "tomar a África" de volta dos europeus e expulsá-los. Esse é um ótimo exemplo de análise que exige contexto do autor. Explico:

Em sentido estrito, Hamilton exprime uma opinião que poderia ser considerada bastante alinhada com os princípios de uma soberania alternativa ao pós-modernismo liberal.

Mas Hamilton é o filho querido e porta-voz do falso identitarismo, abraçando toda e qualquer pauta pós-moderna como um verdadeiro outdoor ambulante. Focando ainda especificamente na ideia implicada na expressão "tomar de volta" a África, caímos num ponto interessante sobre a distinção entre uma teoria dos grandes espaços que pense a soberania do espaço africano e um discurso "decolonial" do ressentimento.

Vejam, qualquer pessoa que esteja mais ou menos inserida na proposta dissidente de uma quarta teoria política, uma política ontológica e pragmática, a ideia de uma "África para os africanos" que expulse os últimos vestígios de domínio colonial do continente é absolutamente bela e moral.

O mesmo direito que europeus tem de se revoltar contra a crise migratória que vivem tem os africanos em desejar a partida daqueles que os subjugam. Mas há uma nuance importante a ser considerada desde um falso discurso soberanista decolonial que não é outra coisa se não um artifício liberal.

O problema surge quando esse discurso se maquia de algum devaneio pseudo-reconstrucionista de uma identidade africana — ou até mesmo no nosso caso, latino-americana — pré-colonial.

Isso simplesmente não existe.

A África antes da colonização era um território vasto e disputado por uma miríade de identidades e formações civilizatórias. Qualquer ideia de pan-africanismo existe como um projeto de resistência posterior e que implica uma visão geopolítica mais ampla sem a homogeneização cultural de seus povos.

É aí que a dissidência, ao meu ver, se separa integralmente do pensamento decolonial. Enquanto aquele reconhece a decadência moderna da Europa e seus erros espalhados pelo mundo, ela também reconhece que no interior de muitos desses erros — entre os quais está a colonização como uma forma pervertida e decaída da conquista — emergem novas possibilidades existenciais para novos povos, que englobam aspectos de suas diversas afluentes simbólicas conforme suas assimetrias históricas.

Para o decolonial, por outro lado, tudo (sem hipérbole, é tudo mesmo) que chega da Europa para outros continentes é uma chaga que deve ser apagada. É o ressentimento vitimista das esquerdas pós-modernas afrancesadas que vivem de um fetichismo antropológico pelos povos autóctones. Ironicamente, seus conceitos são emprestados do pensamento europeu masoquista e travestidos de reconstrucionismo quimérico e materialista das cosmovisões locais. É o mesmo tipo de gente que, paradoxalmente, acha um absurdo que europeus sejam contra migrações em massa.

Então é importante que se saiba que a África que pode "retomar" seu território é uma África bastante plural, profundamente influenciada e formada pela herança europeia sem se subjugar a esta, e que se abraçar esse caminho saberá que o faz através de um esforço geopolítico mais amplo de resistência.

O mesmo pode ser dito da América, naturalmente.
👍62
Trump, falastrão que é, anunciou a vitória na guerra contra o Irã. Só faltou combinar com os iranianos que continuam bombardeando a região, neste exato momento.

Surpreende? Não. O presidente norte-americano traz esse elemento de canastrice sincera para o cenário geopolítico, que abre certas oportunidades escancarando o que sempre foi o caráter dos EUA. Neste sentido, ele é útil.

Isso, naturalmente, não é um elogio a Trump, apenas uma constatação de quem procura no caos uma escada.
👍311
Um século depois da República de Weimar, o Brasil descende em sua própria República de Neymar:

Apatia, jogatina e putaria.
👍21
Quando essa figura realizou aquela denúncia em vídeo sobre a exploração de menores, eu inicialmente elogiei e desconfiei das críticas excessivas porque me pareciam aquele tipo de ataque programado pra colocar o tema sob o tapete. Conforme as coisas se desenvolveram e esse apoio da mídia se manifestou, os primeiros sinais de alerta se acenderam.

Depois, suas manifestações e campanhas recheadas de simbologia esotérica pesada que deixavam até dúvidas se ele era já um agente declarado ou apenas um peão útil de forças obscuras.

Mas sua resposta extremamente evasiva e condescendente sobre a "Lei Felca" e agora essa emergência como símbolo midiático do cuidado com saúde mental e perigos do ambiente digital, sendo ele mesmo uma figura claramente limítrofe e com históricos questionáveis, só fortalece a convicção de que Felca, é, de fato, um agente de subversão através de uma máscara de empatia.

Não me surpreenderia que aparecessem ligações mais ou menos diretas com Israel e o sionismo, visto que essa é uma prática bastante típica da sua ideologia, baseada na infiltração através da traição redentora.

Ele me recorda em muito o problema com as caridades e ações da tal Martina Oliveira, que sob a máscara da caridade acaba vendendo um universo de perversidade e devassidão que atraem cada vez mais jovens desavisados.
👍42
Uma noite em tempos imemoriais, o homem despertou e viu a si mesmo: Constatou que estava nu sob o cosmos, desabrigado em seu próprio corpo. Todas as coisas se dissolveram diante de seu pensamento inquisidor, espanto sobre espanto, horror sobre horror desdobraram-se em sua mente.

— Peter Wessel Zapffe
👍41
Com o compromisso de Washington com a segurança do Golfo reduzido a birras transacionais e tuítes do presidente, a Grã-Bretanha apresenta-se como o confiável “equilibrador externo” numa região que outrora dominou por meio de navios de guerra e cartógrafos.

No entanto, essa postura esconde um vazio profundo. A estratégia da “Grã-Bretanha Global” é, em essência, uma tentativa de conquistar os aliados de Trump e suplantar a influência em declínio dos EUA, apostando que as elites do Golfo preferirão o mal conhecido de Londres ao abraço incerto de Pequim ou Moscou.

https://www.youtube.com/watch?v=iqsNr3Psh5M
3
Por razões porcamente esclarecidas, ou sequer esclarecidas, minha velha conta do X/Twitter foi obliterada da existência, um tipo de ação que até então estava restrita ao universo do Meta.

Como se diz aqui no RS, não tá morto quem peleia, e já estamos de volta. Peço a gentileza de todos para que sigam a conta nova:

https://x.com/4ffleck
1
Os indicados ao STF já rejeitados pelo Senado:

Jorge Messias — indicado por Luiz Inácio Lula da Silva (2026)
Cândido Barata Ribeiro — indicado por Floriano Peixoto (1894)
Ewerton Quadros — indicado por Floriano Peixoto (1894)
Demóstenes Lobo — indicado por Floriano Peixoto (1894)
Galvão de Queiroz — indicado por Floriano Peixoto (1894)
Antônio Seve Navarro — indicado por Floriano Peixoto (1894)

É um notável movimento do campo simbólico na bacia semântica do perturbado e picotado período republicano do Brasil, que agoniza e já é mantido em aparelhos como um vegetal catinguento.

No caso de Floriano Peixoto, a reação era de uma elite política e econômica que viria a representar todo o mal que corrompia e ainda corrompe um vero processo civilizatório brasileiro. No final de seu mandato, era soterrado por uma oligarquia podre.

No caso de Lula, é o sinal dos tempos deste mesmo sistema, agora em estágio de autofagia tardia. Tendo soterrado qualquer possibilidade de um Brasil real, consome a si mesmo para deixar somente o caos.

Floriano era um representante do Brasil profundo contra o parasitismo colonial que nunca abandonou o centro de poder litorâneo. Vargas era seu herdeiro.

Lula é o oposto, é a própria essência da corrupção brasileira encarnada num falso "trabalhador". Tudo o que Floriano ousou e Vargas realizou, ele veio para destruir.

É a ironia cíclica, a paródia que procede a tragédia.

O que virá depois?
4👍1👏1
É difícil não rir da imensa ironia nos conservadores ocidentais que defendem o "Branco" e seu QI avantajado terem tanta dificuldade em interpretar o que Alexander Dugin quer dizer quando propõe que essa identidade é uma idiotice mentirosa, e é.

Se considerarmos a identidade coletiva de um povo tanto desde seus aspectos ontológicos quanto étnicos, a ideia de uma raça branca está despida de qualquer caráter historial significativo. Nunca houve nem haverá uma unidade branca, que acaba sendo um enquadramento tão ridículo quanto o acusatório "branquitude" tecido pelos antirracistas.

A distinção do branco, seja ela datada como qualificatório de valor evolucionista durante certo período de análise antropológica ou princípio etéreo de superioridade racial durante o século XX, sempre encontrou disparidade classificatória entre os próprios europeus, quiçá entre aqueles supostos brancos de terras além-mar, nascidos dos esforços de colonização.

Como referencial simbólico central na resistência ao multiculturalismo desenraizante e a imigração desenfreda, é extremamente limitado e evoca erros passados e já tardios de justificação para um pan-europeísmo, especialmente por seu esvaziamento espiritual. Não há sentido em falar sobre raça branca em qualquer contexto pré-moderno, que seria a raiz fundamental para a qual se voltar em um processo de renascimento.

A única alternativa viável para o conceito de raça é como proposição ontológica, em que povos se unem através de uma raiz que não é só genética, mas fundamentalmente existencial, um destino comum.

Enquanto os conservadores seguirem insistindo na bandeira civilizacional do branco, seguirão também protegendo, sob seu manto, o próprio inimigo.

Oportunamente, abre-se aí também uma reflexão necessária para nossa própria noção de miscigenação, que para além de "parditude" e questões raciais modernas, envolve a sua incorporação como um existencial, a "raça cósmica".
👏2👍1
O problema da esquerda é que em nenhum momento dessa suposta hegemonia política ela foi capaz de produzir qualquer miséria que se assemelhasse com uma unidade política ou civilizacional, um destino comum, um projeto geopolítico. Sempre foram governos marcados por personalidades sedentas por poder, corruptas e, quando nacionalistas, de um viés liberal e limitado.

Por outro lado, essa direita que começa a dominar em 2026 (e aí deve-se incluir, até provado contrário, a Venezuela sequestrada), está diretamente alinhada com o pacto trump-sionista.

O timing do sequestro de Maduro, inclusive, coincide perfeitamente com o avanço sobre territórios argentinos para locação (ocupação) israelense. Maduro era, com todas as suas limitações, considerado há anos o inimigo número um de Israel em toda a América Ibérica.

É um prognóstico pra lá de sombrio.
👍2
Forwarded from Raphael Machado
Forwarded from Raphael Machado
NOVO LANÇAMENTO NA EDITORA ARS REGIA
(https://t.me/editora_arsregia)

Essa semana anunciamos o lançamento em português de um dos mais interessantes tratamentos acadêmicos da obra de Alexander Dugin, a tese de doutorado do filósofo italiano Lorenzo Maria Pacini, entitulada "Dugin e Platão".

Uma mitologia ressentida, gestada especialmente entre comunistas e liberais, diz que Dugin não é um autor "relevante" ou "sério". E é óbvio, para os que acompanham os estudos duginianos, que isso não é verdade. As monografias e teses de mestrado e doutorado sobre seu pensamento se multiplicam. Esta que estamos publicando é uma das melhores.

"Dugin e Platão" constitui um esforço de examinar criticamente as reflexões duginianas sobre o projeto político de Platão, especificamente no que diz respeito à "cidade ideal", bem como da fundação ontológica de todos os projetos políticos possíveis, tal como aparece no diálogo "Parmênides". Nesse esforço se lança mão não apenas propriamente da obra "Platonismo Político", mas também de "A Quarta Teoria Política" e da "Noomaquia", o que culmina num esforço de amarrar os diferentes aspectos do duginismo numa cosmovisão consistente.

A obra de Pacini, portanto, dá uma contribuição inestimável para o estudo do pensamento político-filosófico de Dugin e merece a atenção de todos os que estejam interessados em reflexões que escapem aos lugares-comuns banais do debate político-filosófico mainstream.

Para adquirir a obra, mande um e-mail para: editora.arsregia@gmail.com
2
♃ | Augusto Freddo Fleck
Photo
Rompi o lacre social das parcialidades que guardam as estranhezas.
Não fingi gosto, tão pouco adornei com alva brandura o puto maldito do mundo.
Fiz-me alma pura. Pura treva.
Se me olhas pela beirada dos olhos como que dando uma espiadela efêmera e covarde não é porque a mim temes, mas sim porque ao me ver é a tua própria imagem que está em mim.
Fiz versos para todos e para ninguém, plantei sementes de plantas venenosas em solo contaminado, cortei os dias com meus dentes afiados, os mesmos que dilaceram carne de preá e batatas e pisei com os pés sujos na boca dos que sentem sede e nada fazem para saciá-la.
Quem é merecedor de qualquer coisa diferente disso?
Apenas os revolucionários merecem outro mundo possível?
Seja como for não se faz revolução porque a mereçam se faz por coragem e sonho.
O que é um revolucionário além de uma espécie de sociopata sonhador?
Há um esqueleto morando dentro cada um de nós, ele nos lembra - ou ao menos deveria nos lembrar - da morte, o símbolo máximo da vida, a sua completude.
O que se compraz com a vida sem alterá-la adianta a própria morte e do pior tipo, o que sacrifica a própria vida sem medo de perdê-la e ousa rabiscar nas ações esboços de transcendência do que quer que seja eterniza a si mesmo.
Quem conserva por anos talos de coisas mortas?

— Fernanda Cristina Monteiro
🔥2
A discussão ao redor dos últimos tweets de Alexander Dugin a respeito do "branquismo" como representação da civilização ocidental é muito oportuna para explicar também porque não podemos taxar sua filosofia de conservadora no sentido mais medíocre do termo.

"Destruction leads to a very rough road but it also breeds creation."

Quando pensamos em uma teoria tradicionalista das civilizações inserida na filosofia cíclica da história, estamos observando como os povos passam por suas fases culturais desde a etnogênese até seu decaimento e potencial extinção ou, sob certas condições, renascimento.

O que o tradicionalismo e a fenomenologia nos ajudam a compreender, neste contexto, é identificar aqueles elementos fundacionais e, portanto, fundamentais, que sustentarão toda a estrutura imagética e moral dessa civilização enquanto ela luta pela sua existência, isto é, o que é inegociável, identificados principalmente por seus elementos religiosos e tonalidades afetivas que impulsionam sua ação e luta.

Pois bem, quando uma civilização enfrenta crises profundas, algum tipo de pseudomorfose, o embate direto contra um oponente, um fluxo noomáquico de suas afluentes simbólicas, a diluição pela imigração massiva, o que for, sugere-se aí uma clareira para o retorno às verdades formativas, nossa essência em ser-com-os-outros.

O que o conservadorismo confere é a reprodução de uma imagem geracional, que não consegue saltar para além da linearidade temporal e a memória fragmentada de seus herdeiros. O tradicionalismo busca no mito fundador uma redução eidética que permita um novo momento, carregado da mesma intenção primordial.

A exortação realizada por Dugin em sua Quarta Teoria Política é que, desde esta perspectiva, somente um gesto visceral e espiritual de retorno à nós mesmos é que podemos vencer essa luta, e quaisquer outros esforços inseridos dentro de um conservadorismo que conserva apenas uma imagem já poluída das gerações recentes é, no máximo, um paliativo ou corruptela.

A provocação ferrenha, até mesmo hiperbólica, que despreza o branco e pede pela sua destruição, é parte do diagnóstico de que a ideia do "branco" como eixo fundacional unitivo da Europa, do Ocidente, é olhar para o âmago, na verdade, da Europa que construiu o mundo moderno, justamente o mundo que precisa ser destruído, extirpado. Este o mais longe que essa ideia consegue alcançar. É um engodo, uma substituição grosseira deixada por um demônio quando olhamos para dentro e procuramos o coração. É um erro que já fora cometido anteriormente, inclusive.

A morte do branco é deixar morrer uma compreensão falida do que torna aquele povo um povo para que ele possa renascer, no coração do desespero, pelo chamado do que verdadeiramente faz parte de si.

Daí o porquê de outros povos serem mais brancos que o "branco", porque se branco é evocação de uma pureza interior pelos ocidentais, outros povos superficialmente não-brancos estão muito mais próximos de sua própria pureza do que eles, muito mais em contato com o espírito, de onde emerge a verdadeira raça de um povo.

É uma provocação perspicaz, porque se assenta na linguagem do outro.

Não se está pedindo que o europeu abandone tudo o que o formou; é justamente o contrário, se está pedindo que ele deixe apenas de ser burro e pare de tratar como tradicional e formador aspectos moribundos de sua degeneração, para retornar avançando, diante da própria morte, sobre o abismo.