Nada de tudo o que o homem realiza em sua existência criadora – mitos, arte, metafísica, religião, ciência e muito mais – teria lugar se o ser humano não fizesse uso estrutural deste ingrediente fundamental: um horizonte de mistério. Em nota: consideramos este horizonte como imanente e inerente à consciência humana. A consciência humana não se realiza como tal, a menos que este horizonte surja nela. Nenhum ato revelador e nenhum dos problemas colocados pelo espírito humano seriam sequer esboçados se a consciência humana não tivesse um fundo ou um ambiente constitutivo no horizonte do mistério. A este caráter imanente dos mistérios corresponde uma região de instâncias transcendentais que nunca poderiam ser absolutamente adequadas, assim como nunca poderiam ser positivamente convertidas nos termos do conhecimento humano. O horizonte do mistério, como um ingrediente fundamental da existência e da consciência humana, é, portanto, a única porta aberta para as dimensões transcendentais.
— Lucian Blaga
— Lucian Blaga
Em uma era transitória — que por essência é mais rica e obscura do que qualquer outra época jamais poderia ser — os contrapoderes e contrapostos extremos devem subsistir juntos a partir de um fundamento mais profundo e devem reunir o seguinte: os autocentrados, que despertam e perseguem as condições mais imediatas e facilmente assimiláveis do Dasein histórico, como se esta fosse a tarefa pura e simples; os questionadores, que pensam muito à frente e preparam as condições básicas da criatividade por meio das quais o espaço-tempo do Dasein é primeiro fundamentado para todo o povo; os muitos, que se reúnem como semelhantes nas mesmas conquistas e colaborações e reciprocamente se confirmam em sua indispensabilidade; e os poucos, que na solidão assumem o sacrifício da má interpretação e, consequentemente, com base num pertencimento futuro, preparam a história e consumam a transição.
— Martin Heidegger
— Martin Heidegger
Muita gente critica — com uma boa dose de razão — o fato do Halloween ser tão mais famoso e popular no Brasil do que nosso próprio folclore e tradição religiosa.
No entanto, uma questão que considero ainda mais relevante tocar é a metafísica desse Halloween pós-moderno e seus impactos, pois a festa, que aqui e em praticamente todo o mundo liberal e globalizado que o celebra já não lembra em praticamente nada o Samhain, tornou-se primariamente um tipo de "culto ao terror", que em sua essência artística representa um mergulho nas dimensões da morte, escuridão e sonho como mediuns do horizonte do mistério, mais especificamente das regiões abissais do imaginário que são reprimidas pela iconoclastia moderna.
As consequências disso são várias, e requerem uma análise mais demorada do que pretendo aqui, mas podem ser tanto construtivas quanto dispersivas, dependendo da sua operação.
De modo geral, as pessoas tratam tudo com a mesma inautenticidade que a maioria das celebrações contemporâneas carrega, mas é justamente onde não há intenção consciente que reside uma porta dupla para as trevas da inconsciência.
No entanto, uma questão que considero ainda mais relevante tocar é a metafísica desse Halloween pós-moderno e seus impactos, pois a festa, que aqui e em praticamente todo o mundo liberal e globalizado que o celebra já não lembra em praticamente nada o Samhain, tornou-se primariamente um tipo de "culto ao terror", que em sua essência artística representa um mergulho nas dimensões da morte, escuridão e sonho como mediuns do horizonte do mistério, mais especificamente das regiões abissais do imaginário que são reprimidas pela iconoclastia moderna.
As consequências disso são várias, e requerem uma análise mais demorada do que pretendo aqui, mas podem ser tanto construtivas quanto dispersivas, dependendo da sua operação.
De modo geral, as pessoas tratam tudo com a mesma inautenticidade que a maioria das celebrações contemporâneas carrega, mas é justamente onde não há intenção consciente que reside uma porta dupla para as trevas da inconsciência.
Forwarded from Voz da Nova Resistência
“Nada é mais triste do que ver homens que, julgando-se iluminados pela ciência, perderam o lume da consciência, e que, orgulhosos do que sabem, esqueceram tudo o que são.”
- Gustavo Corção
- Gustavo Corção
A esquerda insiste nesse tipo de crítica acéfala achando que vai lacrar partindo de uma rejeição moral essencial ao fascismo. Só que quando tu observa, vê que eles só estão banalizando o termo e possibilitando sua retomada por quem já mais do que cansou dessa narrativa.
Isto é, de tanto anunciar que nem esquizofrênicos um fascismo sentado aqui conosco, apontando para todos os lados, naturalizam-no. Se todo mundo é fascista, ninguém mais se importará em ser fascista.
Isto é, de tanto anunciar que nem esquizofrênicos um fascismo sentado aqui conosco, apontando para todos os lados, naturalizam-no. Se todo mundo é fascista, ninguém mais se importará em ser fascista.
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Forwarded from Geopolitika.ru em Português
O campo de batalha do século XXI estendeu-se enormemente do tradicional e “real” para o império invisível de dados, algoritmos e infraestrutura.
✍️ Augusto Fleck
🗣 Contra o Colonialismo Digital
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Geopolitica.ru
Contra o Colonialismo Digital
O campo de batalha do século XXI estendeu-se enormemente do tradicional e “real” para o império invisível de dados, algoritmos e infraestrutura.
Um dos inúmeros problemas da díade esquerda e direita que ainda polui nossa política contemporânea é o reducionismo sobre a complexidade dos fenômenos para evitar contradições que são, na verdade, inerentes e parte da existência como um todo.
A necessidade de se agarrar num discurso enclausurado em premissas insuficientes cria narrativas que, aí sim, se contradizem não pela essência complexa da realidade, mas pela inconsistência argumentativa.
O caso das operações no Rio de Janeiro exploram algumas dessas, como é o caso da "esquerda" liberal que insiste em sugerir que o problema das facções se dá pelo Estado corrupto que alimenta e "arrenda" territórios ao tráfico, mas nessa análise suprime a agência social do tráfico, como se realmente eles não passassem de peões do poder. O problema é que tu não pode defender algo assim ao mesmo tempo que defende o tráfico como uma agência de resistência à violência e exclusão do mesmo Estado.
A complexidade real e honesta está em entender que sim, o Estado e o Mercado são financiadores diretos do crime e das facções através de múltiplos esquemas de corrupção e submissão social, mas que em diversas esferas o Tráfico age na direção de emancipar-se e sair de uma lógica subalterna, o que inclui o terrorismo, desde uma ampliação de seus lastros sobre o território que comanda, não somente com "autorização" do Estado, mas desde suas próprias intenções, naturalmente, políticas.
Mas não ter essa leitura implica que, ao pensar o contexto mais amplo de "favela" como espaço de exclusão, repressão e práticas de biopolítica pelo Estado malvadão, recusa-se a possibilidade de interpretar as próprias contradições formadoras desse espaço, o que consequentemente cria narrativas bisonhas como a equivalência entre resistência armada palestina e o terrorismo do tráfico, ou a negação diante de pesquisas que apontam o habitante da favela como o principal apoiador da ação policial.
Isto é, esse tipo de pensamento, além de fraco e alienado da realidade, reduz a própria ação das camadas ditas "oprimidas" a um certo tipo de comportamento simplório, infantilizado. É um problema análogo ao discurso supostamente indigenista que olha para o índio do século XVI como sub-humano incapaz de se relacionar nos próprios termos e sempre "vitimado" pela vileza do colonizador. É um racismo condescendente muito mais grave e real do que o racismo estrutural que tentam imputar aos seus opositores.
Sabemos, é claro, que a defesa que essa gente faz dos traficantes está relacionado com uma conexão bem mais direta e profunda com esse fenômeno, mas me parece que nem mesmo assim eles se esforçam para criar um argumento mais forte. É ignorância total da realidade.
A necessidade de se agarrar num discurso enclausurado em premissas insuficientes cria narrativas que, aí sim, se contradizem não pela essência complexa da realidade, mas pela inconsistência argumentativa.
O caso das operações no Rio de Janeiro exploram algumas dessas, como é o caso da "esquerda" liberal que insiste em sugerir que o problema das facções se dá pelo Estado corrupto que alimenta e "arrenda" territórios ao tráfico, mas nessa análise suprime a agência social do tráfico, como se realmente eles não passassem de peões do poder. O problema é que tu não pode defender algo assim ao mesmo tempo que defende o tráfico como uma agência de resistência à violência e exclusão do mesmo Estado.
A complexidade real e honesta está em entender que sim, o Estado e o Mercado são financiadores diretos do crime e das facções através de múltiplos esquemas de corrupção e submissão social, mas que em diversas esferas o Tráfico age na direção de emancipar-se e sair de uma lógica subalterna, o que inclui o terrorismo, desde uma ampliação de seus lastros sobre o território que comanda, não somente com "autorização" do Estado, mas desde suas próprias intenções, naturalmente, políticas.
Mas não ter essa leitura implica que, ao pensar o contexto mais amplo de "favela" como espaço de exclusão, repressão e práticas de biopolítica pelo Estado malvadão, recusa-se a possibilidade de interpretar as próprias contradições formadoras desse espaço, o que consequentemente cria narrativas bisonhas como a equivalência entre resistência armada palestina e o terrorismo do tráfico, ou a negação diante de pesquisas que apontam o habitante da favela como o principal apoiador da ação policial.
Isto é, esse tipo de pensamento, além de fraco e alienado da realidade, reduz a própria ação das camadas ditas "oprimidas" a um certo tipo de comportamento simplório, infantilizado. É um problema análogo ao discurso supostamente indigenista que olha para o índio do século XVI como sub-humano incapaz de se relacionar nos próprios termos e sempre "vitimado" pela vileza do colonizador. É um racismo condescendente muito mais grave e real do que o racismo estrutural que tentam imputar aos seus opositores.
Sabemos, é claro, que a defesa que essa gente faz dos traficantes está relacionado com uma conexão bem mais direta e profunda com esse fenômeno, mas me parece que nem mesmo assim eles se esforçam para criar um argumento mais forte. É ignorância total da realidade.
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♃ | Augusto Freddo Fleck
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Muitas vezes eu me peguei pensando como seria o dia em que Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes partissem. O clubinho.
É um momento particularmente marcante e difícil porque almas como estas, que inspiram e expiram música, vão até os últimos de seus suspiros compondo e cantando.
Os três operam um movimento fascinante e ainda digno de uma atenção mais nobre: Eles descobrem o Brasil num cadinho de Minas Gerais, com um sotaque mineiro e um olhar contemporâneo. Todos entendem que tem um negócio por aí orbitando todo mundo, uns chamam de globalização, outros de outra coisa, confuso pra caramba, mas seja o que for, a gente precisa dar um certo sentido pro nosso lugar nele.
Nessa linha, eles são parte de uma geração musical brasileira que buscava uma identidade no meio da crise destas. Havia um mundo caminhando para o "fim da história" sem perguntar se a gente tinha escrito a nossa.
Hoje parte o Lô Borges, um cara romântico, que escreveu muito sobre amor, o beatlemaníaco da turma, uma alma como poucas. Assim como seus parceiros, pensava a música como uma síntese das possibilidade e um caminho interminável na direção de si mesmo, totalmente dionisíaco.
Deixou uma imensidão de música boa pra gente, com todo o brasileirismo, todo nosso coração. Entre tantos marcos, pensei hoje muito em "Nau Sem Rumo", um pouco do que sentimos hoje:
Será que ainda sabemos ser? Morrer pelas ruas, pelos nossos? Não sei, é um tempo meio estranho. Tem um Brasil que precisa muito dessa cuca perdida, reencontrar na poeira estelar as memórias dos ancestrais, de quem deu a esse povo o ser-povo, destino, comunidade.
O Lô Borges agora pega sua nau sem rumo, iça as velas na beirada do mundo e navega até a eternidade. Que o bom Deus lá o receba em Suas infinitas graças, e que seja eterna a sua música.
Como se cantava naquela velha esquina... Nada será como antes.
É um momento particularmente marcante e difícil porque almas como estas, que inspiram e expiram música, vão até os últimos de seus suspiros compondo e cantando.
Os três operam um movimento fascinante e ainda digno de uma atenção mais nobre: Eles descobrem o Brasil num cadinho de Minas Gerais, com um sotaque mineiro e um olhar contemporâneo. Todos entendem que tem um negócio por aí orbitando todo mundo, uns chamam de globalização, outros de outra coisa, confuso pra caramba, mas seja o que for, a gente precisa dar um certo sentido pro nosso lugar nele.
Nessa linha, eles são parte de uma geração musical brasileira que buscava uma identidade no meio da crise destas. Havia um mundo caminhando para o "fim da história" sem perguntar se a gente tinha escrito a nossa.
Hoje parte o Lô Borges, um cara romântico, que escreveu muito sobre amor, o beatlemaníaco da turma, uma alma como poucas. Assim como seus parceiros, pensava a música como uma síntese das possibilidade e um caminho interminável na direção de si mesmo, totalmente dionisíaco.
Deixou uma imensidão de música boa pra gente, com todo o brasileirismo, todo nosso coração. Entre tantos marcos, pensei hoje muito em "Nau Sem Rumo", um pouco do que sentimos hoje:
Onde foi parar a cuca dos caras
Que aguentaram a barra
De lutar, por nossas ruas morrer
Ou mais simplesmente ser
A poeira da estrela
Será agora e saber
Será que ainda sabemos ser? Morrer pelas ruas, pelos nossos? Não sei, é um tempo meio estranho. Tem um Brasil que precisa muito dessa cuca perdida, reencontrar na poeira estelar as memórias dos ancestrais, de quem deu a esse povo o ser-povo, destino, comunidade.
O Lô Borges agora pega sua nau sem rumo, iça as velas na beirada do mundo e navega até a eternidade. Que o bom Deus lá o receba em Suas infinitas graças, e que seja eterna a sua música.
Como se cantava naquela velha esquina... Nada será como antes.
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A busca de um equilíbrio entre a celebração da formação singular do Brasil e a crítica das estruturas de dominação que constituem essa formação é a tensão que atravessa todo o pensamento sociológico brasileiro.
De um lado, reconhecer a potência simbólica, estética e espiritual da mestiçagem, do sincretismo, da religiosidade popular e da herança ibérica. De outro, compreender que essas mesmas forças se desenvolveram sob o signo da exploração e da desigualdade persistente.
Uma síntese entre essas duas perspectivas é a forma mais fecunda para pensar o Brasil.
— Rodolfo S. Souza
De um lado, reconhecer a potência simbólica, estética e espiritual da mestiçagem, do sincretismo, da religiosidade popular e da herança ibérica. De outro, compreender que essas mesmas forças se desenvolveram sob o signo da exploração e da desigualdade persistente.
Uma síntese entre essas duas perspectivas é a forma mais fecunda para pensar o Brasil.
— Rodolfo S. Souza
O estranhamento inquietante dos objetos mais familiares é o preço pago pelo melancólico às potências que fazem guarda ao inacessível. O anjo que medita não é, segundo uma interpretação já tradicional, o símbolo da impossibilidade da Geometria, e das artes que nela se fundamentam, de alcançar o incorpóreo mundo metafísico, mas, pelo contrário, é o emblema da tentativa do homem, no limite de um risco psíquico essencial, de dar corpo aos próprios fantasmas e de tornar predominante, em uma prática artística, aquilo que, do contrário, não poderia ser captado nem conhecido. O compasso, a esfera, a mola, o martelo, a balança, a régua, que a intenção melancólica esvaziou de seu sentido habitual e transformou em emblemas do próprio luto, já não significam nada mais que o espaço que eles tecem para a epifania do inapreensível.
— Giorgio Agamben
— Giorgio Agamben
Faleceu João Chagas Leite, um dos maiores compositores que o Rio Grande do Sul já teve, somando 13 conquistas de primeiro lugar nos festivais nativistas.
Sempre teve uma visão profundamente holística sobre o espaço da música regional no Brasil, crítico da indústria midiática que sempre dificultou a livre circulação da música popular entre os estados, preferindo difundir este ou aquele estilo.
Sua composição "Desassossegos" continua até hoje um marco na música gaúcha, com um poema contemplativo e conectado com as raízes melancólicas do espírito pampeano e uma instrumentação que une a melodia nativista com a música moderna.
Que Deus o receba em Suas infinitas graças e que sua música seja eterna.
Sempre teve uma visão profundamente holística sobre o espaço da música regional no Brasil, crítico da indústria midiática que sempre dificultou a livre circulação da música popular entre os estados, preferindo difundir este ou aquele estilo.
Sua composição "Desassossegos" continua até hoje um marco na música gaúcha, com um poema contemplativo e conectado com as raízes melancólicas do espírito pampeano e uma instrumentação que une a melodia nativista com a música moderna.
Que Deus o receba em Suas infinitas graças e que sua música seja eterna.
♃ | Augusto Freddo Fleck
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Frankenstein; ou, O Prometeu Pós-Moderno
Releitura cinematográfica de uma das obras mais clássicas do horror gótico, o Frankenstein de Guillermo del Toro foi ansiosamente aguardado por entusiastas do gênero ao combinar uma narrativa celebrada com um diretor e roteirista consagrado em sua arte. Mergulhemos então na essência desta nova adaptação e indaguemos sobre o que suas particularidades revelam sobre como o imaginário deste mundo olharia hoje para o mito prometeico de Mary Shelley.
A obra
Uma das obras seminais do horror gótico, Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno é uma estória notável pelo alcance imagético e filosófico permitido, embebida fartamente no romantismo alemão e nas longas conversas sobre ciência e esoterismo das quais Mary Shelley foi entusiasmada participante.
A obra representa uma incursão em elementos místicos e estruturais do imaginário histórico através de um reordenamento moderno. A natureza, incluindo a humana, a criação, a culpa, a húbris, conhecimento, ambição e danação, todos são temas universais que aqui são reincorporados nesta roupagem horrífica e, no limite, pessimista.
Com o tempo e sucesso, ela foi incorporada pelo fenômeno tardiamente moderno e pós-moderno que denomino “culto ao horror”, em que este estilo artístico é empregado e consumido como ponte para a escuridão do inconsciente através das ramificações entre os reinos da morte, da treva e do sonho. Esferas cuja emancipação ocorre posteriormente aos danos do iconoclasmo iluminista e o corte que este faz das dimensões verticais da existência.
Isso se verifica, por exemplo, em apesar do nome da obra tratar do seu personagem mais trágica e complexamente humano, o mesmo ser continuamente atribuído, na memória popular, à figura inominada do Monstro, a criação maldita de Victor Frankenstein. Como filho que se apropria do nome, o monstro é reconhecido como o verdadeiro portal para o horror e suas imagens primordiais, enquanto o homem é esquecido como o vilão de uma humanidade corrupta.
O Prometeu Moderno é, de fato, Victor. O homem que rouba a chama da criação sem conceber o alcance de quaisquer consequências e é punido em sua húbris pela própria criação atormentada, lançada ao mundo e impreterivelmente apartada deste. A criatura, que combina os arquétipos do bom selvagem com a tortura existencial do leproso social, não é necessariamente vítima, mas parte de um ciclo narrativo de vingança e perda.
No cinema
As iterações cinematográficas de Frankenstein sempre tiveram dificuldades em captar com a devida acuidade as naturezas monstruosa e humana da criatura. Ela era ora muito mais horrenda do que o descrito por Shelley, ora desprovida de inteligência, sendo capaz de pouco mais que urros e murros. A intenção tornava-se menos a exploração dos temas interiores e filosóficos da obra, mas o aproveitamento da ideia do monstro como válvula da escuridão violenta. Algumas exceções obtiveram mais acesso ao conteúdo psicológico do personagem, como o monstro de Penny Dreadful, embora ali ele fosse apenas um participante de uma trama mais expansiva.
Inobstante, a expectativa era muito mais alta quando anunciada a adaptação cinematográfica de Guillermo del Toro, lançado agora no início de Novembro. Isso se deve tanto ao histórico de del Toro como diretor e roteirista de fantasia e terror, um habilidoso manipulador do grotesco e inominável que reside nas sombras, ao mesmo tempo que é capaz de conferir à própria natureza monstruosa de suas criações uma profundidade existencial digna. Além disso, trata-se de um projeto de amor artístico, obstinadamente perseguido ao longo de 30 anos… uma epopéia frankensteiniana, ao seu modo.
O Monstro de del Toro é uma vivificação bastante criativa, incorporando a feiura e uma certa delicadeza como fonte de reflexão acerca da natureza fundamental da criação, adequadamente incorporando a limitação inicial deste homúnculus lançado ao mundo e rejeitado até sua adoção e educação, quando adquire o caráter reflexivo e letrado que tanto evadiu as adaptações precedentes.
O diretor também se propôs corajosamente a um
Releitura cinematográfica de uma das obras mais clássicas do horror gótico, o Frankenstein de Guillermo del Toro foi ansiosamente aguardado por entusiastas do gênero ao combinar uma narrativa celebrada com um diretor e roteirista consagrado em sua arte. Mergulhemos então na essência desta nova adaptação e indaguemos sobre o que suas particularidades revelam sobre como o imaginário deste mundo olharia hoje para o mito prometeico de Mary Shelley.
A obra
Uma das obras seminais do horror gótico, Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno é uma estória notável pelo alcance imagético e filosófico permitido, embebida fartamente no romantismo alemão e nas longas conversas sobre ciência e esoterismo das quais Mary Shelley foi entusiasmada participante.
A obra representa uma incursão em elementos místicos e estruturais do imaginário histórico através de um reordenamento moderno. A natureza, incluindo a humana, a criação, a culpa, a húbris, conhecimento, ambição e danação, todos são temas universais que aqui são reincorporados nesta roupagem horrífica e, no limite, pessimista.
Com o tempo e sucesso, ela foi incorporada pelo fenômeno tardiamente moderno e pós-moderno que denomino “culto ao horror”, em que este estilo artístico é empregado e consumido como ponte para a escuridão do inconsciente através das ramificações entre os reinos da morte, da treva e do sonho. Esferas cuja emancipação ocorre posteriormente aos danos do iconoclasmo iluminista e o corte que este faz das dimensões verticais da existência.
Isso se verifica, por exemplo, em apesar do nome da obra tratar do seu personagem mais trágica e complexamente humano, o mesmo ser continuamente atribuído, na memória popular, à figura inominada do Monstro, a criação maldita de Victor Frankenstein. Como filho que se apropria do nome, o monstro é reconhecido como o verdadeiro portal para o horror e suas imagens primordiais, enquanto o homem é esquecido como o vilão de uma humanidade corrupta.
O Prometeu Moderno é, de fato, Victor. O homem que rouba a chama da criação sem conceber o alcance de quaisquer consequências e é punido em sua húbris pela própria criação atormentada, lançada ao mundo e impreterivelmente apartada deste. A criatura, que combina os arquétipos do bom selvagem com a tortura existencial do leproso social, não é necessariamente vítima, mas parte de um ciclo narrativo de vingança e perda.
No cinema
As iterações cinematográficas de Frankenstein sempre tiveram dificuldades em captar com a devida acuidade as naturezas monstruosa e humana da criatura. Ela era ora muito mais horrenda do que o descrito por Shelley, ora desprovida de inteligência, sendo capaz de pouco mais que urros e murros. A intenção tornava-se menos a exploração dos temas interiores e filosóficos da obra, mas o aproveitamento da ideia do monstro como válvula da escuridão violenta. Algumas exceções obtiveram mais acesso ao conteúdo psicológico do personagem, como o monstro de Penny Dreadful, embora ali ele fosse apenas um participante de uma trama mais expansiva.
Inobstante, a expectativa era muito mais alta quando anunciada a adaptação cinematográfica de Guillermo del Toro, lançado agora no início de Novembro. Isso se deve tanto ao histórico de del Toro como diretor e roteirista de fantasia e terror, um habilidoso manipulador do grotesco e inominável que reside nas sombras, ao mesmo tempo que é capaz de conferir à própria natureza monstruosa de suas criações uma profundidade existencial digna. Além disso, trata-se de um projeto de amor artístico, obstinadamente perseguido ao longo de 30 anos… uma epopéia frankensteiniana, ao seu modo.
O Monstro de del Toro é uma vivificação bastante criativa, incorporando a feiura e uma certa delicadeza como fonte de reflexão acerca da natureza fundamental da criação, adequadamente incorporando a limitação inicial deste homúnculus lançado ao mundo e rejeitado até sua adoção e educação, quando adquire o caráter reflexivo e letrado que tanto evadiu as adaptações precedentes.
O diretor também se propôs corajosamente a um
♃ | Augusto Freddo Fleck
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m tipo de produção que detêm cada vez menos espaço no cinema, ao abandonar a onda massiva de efeitos digitais em favor de efeitos práticos e longas preparações com figurino, cenário e artefatos. Trata-se de um importante gesto na direção não só da autenticidade criativa, mas um reavivamento da noção de trabalho como envolvimento direto entre artista e arte.
O resultado não poderia ser mais visualmente espetacular. De modo semelhante ao realizado pelo já aclamado diretor de terror Robert Eggers, del Toro propicia uma imersão onírica no contexto histórico e no mundo fantástico e gótico, reservando a todos os elementos centrais estéticos da obra o seu devido posicionamento e grandeza, com a fotografia sendo particularmente notável e colossalmente opressora, ao retratar simultaneamente uma natureza deslumbrante e calabouços sombrios num contraste equivalente e grandioso. Nota-se um cuidado louvável também em reverenciar obras clássicas e consagradas em posicionamento preciso e cativante.
De fato, pode-se aproveitar a alusão a Eggers de outro modo. Assim como no caso deste Frankenstein, o Nosferatu de Eggers também é um trabalho de amor artístico ao qual o diretor ansiava dar vida e cujo resultado é uma experiência sensorial como poucas vezes vista no universo do horror gótico.
Em via contrária, porém, se o Nosferatu de Eggers foi criticado por oferecer pouco além de uma homenagem estética e historialmente impecável do arquétipo vampírico, sem dar-se o direito de alçar voos narrativos mais ousados, o Frankenstein de del Toro é uma releitura bastante pessoal sobre a obra original, alterando, criando e eliminando elementos do texto para acomodar um novo momento historial, assumindo uma posição mais alinhada com as essências obscuras do mundo contemporâneo.
O Prometeu pós-moderno
O horror de Frankenstein não é como geralmente tratamos o horror. Ele está no impacto visual do grotesco e na tensão trágica, sim, mas o horror de del Toro é acima de tudo dramático. O filme está muito mais colocado dentro da dimensão da intimidade psicológica do que no niilismo pessimista que aterroriza pelo desespero.
O roteiro preparado por Guillermo del Toro faz justiça à sua fama e performa com a mesma fluidez de outros grandes filmes de sua carreira, como Labirinto do Fauno, Pinocchio e A Colina Escarlate. É bem desenvolvido e intuitivo, apesar de nos pegar pela mão em dois momentos bastante inoportunos. No entanto, o que acho digno de enfatizar são as mudanças que fazem desta obra uma releitura muito mais pós-moderna do texto original, e que refletem um cenário mais amplo.
A primeira e mais notável dessas mudanças está na relação entre Victor e a Criatura. Na obra original, Shelley foca na desgraça do próprio Frankenstein pela sua obsessão alquímica e vitalista não contra a morte, mas pela possibilidade de conquista da vida. Há um claro elemento de crítica ao antropocentrismo e o roubo dos deuses, especialmente pela conquista científica sem limites éticos e morais transcendentes. O resultado é que os dois personagens passam por um conflito trágico, em que a sede de vingança da criatura logo a leva na direção do assassinato, da mentira, do subterfúgio. A natureza é corrompida pela própria possibilidade de humanidade decaída.
Para del Toro, esses elementos são substituídos por um reforço da figura do bom selvagem condenado que é constantemente ferido pela rejeição de seu criador, de outros humanos, pelo infortúnio com a própria natureza e pela crueldade e mentira. O monstro é humanizado para o nível mais puro e até infantil, enquanto o humano é levado ao limite da sua crueldade, o inferno do outro. Esse reequilibrio ontológico remete antropologicamente às ontologias amazônicas de Viveiros de Castro e a necessidade de reimaginar as fronteiras da identidade do humano e do animal, da natureza e da cultura, do eu e do outro. Quem é mais humano? E será o humano civilizado? Será o civilizado, humano?
Para aprofundar, a infância de Victor é aqui psicologizada pela lente analítica do abandono paterno e a confusão edípica, levando-o ao estágio obse
O resultado não poderia ser mais visualmente espetacular. De modo semelhante ao realizado pelo já aclamado diretor de terror Robert Eggers, del Toro propicia uma imersão onírica no contexto histórico e no mundo fantástico e gótico, reservando a todos os elementos centrais estéticos da obra o seu devido posicionamento e grandeza, com a fotografia sendo particularmente notável e colossalmente opressora, ao retratar simultaneamente uma natureza deslumbrante e calabouços sombrios num contraste equivalente e grandioso. Nota-se um cuidado louvável também em reverenciar obras clássicas e consagradas em posicionamento preciso e cativante.
De fato, pode-se aproveitar a alusão a Eggers de outro modo. Assim como no caso deste Frankenstein, o Nosferatu de Eggers também é um trabalho de amor artístico ao qual o diretor ansiava dar vida e cujo resultado é uma experiência sensorial como poucas vezes vista no universo do horror gótico.
Em via contrária, porém, se o Nosferatu de Eggers foi criticado por oferecer pouco além de uma homenagem estética e historialmente impecável do arquétipo vampírico, sem dar-se o direito de alçar voos narrativos mais ousados, o Frankenstein de del Toro é uma releitura bastante pessoal sobre a obra original, alterando, criando e eliminando elementos do texto para acomodar um novo momento historial, assumindo uma posição mais alinhada com as essências obscuras do mundo contemporâneo.
O Prometeu pós-moderno
O horror de Frankenstein não é como geralmente tratamos o horror. Ele está no impacto visual do grotesco e na tensão trágica, sim, mas o horror de del Toro é acima de tudo dramático. O filme está muito mais colocado dentro da dimensão da intimidade psicológica do que no niilismo pessimista que aterroriza pelo desespero.
O roteiro preparado por Guillermo del Toro faz justiça à sua fama e performa com a mesma fluidez de outros grandes filmes de sua carreira, como Labirinto do Fauno, Pinocchio e A Colina Escarlate. É bem desenvolvido e intuitivo, apesar de nos pegar pela mão em dois momentos bastante inoportunos. No entanto, o que acho digno de enfatizar são as mudanças que fazem desta obra uma releitura muito mais pós-moderna do texto original, e que refletem um cenário mais amplo.
A primeira e mais notável dessas mudanças está na relação entre Victor e a Criatura. Na obra original, Shelley foca na desgraça do próprio Frankenstein pela sua obsessão alquímica e vitalista não contra a morte, mas pela possibilidade de conquista da vida. Há um claro elemento de crítica ao antropocentrismo e o roubo dos deuses, especialmente pela conquista científica sem limites éticos e morais transcendentes. O resultado é que os dois personagens passam por um conflito trágico, em que a sede de vingança da criatura logo a leva na direção do assassinato, da mentira, do subterfúgio. A natureza é corrompida pela própria possibilidade de humanidade decaída.
Para del Toro, esses elementos são substituídos por um reforço da figura do bom selvagem condenado que é constantemente ferido pela rejeição de seu criador, de outros humanos, pelo infortúnio com a própria natureza e pela crueldade e mentira. O monstro é humanizado para o nível mais puro e até infantil, enquanto o humano é levado ao limite da sua crueldade, o inferno do outro. Esse reequilibrio ontológico remete antropologicamente às ontologias amazônicas de Viveiros de Castro e a necessidade de reimaginar as fronteiras da identidade do humano e do animal, da natureza e da cultura, do eu e do outro. Quem é mais humano? E será o humano civilizado? Será o civilizado, humano?
Para aprofundar, a infância de Victor é aqui psicologizada pela lente analítica do abandono paterno e a confusão edípica, levando-o ao estágio obse
♃ | Augusto Freddo Fleck
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ssivo não pela busca do transcendente, mas pela quebra com o reino da morte.
Tudo isso reflete uma horizontaliação na imanência, também enfatizada pelo caráter ainda mais cientificista do estudo de Frankenstein, aqui praticamente despido dos elementos esotéricos e alquímicos que Shelley evocava.
Outra mudança significativa é a opção por fazer de Elizabeth a cunhada de Victor, por quem ele adquire sentimentos amorosos, e introduzir o personagem de Christoph Waltz, Henrich, tio de Elizabeth e patrocinador dos experimentos de Frankenstein. Del Toro realiza assim uma aproximação mais clara do personagem com o espírito faustiano do qual já é uma forte representação. Fazendo do tio seu Mefistófelis cujo acordo sela o destino de Victor e de Elizabeth a Margarida que o mesmo anseia possuir e assim potencialmente corromper, o diretor fortalece a monstruosidade do doutor obcecado pela conquista, mas jamais satisfeito com ela.
A personagem de Elizabeth, em si, incorpora um arquétipo feminino por quem del Toro aparenta ter grande afeto, desde obras anteriores, que seja uma sacerdotisa de Cibele. Sua inadequação e mistério se relacionam intimamente com os elementos ctônicos reprimidos, o que a aproxima tanto por uma via maternal quanto erótica da criatura que percebe também como alma incompreendida em um mundo dominado pela guerra e pela vontade. Isso se apresenta fortemente na mudança de período da obra, da emergência da sociedade industrial para o período da guerra na Crimeia, incluindo a seleção dos corpos para o experimento ser feita diretamente no campo de batalha.
Elizabeth e Heinrich personificam a conflituosa relação de Victor com, respectivamente, a vida e a morte. É através da percepção de que o doutor se aprofunda cada vez mais na sua relação aborrente com a morte e a sede pela conquista dessa que Elizabeth afasta derradeiramente a possibilidade de sua danação. E é o destino de ambos estes personagens, assim como de William, o irmão de Victor, que selam sua queda vertiginosa e mergulho na violenta luta contra sua criação até os confins da terra.
O Frankenstein de del Toro é, portanto, uma releitura do original em que a atitude de aprisionamento do transcendente se aprofunda ainda mais, agora desde um mundo em que o alto já está condenado e o mergulho é às profundezas ctônicas que emergem vindicadas pela caracterização de possibilidade roubada: da pureza tolhida, desejos reprimidos e uma eternidade perdida. A conciliação final entre criador e criatura, que Shelley deixara suspensa em função da tragédia anunciada e necessária para representar o destino esvaziado, representa a autorização final para que essa existência até então tida como grotesca e incapaz atinja sua própria autenticidade.
Frankenstein é uma obra cuja mitanálise é essencial: O homem de Shelley queria superar Deus ao roubar a centelha da vida. O homem de del Toro nega ao divino a criação e busca se apropriar da morte que referencia como símbolo da tirania metafísica.
O monstro de Shelley era a consequência trágica da húbris humana, uma criatura permanentemente sem lugar, cujo destino é ligado ao criador intimamente. O monstro de del Toro torna-se, para ele, mais humano que os humanos ao sofrer com a crueldade da cultura, assim como no mito liberal.
A obra de Shelley denuncia a essência decadente do homem moderno que emergia. Del Toro termina de enterrar esse homem moderno e proclama a pós-humanidade do não-homem.
Tudo isso reflete uma horizontaliação na imanência, também enfatizada pelo caráter ainda mais cientificista do estudo de Frankenstein, aqui praticamente despido dos elementos esotéricos e alquímicos que Shelley evocava.
Outra mudança significativa é a opção por fazer de Elizabeth a cunhada de Victor, por quem ele adquire sentimentos amorosos, e introduzir o personagem de Christoph Waltz, Henrich, tio de Elizabeth e patrocinador dos experimentos de Frankenstein. Del Toro realiza assim uma aproximação mais clara do personagem com o espírito faustiano do qual já é uma forte representação. Fazendo do tio seu Mefistófelis cujo acordo sela o destino de Victor e de Elizabeth a Margarida que o mesmo anseia possuir e assim potencialmente corromper, o diretor fortalece a monstruosidade do doutor obcecado pela conquista, mas jamais satisfeito com ela.
A personagem de Elizabeth, em si, incorpora um arquétipo feminino por quem del Toro aparenta ter grande afeto, desde obras anteriores, que seja uma sacerdotisa de Cibele. Sua inadequação e mistério se relacionam intimamente com os elementos ctônicos reprimidos, o que a aproxima tanto por uma via maternal quanto erótica da criatura que percebe também como alma incompreendida em um mundo dominado pela guerra e pela vontade. Isso se apresenta fortemente na mudança de período da obra, da emergência da sociedade industrial para o período da guerra na Crimeia, incluindo a seleção dos corpos para o experimento ser feita diretamente no campo de batalha.
Elizabeth e Heinrich personificam a conflituosa relação de Victor com, respectivamente, a vida e a morte. É através da percepção de que o doutor se aprofunda cada vez mais na sua relação aborrente com a morte e a sede pela conquista dessa que Elizabeth afasta derradeiramente a possibilidade de sua danação. E é o destino de ambos estes personagens, assim como de William, o irmão de Victor, que selam sua queda vertiginosa e mergulho na violenta luta contra sua criação até os confins da terra.
O Frankenstein de del Toro é, portanto, uma releitura do original em que a atitude de aprisionamento do transcendente se aprofunda ainda mais, agora desde um mundo em que o alto já está condenado e o mergulho é às profundezas ctônicas que emergem vindicadas pela caracterização de possibilidade roubada: da pureza tolhida, desejos reprimidos e uma eternidade perdida. A conciliação final entre criador e criatura, que Shelley deixara suspensa em função da tragédia anunciada e necessária para representar o destino esvaziado, representa a autorização final para que essa existência até então tida como grotesca e incapaz atinja sua própria autenticidade.
Frankenstein é uma obra cuja mitanálise é essencial: O homem de Shelley queria superar Deus ao roubar a centelha da vida. O homem de del Toro nega ao divino a criação e busca se apropriar da morte que referencia como símbolo da tirania metafísica.
O monstro de Shelley era a consequência trágica da húbris humana, uma criatura permanentemente sem lugar, cujo destino é ligado ao criador intimamente. O monstro de del Toro torna-se, para ele, mais humano que os humanos ao sofrer com a crueldade da cultura, assim como no mito liberal.
A obra de Shelley denuncia a essência decadente do homem moderno que emergia. Del Toro termina de enterrar esse homem moderno e proclama a pós-humanidade do não-homem.
Forwarded from Voz da Nova Resistência
Hoje, ao celebrarmos o Dia dos Bandeirantes, reverenciamos os arquitetos da grandeza territorial que define nosso destino como nação. Foram esses destemidos desbravadores que, com suor e determinação, transcenderam os limites de Tordesilhas e forjaram com suas botas as fronteiras deste continente chamado Brasil. Sua jornada não foi uma simples expansão geográfica, mas a realização de um destino que nos legou a dimensão continental de nossa pátria, tornando-nos herdeiros de um espaço vital único no planeta.
Os bandeirantes representam o esforço mais autêntico e genuinamente brasileiro de nossa formação histórica, uma vez que encarnaram, como nenhum outro, o poder fundador de nossa mestiçagem. Do encontro do sangue luso com a sabedoria indígena nasceu esse novo homem capaz de dominar o território mais hostil. Esta é uma memória histórica inegociável, um alicerce identitário que não nos permitimos questionar, pois é a essência de nosso caráter nacional — a coragem que vence o impossível, a fé que supera obstáculos e a tenacidade que constrói impérios.
Que o espírito bandeirante nos inspire hoje a seguir rumo ao nosso destino glorioso como povo. Eles são o farol que ilumina nosso caminho para o futuro, nos convocando a ser a Nova Roma dos trópicos: uma civilização poderosa, integrada e destinada a liderar.
Avante, bandeirantes do século XXI!
Os bandeirantes representam o esforço mais autêntico e genuinamente brasileiro de nossa formação histórica, uma vez que encarnaram, como nenhum outro, o poder fundador de nossa mestiçagem. Do encontro do sangue luso com a sabedoria indígena nasceu esse novo homem capaz de dominar o território mais hostil. Esta é uma memória histórica inegociável, um alicerce identitário que não nos permitimos questionar, pois é a essência de nosso caráter nacional — a coragem que vence o impossível, a fé que supera obstáculos e a tenacidade que constrói impérios.
Que o espírito bandeirante nos inspire hoje a seguir rumo ao nosso destino glorioso como povo. Eles são o farol que ilumina nosso caminho para o futuro, nos convocando a ser a Nova Roma dos trópicos: uma civilização poderosa, integrada e destinada a liderar.
Avante, bandeirantes do século XXI!
Pelo retorno aos bandeirantes
O povo é formado por um gesto heroico monumental, um “ponto de partida da parábola de um destino”. Conforme se desenvolvem suas estruturas sociais e leis, o seu Estado, a força existencial de sua permanência reside no retorno ao princípio, relembrado e revivificado.
Por consequência do caráter monotônico de seu tempo, a memória histórica do sujeito moderno e pós-moderno tem muita dificuldade em acessar o seu passado como um momento real (que é superior ao factual) e integral, causando uma fissura entre o fenômeno histórico e a consciência histórica apropriada. Assim, os eventos do passado são amiúde lidos por teias morais anacrônicas e sofrem desconstruções injuriosas pelo cinismo materialista.
A figura do bandeirante que hoje lembramos e celebramos, o desbravador brasilíndio por excelência e destino, é uma das entidades da formação brasileira que mais sofre neste século pela mazela das más interpretações, ora por ignorância do contexto, ora por um caráter melindroso de quem visa derribar todas as estruturas simbólicas que formam o imaginário do povo e resgatam eideticamente seu vínculo.
Evidentemente, se como afirma Eliade a recitação do mito reúne o homem com o tempo sagrado e lhe permite reavivar os fundamentos de sua origem e caminho preconizado, os inimigos do povo, muitos deles de descendência do próprio, buscam o silenciamento da recordação, a cacofonia narrativa, a queima dos registros. Daí seguem-se a deturpação histórica, eliminação de documentos e supressão de relatos, até o descaso e destruição de monumentos. Isto é, o apagamento do patrimônio material e imaterial da identidade.
Muito além de quaisquer justificativas materiais colocadas sobre a origem e fundamentação das bandeiras, o bandeirante é a força motriz da formação brasileira. Um arquétipo da sua síntese mestiça e mística, que é chamado pelo pressentimento existencial a desbravar o interior da América e fazer dela o lar para um novo sujeito, para uma nova história.
Ele representa o primeiro rompimento autêntico com a mera continuidade colonial portuguesa (o calabouço de nossa pseudomorfose) e é o esforço em centralizar a figura do bandeirante como herói mítico fundador que nos é imperiosa.
Se a história do Brasil é composta por movimentos, uma figura que Aldo Rebelo evoca com oportuna visão, esses movimentos são marcados, talvez, não pelo desenvolvimento contínuo do Brasil propriamente dito, mas por esse embate dialético de uma essência nascente e uma forma decadente que aqui veio desaguar sua semente e herança, mas cuja elite resistiu e ainda resiste em reconhecer o próprio fim. É através dessas contradições fundamentais que se expressa a luta (streit) como desvelamento da identidade brasileira; enfim como filosofia do seu destino, plasmada desde a primeira bandeira.
Martin Heidegger sugere que esse momento fundamental é quando o Dasein coletivo está exposto aos deuses, algo também aludido pelo grande Vicente Ferreira da Silva, para quem o homem torna-se receptáculo de uma substância dos deuses e então assume seu caráter histórico-social autêntico. Na noomaquia de Alexander Dugin, esse é o momento noomáquico, o embate supraconsciente entre os logoi e a sua emergência no intelecto e na vontade.
Isso sugere que o bandeirantismo precisa ser lido por uma lente superior à materialista ou historicista, seja esta uma lente metafísica e existencial. Na história dos povos, a sua formação jamais é lida através de esforços humanos individuais, mas pela sua mobilização através de forças que o transcendem e motivam atos que atravessam as eras e se repetem, continuamente, revelando o fundamento do seu aparecimento.
Os bandeirantes primeiro demonstram a grandeza de nossa mestiçagem e sua visão como novo sujeito; incorporando a verticalidade áurea do reinado português com a sabedoria mística dos indígenas, seu simbolismo preenche nossa alma com a tenacidade imbatível e os ímpetos heróicos e anti-heróicos que compõe uma parte significativa do drama brasileiro, combinando a virtude e o pragmatismo.
Gilberto Freyre foi um dos
O povo é formado por um gesto heroico monumental, um “ponto de partida da parábola de um destino”. Conforme se desenvolvem suas estruturas sociais e leis, o seu Estado, a força existencial de sua permanência reside no retorno ao princípio, relembrado e revivificado.
Por consequência do caráter monotônico de seu tempo, a memória histórica do sujeito moderno e pós-moderno tem muita dificuldade em acessar o seu passado como um momento real (que é superior ao factual) e integral, causando uma fissura entre o fenômeno histórico e a consciência histórica apropriada. Assim, os eventos do passado são amiúde lidos por teias morais anacrônicas e sofrem desconstruções injuriosas pelo cinismo materialista.
A figura do bandeirante que hoje lembramos e celebramos, o desbravador brasilíndio por excelência e destino, é uma das entidades da formação brasileira que mais sofre neste século pela mazela das más interpretações, ora por ignorância do contexto, ora por um caráter melindroso de quem visa derribar todas as estruturas simbólicas que formam o imaginário do povo e resgatam eideticamente seu vínculo.
Evidentemente, se como afirma Eliade a recitação do mito reúne o homem com o tempo sagrado e lhe permite reavivar os fundamentos de sua origem e caminho preconizado, os inimigos do povo, muitos deles de descendência do próprio, buscam o silenciamento da recordação, a cacofonia narrativa, a queima dos registros. Daí seguem-se a deturpação histórica, eliminação de documentos e supressão de relatos, até o descaso e destruição de monumentos. Isto é, o apagamento do patrimônio material e imaterial da identidade.
Muito além de quaisquer justificativas materiais colocadas sobre a origem e fundamentação das bandeiras, o bandeirante é a força motriz da formação brasileira. Um arquétipo da sua síntese mestiça e mística, que é chamado pelo pressentimento existencial a desbravar o interior da América e fazer dela o lar para um novo sujeito, para uma nova história.
Ele representa o primeiro rompimento autêntico com a mera continuidade colonial portuguesa (o calabouço de nossa pseudomorfose) e é o esforço em centralizar a figura do bandeirante como herói mítico fundador que nos é imperiosa.
Se a história do Brasil é composta por movimentos, uma figura que Aldo Rebelo evoca com oportuna visão, esses movimentos são marcados, talvez, não pelo desenvolvimento contínuo do Brasil propriamente dito, mas por esse embate dialético de uma essência nascente e uma forma decadente que aqui veio desaguar sua semente e herança, mas cuja elite resistiu e ainda resiste em reconhecer o próprio fim. É através dessas contradições fundamentais que se expressa a luta (streit) como desvelamento da identidade brasileira; enfim como filosofia do seu destino, plasmada desde a primeira bandeira.
Martin Heidegger sugere que esse momento fundamental é quando o Dasein coletivo está exposto aos deuses, algo também aludido pelo grande Vicente Ferreira da Silva, para quem o homem torna-se receptáculo de uma substância dos deuses e então assume seu caráter histórico-social autêntico. Na noomaquia de Alexander Dugin, esse é o momento noomáquico, o embate supraconsciente entre os logoi e a sua emergência no intelecto e na vontade.
Isso sugere que o bandeirantismo precisa ser lido por uma lente superior à materialista ou historicista, seja esta uma lente metafísica e existencial. Na história dos povos, a sua formação jamais é lida através de esforços humanos individuais, mas pela sua mobilização através de forças que o transcendem e motivam atos que atravessam as eras e se repetem, continuamente, revelando o fundamento do seu aparecimento.
Os bandeirantes primeiro demonstram a grandeza de nossa mestiçagem e sua visão como novo sujeito; incorporando a verticalidade áurea do reinado português com a sabedoria mística dos indígenas, seu simbolismo preenche nossa alma com a tenacidade imbatível e os ímpetos heróicos e anti-heróicos que compõe uma parte significativa do drama brasileiro, combinando a virtude e o pragmatismo.
Gilberto Freyre foi um dos