Imparável, por Gabriel Granjeiro
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Inspiração para você ser imparável, mesmo em dias difíceis.
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O poder do silêncio

“Como a abelha trabalha na escuridão, o pensamento trabalha no silêncio e a virtude no segredo.” – Mark Twain (1835-1910), escritor norte-americano

Notou como as cidades estão mais silenciosas? Há menos barulho de carros trafegando, de máquinas funcionando e de pessoas conversando, falando, gritando. Percebeu também como os pássaros, por sua vez, estão mais cantores e tagarelas do que nunca? Os dias têm sido difíceis, muito difíceis, e todos nós estamos – a duras penas – aprendendo a reconhecer o poder do silêncio. Estamos entendendo que sempre há algo de positivo para ouvir. Guardando silêncio, somos capazes – finalmente – de ouvir até nossos próprios pensamentos, que, antes, praticamente não tinham vez. Dá pra ouvir o som da vida!

Silêncio absoluto não existe. Há sons acidentais, como os produzidos pelo vento, por aparelhos domésticos e os dos alertas das mensagens de notificação no celular e no computador. Há sons quase inaudíveis, como o do coração que pulsa e o do sangue que corre nas veias. É, silêncio absoluto não existe, mas hoje quero conversar com você sobre o poder da quietude, ainda que relativa, para aprendermos a escutar. O que (não) ouvimos pode fazer toda a diferença, e é por isso que talvez seja uma boa ideia afastar distrações e estímulos barulhentos demais para começarmos a escutar o que tem, de fato, valor.

Os estímulos sonoros vindos do mundo são, é claro, relevantes. Não podemos fugir deles, assim como precisamos ver pessoas e ter experiências concretas se nossa intenção é desenvolver visão mais ampla do universo. Contudo, também é preciso cultivar o silêncio e ficar sozinho de vez em quando, se a ideia é entender tudo que se vê e se sente. Ausentar-se temporariamente do mundo e de todo burburinho nele presente ajuda a entrar em contato consigo mesmo e com o que se passa na própria mente. O pensamento, segundo o professor escocês Thomas Carlyle, não funciona exceto na quietude.

John Cage (1912-1992), compositor, escritor e artista norte-americano, visitou, em 1951, a até então mais avançada sala à prova de som do mundo. Mesmo ali, o músico, dono de ouvidos extremamente sensíveis, relatou ter escutado ruídos. Dois, para ser mais preciso: um agudo, que era seu sistema nervoso em operação; outro grave, decorrente do bombeamento do sangue pelo coração. Pode parecer um feito e tanto, mas a verdade é que, quando guardamos silêncio, todos nós somos capazes de ouvir o som da própria vida. Dá pra imaginar tudo que pode ser feito com tamanho… silêncio?!

Uma curiosidade sobre a experiência de Cage: veio dessa visita à câmara anecoica a inspiração para criar a canção 4’33”, orginalmente concebida com o título “Prece Silenciosa”. Era uma peça idêntica à música popular da época – tocada ao vivo e no rádio, como qualquer canção –, com esta única diferença: seria uma “peça de ininterrupto silêncio”. Foi divertido. Foi ousado. Foi esquisito. Serviu para mostrar que o silêncio absoluto, de fato, não existe.

O fato de o silêncio ser tão raro só confirma o quão valioso ele é. O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama é conhecido como um dos melhores oradores de nosso tempo. Sabia que o maior diferencial na oratória dele, segundo os principais palestrantes do mundo, são as pausas que ele faz enquanto discorre sobre assuntos de altíssima relevância? São momentos de silêncio escolhidos cuidadosamente, por meio dos quais ele habilmente consegue falar até mais do que usando palavras. Analogamente, os bons atores sabem que não precisam falar nada para mostrar presença no palco. Eles também dominam como poucos a arte do silêncio. Minha professora de teatro, uma atriz experiente, confirma a eficiência da técnica.
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Além de tudo, a quietude é a porta para avançarmos rumo à sabedoria. Há momentos em que tudo parece confuso, sem sentido, sem lógica. Nessas horas, sugiro que você pratique o saudável hábito de prestar atenção no silêncio. Cale-se, aquiete o coração, controle a respiração e feche os olhos. Em seguida, busque dentro de si as respostas de que precisa. Elas não estão lá fora, mas aí dentro, em sua alma. Em períodos complicados, ouça e enxergue com o coração. Ele quase sempre diz a coisa certa.

Há tantas lições que aprendi sobre o silêncio e que me guiam na forma como conduzo minhas relações… Confúcio já dizia que o silêncio é um amigo que nunca trai, e, para Martin Luther King, “no final, não lembraremos das palavras dos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos”. Há outros ditos populares na mesma linha: “A palavra é de prata e o silêncio é de ouro”, “O silêncio vale mais do que mil palavras”. A Bíblia defende algo parecido: “Até o insensato passará por sábio se ficar quieto e, se contiver a língua, parecerá que tem discernimento” (Provérbios 17:28). É por dar valor a ensinamentos como esses que respeito a máxima segundo a qual falar demais – sem cuidado, sem medir as palavras – não é nada bom. Uma palavra dita de forma irrefletida pode ferir mais que uma flecha, uma bala, uma surra de chicote. Às vezes, o silêncio é a melhor resposta. Talvez a única. Então, quando decidir falar, cuide para que as palavras proferidas sejam mesmo melhores que a ausência delas.

Ainda não consegui implementar, em minha rotina, o dia do silêncio, mas quero fazê-lo em breve. Vou destinar esse dia para colocar meus escritos em dia, ouvir o meu coração, desacelerar, refletir e me livrar das trivialidades. Certamente, isso vai me ajudar a recarregar as baterias, colocando minhas experiências em perspectiva. Estou me esforçando para isso e chegando lá. Felizmente, já aprendi a exercitar pelo menos esta, que talvez seja a artimanha mais importante de todas: guardar silêncio sobre a maioria dos meus planos. Procuro não falar nada, sobretudo para quem já sei que não vai me oferecer apoio. É como ensina a sabedoria popular: “Aquilo que ninguém sabe, ninguém estraga.” Isso não quer dizer esconder tudo de todos e jamais buscar ajuda; tampouco significa deixar de se comprometer com alguém em relação a algo. Trata-se, mais uma vez, de apenas saber quando é melhor ficar quieto.

Dito tudo isso, meu conselho é: sobretudo neste período de distanciamento social que nos foi imposto, reserve um tempo diário para “ouvir” o silêncio. Na movimentada cidade de Helsinque, na Finlândia, há uma igreja dedicada à quietude, frequentada pelos interessados em vivenciar momentos de silenciosa espiritualidade. Não dispomos de um lugar assim por aqui, mas… sem problema. Crie seu próprio “templo”. Permita-se estar só, nem que por alguns minutos, na companhia exclusiva dos próprios pensamentos, e medite. Pode ser em roupas de ginástica e sentado na cama, no sofá, num banco da varanda ou do jardim. Tudo que importa é tirar esses instantes para si. Faça isso sempre que puder. Volte seus pensamentos para dentro do seu ser e reflita. Avalie o que é desimportante e projete na mente o que você gostaria de conquistar. Em seguida, decida se é melhor falar sobre isso ou manter suas ideias quietinhas, onde elas estão mais seguras: consigo mesmo.

Vamos juntos, falando menos e ouvindo mais, cientes de que, assim, poderemos finalmente escutar o que o mundo vinha tentando nos dizer.

“Todas as coisas profundas, e as emoções das coisas, são precedidas e acompanhadas pelo Silêncio […]. O Silêncio é a consagração geral do universo.” – Herman Melville (1819-1891), escritor
Bom dia, imparáveis! Estou testando formatos e gostaria de um feedback de vocês. Como preferem receber os artigos aqui?
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Obrigado pelas respostas na enquete.
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Você também pode fazer sua pergunta à minha entrevistada da semana no canal Imparável, a escrivã de Polícia Civil Gena Bispo. Essa mulher incrível virou jurisprudência por ter sido a primeira pessoa com deficiência física do Brasil a conquistar na Justiça o direito de ingressar na Polícia!

Hoje, a ela tem dificuldade de locomoção e necessita de muletas para apoio, é paratleta e palestrante. A receita? Muita determinação para vencer as limitações impostas por um grave acidente que, num primeiro momento, a deixou paraplégica.

Clique neste link para mandar sua pergunta: https://bit.ly/PegunteGenaImparavel

Ela vai responder num vídeo que eu vou postar aqui na sexta, dia 22. Os autores das 3 questões selecionadas vão ganhar um exemplar do Manual do Imparável, cada.
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Ah! E daqui a pouco, às 21h, haverá um esquenta para a entrevista. Farei uma live com Gena em meu instagram.com/gabriel.granjeiro e sortearei um prêmio surpresa para quem estiver ao vivo!
Olá, Imparáveis! Como combinado, a escrivã de Polícia Civil Gena Bispo, minha entrevistada da semana, respondeu a 3 perguntas enviadas por vocês.
➡️ Como vc fez para lidar com o preconceito antes e depois de entrar para polícia?
➡️ Qual é a sensação de conquistar aquilo que um dia você tanto sonhou?
➡️ Sou deficiente visual e me preparo para concursos de carreiras administrativas e tribunais, entretanto, a minha vocação é para polícia mas tenho medo de me reprovarem por ser deficiente visual, a pergunta é como você venceu o medo e as barreiras impostas pela vida para seguir em frente e conquistar o seu sonho?
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Obrigado a todos pela participação. Entraremos em contato por e-mail com os 3 vencedores para providenciar o envio do Manual do Imparável. Ótimo fim de semana!
Que tal aprender a vencer a PROCRASTINAÇÃO neste domingo?

Seguem abaixo 10 dicas práticas.

1. Conscientize-se de que o hábito de procrastinar não será eliminado de vez.

É impossível abolir a procrastinação. Há estudos científicos nesse sentido. Um deles, divulgado em 2014 pela Universidade de Colorado, em Boulder, nos Estados Unidos, revelou algo surpreendente: o hábito de procrastinar tem um componente genético. É que o homem, na escalada evolutiva, teve de desenvolver alguns instintos para sobreviver ao mundo hostil que o abrigava nos primórdios da humanidade. Entre esses instintos, está o de reagir rapidamente às mudanças e aos fatos. Sobretudo na pré-história, alternar atividades rapidamente era essencial para não morrer. Percebe como a falta de foco se converteu em uma vantagem que garantiu a sobrevivência de toda uma espécie? Ao homem moderno, resta lidar com isso da melhor forma possível.
Mas note que há uma diferença entre procrastinação e preguiça. De um lado, postergamos, ainda que de forma inconsciente, a consecução de uma dada tarefa, como explica o psicólogo Piers Steel, autor de A Equação de Deixar para Depois; de outro, há mera e deliberada falta de vontade de agir.

A boa notícia é que, como responsáveis por nossa vida, somos capazes de espantar a preguiça e gerenciar a procrastinação, reduzindo-a até chegar próximo de zero, com persistência, disciplina e pequenos avanços, tímidas vitórias, dia após dia.

2. Divida as tarefas.

Se você tem algo de vulto para fazer, divida em pequenas tarefas. Em vez de se comprometer a assistir a 8 videoaulas ou ler 200 páginas num dia, baixe a meta para 2 aulas ou 50 páginas. Vá, assim, fazendo tudo aos poucos. A tarefa fatiada se torna menos assustadora, e o cérebro vai percebê-la como mais factível. Sem contar que, à medida que você conclui tarefas menores, vai se animando a realizar as maiores. Isso é ESSENCIAL quando se fala em grandes projetos.

3. Use a técnica dos cinco segundos.

Flagrou-se assistindo à tevê ou lendo algo apenas para fugir da obrigação de estudar? Pare um pouco, respire e faça uma contagem regressiva: 5, 4, 3… Chegando ao 1, levante-se, sem pensar duas vezes, e retome a rotina. Faça o que tem de fazer. A palavra-chave é interrupção: interrompa o ciclo de procrastinação. No início será difícil? Sem dúvida! Mas valerá a pena depois? Com certeza!

4. Foque nos benefícios da execução do seu projeto.

Não se motive apenas pela estabilidade do cargo público ou pelos vencimentos do cargo para o qual você está se preparando. Você deve ser movido por valores mais caros que esses. Pense em tudo que poderá fazer pela sociedade na qualidade de agente público, imagine quão orgulhosos ficarão seus familiares e amigos quando você se tornar uma autoridade, antecipe a satisfação que será contar a sua mãe que você teve o nome publicado no Diário Oficial da União e, em breve, tomará posse como juiz(a), delegado(a), analista judiciário(a), consultor(a) legislativo(a)… Visualize a cena várias vezes. Para ser ainda mais pragmático, cole em algum lugar bem visível uma lista com cinco ou mais coisas grandiosas que acontecerão simplesmente por você estar vencendo a procrastinação todos os dias.

5. Reflita sobre a dor que virá caso você não cumpra o que se propôs a fazer.

Na dica anterior, falamos dos benefícios que devem ser evocados para você sair da inércia. Agora, vá para o outro extremo e pense nas dificuldades resultantes justamente dessa inação. Projete no tempo as contas a pagar, as dívidas a aumentar, os sonhos a se perderem pelo caminho… Os problemas não vão sumir sozinhos, meu amigo, minha amiga. Reflita sobre o que de ruim pode acontecer consigo e, talvez, sua família, se você ceder à procrastinação hoje.

6. Firme um compromisso com alguém de sua confiança.

Assine com uma pessoa do seu ciclo de admiração e respeito o compromisso de toda semana entregar a ela uma lista com as tarefas que você tiver concluído a contento. Pode parecer bobagem, mas esse simples ajuste forçará você a não enrolar, a não relaxar.
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Mas lembre-se: palavra dada é palavra cumprida! Serve para os estudos ou qualquer outro projeto. Experimente. Você sentirá orgulho de honrar o avençado e, de quebra, estar se aproximando do seu objetivo.

7. Comemore as pequenas vitórias.

Toda vitória, por menor que seja, é sinal de que você está mais perto de realizar seu sonho. Pequenos avanços não são coisa pouca, e passos precisos lhe darão mais gás para seguir adiante. Não poupe elogios e recompensas a si próprio a cada fase superada.

8. Não seja perfeccionista.

Sabe quando alguém diz que ainda não começou algo por ser muito perfeccionista? Balela! Ora, só é possível aperfeiçoar algo que já exista, que esteja sendo implementado. Quanto mais fazemos, mais aprendemos, mais nos desenvolvemos, e mais competitivos nos tornamos. Simples assim. Fazer algo bom é melhor do que pensar em fazer algo ótimo ou excelente e nunca nem mesmo começar.

9. Seja realista.

Conte uma coisa para mim: já aconteceu de você decidir que, no dia seguinte, acordaria às 5h, faria seus exercícios matinais, dedicaria as próximas duas ou três horas aos estudos, ficaria um pouco com os filhos, trabalharia das 9h às 18h, depois estudaria mais três horas à noite e ainda faria o jantar, lavaria e passaria a roupa e resolveria mais umas dez coisas da casa antes de dormir… mas acabou falhando – miseravelmente – na hora de executar o plano?
Imagino que sim. Acontece com todo mundo que programe o impossível. Não trace um objetivo que você não tenha, ainda, condições, tempo, conteúdo ou recursos para atingir. Fazer planos muito fora da realidade é o primeiro passo para você desistir antes mesmo de começar. É assim que a procrastinação se instala.
Concentre-se naquilo que você consegue se ver fazendo e progrida aos poucos. Quando perder o controle do carro e ele começar a rodar, mantenha firme a atenção na pista. Se você mirar um muro ou um poste, a tendência é conduzir o veículo naquela direção; se focar a pista, permanecerá nela.

10. Perdoe a si mesmo quando os dias não sucederem exatamente como você queria.

Não sofra tanto. Às vezes, o que acontece parece castigo, mas você já pensou que os problemas podem ser, na verdade, livramentos? Quem sabe não se trata da vida ensinando algo que você precisa aprender?

Bônus: A última lição é, na verdade, um lembrete: o primeiro passo para o fracasso é o “depois eu faço”.
Boa noite, imparáveis! Hoje, vou trazer para vocês o conteúdo do meu artigo da semana em dois formatos: em texto e em áudio. Eles foram os preferidos na enquete que fiz aqui dias atrás. Desta vez, quero ajudar vocês a vencer o mal. Boa escuta! Boa leitura!
Como vencer o mal?
Por Gabriel Granjeiro

O mal é uma realidade. Pode contaminar as relações humanas a qualquer momento, afligindo-nos em todos os campos: financeiro, sentimental, emocional, espiritual. Quando não é evidente em tragédias, catástrofes, doenças, maledicências e ilícitos cruéis, está por aí, disfarçado de boa vontade, travestido de boas ações. Isso quando não se manifesta por meio da inveja, do orgulho, do ódio, da vaidade, da vingança… Que somos vítimas dele, é fato, mas também é inegável que, consciente ou inconscientemente, o praticamos.

Uma das grandes dúvidas que nos acompanham desde o momento em que adquirimos consciência como seres racionais diz respeito à essência da bondade e da maldade. Grandes pensadores já se debruçaram sobre o tema. O filósofo Jean-Jacques Rosseau, por exemplo, concluiu que o homem nasce bom, e é sua caminhada na sociedade que pode corrompê-lo. No outro extremo, Thomas Hobbes defendia que o homem é originalmente mau e egoísta, sendo necessário um Estado opressor para controlar-lhe os impulsos e as vontades. Santo Agostinho (354-430), por sua vez, entendia que, “se o bem vem de Deus, o mal se origina de ausência do bem e só pode ser atribuído ao homem, por conduzir erroneamente as próprias vontades”. Na filosofia de Baruch Spinoza, as concepções de bem e mal são relativas: o que é bom para mim pode não sê-lo para você. Até Shakespeare abordou o assunto; em sua peça mais conhecida, Hamlet reflete: “As coisas em si mesmas não são nem boas nem más, é o pensamento que as torna desse ou daquele jeito”. Por fim, segundo o dramaturgo francês Charles de Musset, “o mal existe, mas nunca sem o bem, tal como a sombra existe, mas jamais sem a luz”.

Ora, se é tão difícil apenas definir o que é o mal; se foge a nossa compreensão a mera natureza dele, como podemos nos propor combatê-lo? Mais: por que devemos assumir o compromisso de lutar contra ele?

Veja bem, amigo leitor: não sou padre, pastor nem filósofo; tampouco me considero um profundo estudioso das escrituras. Além disso, como vimos, a maldade, particularmente a humana, já foi objeto da análise de sábios tão grandiosos, que preciso ter humildade para admitir minha provável incapacidade de, querendo escrever sobre o assunto, sequer chegar perto do que a literatura nos legou ao longo dos séculos. A matéria é complexa, e, sobre ela, deparamos com opiniões de todos os tipos, a depender de crença, fé, religião ou formação. Ainda assim, quero aqui dar minha pequena contribuição para o debate. Penso que, independentemente da origem e da relatividade do mal, da mesma forma que apenas a luz é capaz de acabar com a escuridão, só existe uma coisa capaz de vencer a maldade: praticar o bem.

Uma pessoa virtuosa, propensa a fazer o bem, costuma ter sólidos valores éticos e morais. A ética e a moral são, de fato, poderosas quando se trata de identificar com mais facilidade o que é negativo para a coletividade e de combater a maldade pela raiz. “O esforço para compreender é o fundamento da virtude”, registrou Spinoza. Isso faz do conhecimento o maior bem ligado à ética, percebe? E qual é o conhecimento mais importante que precisamos ter se quisermos alcançar essa virtude? Penso que seja o conhecimento de nós mesmos, de nossas próprias emoções.
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Diferentemente do que supõem muitos microeconomistas, com seus ensaios baseados na lógica, o homem não é um ser inteiramente racional. Ele é, na verdade, altamente influenciado pelas emoções. A gestão – ou a ausência dela – de nossos sentimentos pode nos levantar ou derrubar, nos levar a fazer o bem ou a propagar o mal. Sentimentos envolvendo vingança, vaidade ou raiva podem perfeitamente ser o berço para o mal e atrasar nossa vida. Se você foi vítima de fofocas, por exemplo, ansiar por vingança pode atrapalhar ainda mais a realização dos seus objetivos, porque o torna escravo desse rancor. Entendo que a melhor reação seja exatamente a oposta: desejar tudo de bom para os maledicentes. Da mesma forma, se, quando criança, você sofreu pela falta de amor dos pais, o ideal é fazer o bem hoje, sendo um exemplo de mãe ou pai amoroso para com seus filhos.

Você pode contra-argumentar, dizendo que não é lá muito factível agir dessa forma na prática, quando somos tomados por sentimentos ruins. Emoções como raiva apenas surgem, independentemente da nossa vontade. Minha réplica é: na hora H, apenas faça a sua parte. Sei que é muito difícil transformar essas palavras em ação. É mais fácil falar do que efetivamente perdoar, amar e fazer o bem ao inimigo ou a alguém que nos tenha ofendido, caluniado, agredido. Contudo, na minha visão, devemos ao menos tentar não desejar o mal ao outro e, em vez disso, fazer um esforço em benefício dele. Acredito de verdade que mais sofre quem odeia do que a vítima do ódio. O malfeitor bebe a maior parte do veneno que produz. Se é assim, cabe a nós combater o mal com o bem, seja porque é o certo a fazer, seja porque é melhor para nós mesmos.

Indiscutivelmente um dos maiores exemplos de autocontrole que já passaram pela Terra, Mahatma Gandhi deixou uma grande lição sobre o tema, que foi incluída no livro “A virtude da raiva”. Certa vez, quando tinha nove anos de idade, o neto do sábio, Arun Gandhi, chorando, confessou ao avô que sentia raiva o tempo todo e não sabia o que fazer a respeito disso. Gandhi, então, contou-lhe a história de um garoto mais ou menos da idade do neto, que estava zangado porque nada parecia acontecer do jeito que ele queria. A criança não conseguia reconhecer o valor do ponto de vista das outras pessoas, então, quando implicavam com ela, reagia com acessos de raiva. A essa altura, o neto de Gandhi já suspeitava ser ele o tal menino, mas continuou escutando, atento. O avô continuou: “Um dia, ele se meteu numa briga feia e acidentalmente matou alguém. Num momento impensado de cólera, destruiu a própria vida ao tirar a vida de outra pessoa.”

A história serviu como alerta, pois o avô sabia das confusões envolvendo o neto. No entanto, o desfecho da lição foi inusitado. Gandhi, aquele que surpreendeu o mundo ao responder à violência e ao ódio com amor e perdão, disse ao garoto que ter raiva é bom. “Eu sinto raiva o tempo todo”, assumiu. Aquilo parecia estranho. Arun nunca tinha visto o avô zangado. Gandhi explicou que aprendera a redirecionar a raiva para o bem. Segundo ele, essa emoção pode ser, para as pessoas, como o combustível é para o automóvel, fornecendo energia para o indivíduo seguir em frente e chegar a um lugar melhor. Sem um pouco de raiva, talvez não tivéssemos motivação para enfrentar certos desafios. A raiva deve ser entendida como uma grande força capaz de desencadear violência ou, administrada com sabedoria, nos ajudar a encontrar soluções com amor e verdade. Quem direciona a raiva a destruir o outro corre o risco de destruir a si mesmo, tal como o menino da história. Já quem a transforma em potência de agir, pode fazer o inimaginável, como combater um império sem nenhuma violência, tal qual fez o próprio Gandhi.
Surpreso, Arun descobriu que o avô, à época chamado pelo título honorífico Mahatma, havia sido uma criança rebelde. Pior: na juventude, roubara dinheiro dos pais para comprar cigarros, vivia se metendo em encrenca e fora rude até com a esposa, a quem ameaçara várias vezes de expulsão do lar. A diferença foi que, caindo em si e percebendo que não gostava nem um pouco de quem estava se tornando, decidiu moldar-se como uma pessoa melhor. Foi então que passou a se controlar mais e a redirecionar tudo dentro de si para o bem.

Lição semelhante é encontrada nas escrituras. Em Romanos 12:21, aprendemos que não devemos nos deixar vencer pelo mal, buscando vencer “o mal com o bem”. Textualmente, o conselho é “não se deixem vencer”, dando a entender que temos a capacidade dentro de nós de superar o mal. Como? Gerenciando nosso Eu, nossas emoções, e usando o autoconhecimento para praticar o bem.

Então é isto, concurseiro: faça o bem estudando, buscando conhecer-se melhor, ajudando o próximo, gerenciando as emoções, redirecionando os sentimentos aparentemente ruins para o amor e sem perder tempo com maledicências, vingança, rancor. Use o autoconhecimento para ao menos tentar converter sua energia, momentaneamente voltada para o mal, para fazer o bem. Haja o que houver, controle o impulso de conduzi-la para o outro caminho. O mundo agradecerá. O seu futuro – dentro e fora dos concursos – agradecerá. O seu Eu agradecerá.
Pessoal, gravei o áudio fora do Telegram e ele acabou ficando como anexo. Vou gravar direto por aqui e reenviar. Ficará mais fácil porque será possível ouvir apenas dando play. 👍🏼