Dizem que o amor emerge suave e doce, como uma mentira piedosa.
O amor, no entanto... jamais foi gentil.
Ainda assim...
Tantos dedicam uma vida inteira à sua busca.
Como peregrinos à deriva, sedentos por uma maldição.
Assisti enquanto ele surgia entre costelas partidas e preces sufocadas, como uma reza ignorada. Vi-o florescer no pulsar do peito daqueles que juraram repulsá-lo. Observei reinos se erguerem em seu nome e tornarem-se escombros reduzidos a cinzas sob suas mãos.
O amor, no entanto... jamais foi gentil.
Ele relampeja como uma flecha flamejante rasgando os céus, rompendo a alma como o prenúncio de um inevitável declínio. Faz do coração um altar e, um campo incessante de combate e amargura. Concede asas aos sonhadores e lança ao abismo aqueles que ousam voar alto o bastante para tocar o céu.
Ainda assim...
Tantos dedicam uma vida inteira à sua busca.
Como peregrinos à deriva, sedentos por uma maldição.
Deve haver algo de divino em sofrer por aquilo que desperta vida em nosso peito. Porque, no fim, a eternidade torna-se um castigo quando vivida em solidão.
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Me desculpa por absolutamente tudo...
Me desculpa.
Seu rogar escorre pelo canto da boca como uma prece destinada a um deus ausente. As palavras tropeçam umas sobre as outras, incertas, frágeis e desordenadas como mentiras.
Me desculpa.
O peito dispara numa guerra incessante. Cada pulsar incendiando minhas veias com verdades jamais proferidas por seus lábios malignos.
Me desculpa.
Sua voz apodrece meu espírito, consumindo minha alma. Suas lamúrias prendem-se a mim como correntes invisíveis, atando-me a ti como um delinquente em seu próprio inferno, condenado por pecados que jamais cometera.
Me desculpa.
Você foi minha sina. Meu rogar amaldiçoado. Minha penitência e meu castigo.
Me desculpa.
Avisto meu passado correr aos seus pés, afogando-se em lágrimas de inverdades. Tudo em você se esvai como um espelho aquebrantado, fragmentando-se diante dos meus olhos até eclipsar na escuridão de sua própria falácia.
Me desculpa.
Meus olhos sangram diante de sua queda. Lamentando-a como um fiel diante de um altar profanado.
Me desculpa, digo.
Pois fui eu quem ergueu sua imagem aos céus.
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A Dança — Pablo Neruda
Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
amo-te como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.