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A queda do mercado de fundos imobiliários assusta muito investidor novato. Com o discurso de que FIIs são menos voláteis e menos arriscados, diversos influenciadores acabaram gerando a impressão de que esses ativos não sofrem da volatilidade que atinge o mercado acionário de tempos em tempos.

O primeiro ponto é: a afirmação é correta. O IFIX (índice dos fundos imobiliários) tem uma volatilidade bem menor do que a do mercado acionário. Pro investidor que ainda é novo e não tem tanta naturalidade com esse sobe e desce de cotações que ocorre em momentos de maior incerteza, o impacto no segmento de fundos imobiliários na maioria das vezes será bem menor em momentos de crise. Com exceção de eventos isolados que atingem sistematicamente o mercado de FIIs (vide pandemia que elevou violentamente a a vacância de alguns segmentos em específico ou o drama sobre a tributação de FIIs que volta e meia aparece para incomodar), se o IFIX estiver caindo, provavelmente o IBOV está pior. Mas há um ponto que atinge em cheio os dois mercados e tem correlação ainda mais com os fundos imobiliários: o juro futuro.

O gráfico acima possui duas linhas: a vermelha se refere aos pontos do índice dos FIIs (IFIX), enquanto a azul se refere a rentabilidade do título IPCA 2035 (que basicamente segue o DI1F35, ponto da curva de juros do ano citado).

Se você bem lembrar, foi entre o dia 10 e o dia 11 de novembro que o mercado panicou com algumas falas do futuro presidente Lula sobre o cenário fiscal do país. Causando incerteza e maior receito do mercado sobre a responsabilidade das contas públicas do país, o mercado quase que como reação instantânea passou a bater nas taxar de juros futuras e o título do Tesouro do patamar de IPCA+5,85% saiu para um patamar de quase IPCA+6,20%. Acredite, apesar de ser um aumento de 0,35pp, esse tipo de impacto nos títulos causa uma ordem de prejuízo na casa dos bilhões quando se trata de dívida pública.

Ao mesmo tempo que o título disparou para cima, o índice do IFIX seguiu praticamente a mesma trajetória só que pelo lado inverso, ou seja, desvalorização. Isso acontece pois o principal fator de precificação dos fundos imobiliários é a taxa de juros longa.

A maior parte dos ativos possuem precificação relativamente previsível dada a natureza de remuneração de 95% de caixa e menor propensão a alavancagem, isso somada a taxa de risco livro mais elevada faz com que o mercado desvalorize os FIIs para justificar o prêmio de risco existente. Veja, se um título completamente livre de risco (Tesouro IPCA+) está aumentando sua remuneração, é justo que os investimentos de maior risco (FIIs) valham menos para justificar esse risco a mais, certo? É daí que vem o prêmio de risco: o mercado cobra um retorno a mais para assumir esse risco a mais existente.

É daí que surgem algumas boas oportunidades, também.

A taxa de juros longa possui grande ciclicidade. Se você buscar o gráfico de rendimento dos títulos mais longos (disponível no site do Tesouro) você verá que é uma verdadeira montanha russa, seguindo praticamente a mesma ciclicidade da nossa economia. Agora é um momento ilustrativo: estamos em um período de taxa mais elevada refletindo os receios do mercado em relação ao cenário fiscal, historicamente dizendo, é bem propensa que essa taxa passe a cair em breve, fazendo com que os ativos de renda variável subam forte. Vale lembrar também que um dos fatores da ciclicidade da taxa de juros é que ela não se sustenta por muito tempo em patamares elevados por conta dos efeitos econômicos: quanto mais tempo elevada, mais propensa a redução por conta da economia que potencialmente vai sendo desestimulada, demandando cada vez menos juros.

Em suma, todas essas quedas e volatilidade pode incomodar, mas a ciclicidade dos juros é um fator de conhecimento obrigatório de todo investidor. Às vezes você tromba com algum tipo de explicação mirabolante sobre a queda dos mercados, e a resposta é bem simples e pode ser traduzida num só gráfico como o que você viu acima.
Lembrando que esse efeito do juros futuro impacta o mercado de renda variável como um todo, e não só os FIIs – ações de empresas alavancadas (em especial do varejo) tendem a sofrer ainda mais por conta do aumento de custo de dívida e do menor estímulo ao consumo com taxas altas por mais tempo.

Não entre em pânico.

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Mais um trimestre de entrega de resultados das companhias da bolsa brasileira, e algumas conclusões podem ser tiradas com o que foi lido ate então.

No 3T22 nós realizamos a análise e leitura de uma boa quantidade de releases, e de forma geral, identificamos alguns pontos principais em comum entre todos eles. Elaboramos a tabela acima para explicar, consolidando o resultado de toda as companhias da bolsa que possuem liquidez com exceção da Petrobras, Vale, Suzano e Braskem – o motivo é o fato de que elas são gigantes demais e extremamente cíclias, distorcendo a análise caso a intenção seja a que temos aqui. Para se ter ideia, todas as empresas da bolsa faturaram R$ 847 bilhões, enquanto a Petrobras, sozinha, teve um faturamento de pouco mais de R$ 170 bilhões, eis a importância de saber tirar esses “outliers” na hora da análise. Vamos elencar os principais pontos que indificamos lendo todos esses resultados e o que achamos do futuro.

No período, a receita das companhias teve um crescimento forte, de quase 17% comparado ao mesmo trimestre do ano passado, bem acima da inflação acumulada no período, destacando a dinâmica que as empresas possuem de repasse de preço em momentos inflacionários. Por outro lado, O CPV (a principal linha que cresce quando a inflação está mais elevada) teve um crescimento de quase 22%. E esse é um ponto importante para considerar: a inflação ainda está machucando as companhias. Apesar do Brasil ter gozado de um breve período de deflação nos últimos meses, a inflação ainda é um problema sério que precisa ser enfrentado. Estamos longe da solução completa da alta de preços. De fato, tivemos uma melhora expressiva comparado ao cenário de 12 meses atrás, mas é irresponsável alegar que a inflação está resolvida e ainda mais irresponsável trabalhar com análises e projeções considerando que ela já está plenamente controlada. Ela não está e segue batendo em algumas companhias. Pelo lado positivo, está bem menos intensa do que no 1T22 e 2T22, mas ainda longe de estar resolvida. Esse é o primeiro ponto.

O segundo ponto é a linha do resultado financeiro das companhias. Esse é o destaque do trimestre, sem dúvidas. As receitas financeiras cresceram quase 27%, mas em contra partida, as despesas financeiras cresceram pouco mais de 23% e o resultado financeiro final teve um crescimento de prejuízo de R$ 35 bilhões no 3T21 para R$ 41 bilhões no 3T22, representando uma piora de quase 20%. Esse é o destaque pois essa linha é expressa basicamente pela SELIC: com o nosso ciclo de juros punindo completamente as empresas mais alavancadas, a linha de dinheiro direcionado a pagamento de juros cresceu forte no período e está resultando em destruição de valor evidente para diversas companhias. Algumas companhias tem trabalhado bem com essa alavancagem, vide Ambipar e e Fleury, mas outras estão com um cenário mais duro, vide Magazine Luiza e Via, que registraram prejuízo no resultado financeiro na ordem de R$ 600 milhões – um valor estratosférico de gasto com dívida. E mais uma vez batemos na tecla: se você investe em ações de empresas que se alavancam, sempre dê atenção para a linha do resultado financeiro. Sempre. Empresas sempre quebram crescendo, e essa quebra vem justamente do fato de que se alavancam demais e em momentos mais turbulento acabam não dando conta de arcar com a alavancagem. O investidor pode evidenciar os problemas da alavancagem aos poucos, trimestre a trimestre, vendo que a dívida só cresce, o resultado financeiro só piada e o perfil da dívida se deteriora, com um custo cada vez mais elevado e uma duração cada vez mais curta. Esse é o segundo ponto de atenção dos resultados, voltado somente para empresas de alta alavancagem. As que não se alavancam ou possuem baixa dívida, não é algo a se importar.
Como resultado final, o consolidado das empresas teve uma entrega de lucro líquido de apenas R$ 33 bilhões, representando uma queda de quase 40% comparado ao mesmo trimestre do ano passado. Essa queda brutal de lucro é explicada por (I) inflação ainda batendo na linha de custos, vide o CPV que citamos e (II) resultado financeiro com SELIC mais alta sugando todo o resultado operacional de algumas companhias para o pagamento de juros.

Entre outros fatores a citar, a dívida líquida das companhias cresceu quase 50%, se aproximando dos R$ 1 trilhão, parte resultante de queima de caixa e parte resultante de própria alavancagem com taxas altíssimas como a que já citamos, e a queda das margens, tanto bruta por conta do crescimento de CPV em linha com a inflação quanto a margem líquida por conta do consolidado que já inclui a SELIC altíssima cobrando pelo resultado financeiro.

Enfim, esse é apenas um ponto de vista sob um prisma mais generalista, que inclui todas as companhias da bolsa (com exceção das citadas por fatores de distorçã). A intenção do texto aqui presente é reforçar o que sempre citamos ao analisar empresas e falar sobre investimentos de longo prazo: o cenário está bem difícil para a maioria das companhias. Difícil por conta da SELIC, que tem cobrado forte pelo resultado financeiro de diversas companhias, e difícil por conta da inflação, que tem batido no CPV e comprimido margens com força.

Ainda que o cenário seja difícil, há diversas empresas vencedoras que demonstraram forte melhora de resultado. Exemplos: Porto Seguro conseguindo repassar a inflação para os prêmios emitidos e elevando forte as margens no período, M. Dias Branco conseguindo contornar o cenário caótico de preço do trigo que tem sido ainda mais dificultado por conta da guerra na Europa, Ambev conseguindo passar também a inflação pros produtos (lembranod que ela é fortemente impactada pelo preço do alumínio e trigo) e fazendo a manutenção das margens, Renner, mesmo com a pressão da SELIC retardando o consumo, conseguindo atingir suas margens de antes da pandemia e recorde histórico de receita, RaiaDrogasil também atingnido valores recorde em diversas linhas com a vantagem de atuação num setor extremamente dependente de escala e com demanda que não muda independente de preço... Enfim, você percebeu que todas essas companhias gozam da características de serem líderes de seus setores?

Há também o fato de que algumas companhias extremamente alavancadas terão uma porrada de aumento de lucro quando a SELIC abaixar. O risco atualmente é saber de fato quanto a SELIC irá abaixar: se o próximo governo tiver de fato irresponsabiliade sobre o cenário fiscal, há um risco da SELIC ficar mais tempo do que o esperado em patamares mais elevados ou até mesmo da SELIC aumentar no curto prazo, mas tudo isso é incerto. A questão é que essas empresas alavancadas irão voar quando a SELIC cair – e em algum momento ela vai. O exemplo que gostamos de dar é a Ambipar: o seu gasto com juros no 3T22 foi de aproximadamente R$ 160 milhões. Se a SELIC cair para algo próximo de 6,5% (uma taxa realista para o Brasil considerando um cenário de inflação controlada), seu lucro triplicará considerando zero aumento de receita somente pelo dinheiro que ela deixará de gastar para pagar sua alavancagem. E advinhe o que acontece com a empresa quando o lucro triplica? Pois é.

É por isso que falamos: estude e invista com sabedoria, mesmo com o cenário difícil, sempre existem as empresas vencedoras. Sempre. Empresas boas atravessam crises e se adaptam de acordo com o cenário, e quando a crise acaba, elas crescem ainda mais, ficam ainda mais fortes e aqueles que investem nelas prosperam juntos.
Quanto 4T22, será um período de datas festivas, muitas empresas baterão recordes de resultados (varejistas no geral) e há também a copa do mundo para impulsionar alguns negócios por um mês inteiro, ou seja, espere um 4T22 bem forte. Sobre o 1T23, não arriscaremos dizer nada até que tenhamos maior conhecimento sobre o cenário fiscal, os nomes dados pelo governo para os ministérios entre outros pontos de maior importância. A única coisa que podemos alegar é que a economia do país segue beneficiada pela alta das commodities, que mesmo arrefecidas de certa forma, continuam em um patamar de preço que gera vantagens para o Brasil.


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O resultado do terceiro trimestre do Bradesco foi um verdadeiro balde de água fria no mercado, ao menos a aqueles que gostam e analisam bastante o setor financeiro. Com um aumento de PDD forte no trimestre, a instituição entregou um lucro bem abaixo do esperado e tratou sobre sua expectativa em relação a deterioração do cenário de crédito do país, falando sobre a inadimplência que tem crescido cada vez mais e como os fundamentos tem piorado de forma mais rápida do que era esperado.

Os anos de 2020 e 2021 foram exceções nesse tema: com a pandemia, dívidas foram postergadas, taxas foram reduzidas e diversos indicadores foram para baixo por fatores não recorrentes. Hoje, quase em 2023, a conta desse momento chegou, e é justamente esse o ponto de preocupação que alguns tem. Para ilustrar melhor, usaremos alguns gráficos feitos pelo Guilherme Vieiro, da Armor Capital, e explicaremos de forma simples e breve o que tem acontecido, concluindo como isso pode afetar os grandes bancos no curto prazo. Vamos lá.

O primeiro gráfico se refere a quantidade de saldo da carteira de crédito total de cada linha respectiva. A azul escuro se refere ao crédito dado as pessoas jurídicas, enquanto a linha azul mais claro, se refere ao crédito dado as pessoas físicas.

Perceba como desde 2016 o crédito dado as pessoas jurídicas deu uma bela reduzida em virtude das crises do período. Por lógica, crises diminuem demanda por crédito visto que este é majoritariamente buscado por empresas para planos de expansão e investimento. A desalavancagem de algumas instituições públicas também corroboraram com essa queda. Em 2020, com um novo boom econômico se iniciando, esse número voltou a crescer forte, justamente pela expectativa dos agentes econômicos sobre a retomada da economia do país e a espera por um novo ciclo de crescimento.

Na outra linha, a de crédito dado as pessoas físicas, a desaceleração não ocorreu, e é aqui que surge o principal problema do texto que elaboramos. Desde 2020 o crédito concedido a pessoas físicas acelerou demasiadamente. A princípio, o crédito dado em si não é ruim, mas sim o perfil e a velocidade de crescimento, algo que explicaremos abaixo.

No segundo gráfico, segmentando a carteira de crédito das pessoas físicas, as duas maiores linhas de crescimento foram (I) recursos livros de cartão de crédito, basicamente o crédito concedido via cartão e que a pessoa pode utilizar com absolutamente qualquer coisa que bem entender, e (II) recursos livres total, que engloba todas as linhas de crédito sem direcionamento exato, vide empréstimos que a pessoa contrata também para utilização como bem desejar.

Esses dois números apontam problemas por terem maior inadimplência. Veja, se trata de linha de crédito sem direcionamento, crédito sem garantia, de menor qualidade, a linha de crédito que o banco está mais suscetível a perder por conta de calotes. Na relação de risco e retorno, para o banco, acaba compensando, afinal, é daí que vem aquelas taxas obscenas de quase 500% de crédto no rotativo do cartão ou empréstimos com taxas de 3% ao mês, mas o risco é justamente a inadimplência, o banco não conseguir reaver o dinheiro emprestado. E é o que o terceiro gráfico explica.


O terceiro gráfico se refere ao crescimento de inadimplência de cada segmento da carteira de crédito de pessoas físicas.

Todas as linhas de crédito estão demonstrando crescimento da inadimplência. O crescimento já era algo esperado, como mencionamos, os últimos 2 anos foram repletos de fatores não recorrentes, como postergação de cobrança de dívidas e redução de taxas por conta do período pandêmico, momento em que o orçamento das famílias foi fragilizado.

O problema de fato está na velocidade desse crescimento: a inadimplência está subindo bem mais rápido do que o esperado e já ultrapassou o nível que estava antes da pandemia, alcançando a inadimplência atingida na última crise, entre 2014 e 2016.
Ou seja, há uma conjunção de fatores negativos em relação ao crédito atualmente, e a SELIC no atual patamar tem pressionado ainda mais os indicadores, negativamente dizendo.

É aí que entra a expectativa sobre os grandes bancos que citamos. Bancões possuem perfil de crédito bem distintos. O Itaú e o Bradesco, por exemplo, tem maior exposição a crédito para pessoas físicas, o que pode ser levemente problemático num cenário de crise nesse aspecto. Levemente porque as instituições sabem dar crédito e suas carteiras são predominantemente de rating A+ (excelentes pagadores), mas isso não muda o fato de que o crescimento de PDD por fator de precaução possa ocorrer, vide o que o Bradesco fez no último trimestre.

Há também o fato de que esse crescimento de inadimplência pode causar um efeito dominó na economia, ora, como bem mostramos, grande parte desse crédito é dado via cartão de crédito. Como ficam as varejistas? Como ficam as empresas alavancadas que dependem desse consumo?

A intenção do texto é justamente mostrar como o cenário de crédito pode causar uma chacoalhada no setor bancário ou até mesmo na economia como um todo nos próximos meses, ainda mais a depender de como o Banco Central conduzirá a taxa de juros face ao novo governo que tomará a presidência em 2023, que abertamente já disse que pretende tomar medidas mais expansionistas que acabam gerando ainda mais pressão sobre o Banco Central que é o guardião da moeda e o responsável por domar a fera inflacionária que ameaça o nosso país todo santo mês.

Pode se dizer, mais uma vez, que o movimento do Bradesco foi preventivo, visto que é o banco com maior exposição a crédito dado as pessoas físicas, mas é nessas horas que a solidez de uma instituição se mostra importante: os gigantes podem balançar, mas atravessam e saem mais fortes. Em contrapartida, os menores que tem menor capacidade de absorção de crises, tendem a sofrer mais, e as vezes sequer conseguem atravessar.

Investir em solidez é um dos melhores caminhos para prosperar.

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A renda fixa não é tão fixa quanto a maioria pensa.

Quem compra um título e carrega até o vencimento, certamente não terá surpresas – mas isso é válido somente para quem carrega até o vencimento, coisa que nem todo mundo faz. É bem comum você ver investidores comprando títulos prefixados do próprio Tesouro tomando sustos ao descobrir que num momento de venda não planejada, a operação seria realizada com prejuízo e no final o ocorrido acaba não sendo compreendido.

A partir de janeiro de 2023, todos os investimentos de renda fixa passarão a ser marcados a mercado em seus respectivos sites de bancos, corretoras e afins. Explicamos e usaremos o NTN-B 2050 do Tesouro para exemplificar para vocês.

O gráfico acima é o retorno acumulado do título IPCA+ do Tesouro com vencimento em 2050. No gráfico, há duas linhas: a cinza, que segue consistentemente para cima desde o início, e a laranja, que também segue para cima, mas com maior volatilidade (uma volatilidade cavalar em alguns momentos, diga-se de passagem).

O que você precisa saber é: a rentabilidade que você vê hoje na corretora é a da linha cinza, o retorno acumulado sem a variação de preço do título, simulando o retorno que você tem caso segure o título até a data do vencimento, enquanto o retorno que você passará a ver na corretora será o laranja, que é com a oscilação de preço do título considerando o preço negociado no momento caso você deseje vender antes do vencimento na atual situação de mercado.

É daí que vem os dois termos: a linha cinza é o seu título “marcado na curva”, considerando seu retorno segurando até o vencimento, o que você contratou no momento de compra do título. A linha laranja é o seu título “marcado a mercado”, considerando seu retorno vendendo seu título no momento respectivo.

Essa volatilidade de retorno do título ocorre porque a taxa de rentabilidade do título varia. Ora, imagine que você comprou um título de dívida do Brasil que pague 3,0% a.a até 2050. Com toda a turbulência política, risco fiscal, incertezas e afins, o mercado passa a demandar cada vez mais taxa para financiar essa dívida (comprar os títulos) e isso fez com que a taxa no mercado subisse de 3,0% para 4,0% ao ano. O seu título automaticamente tem seu preço desvalorizado (o preço unitário dele cai, que chamam de PU) para justificar uma taxa mais alta, ou seja, você que comprou o título pagando 3,0% terá enfrentado essa desvalorização por conta da taxa que reduz o preço do título para aumentar a rentabilidade com o passar do tempo.

Mas calma: isso não é motivo de preocupação.

Ao mesmo tempo que seu título desvalorizou porque a taxa subiu (lembre-se: quando a taxa sobe, o preço do título cai para honrar uma taxa mais alta), você agora tem um título que rende mais. Se você segurar esse título até o vencimento, você não perderá dinheiro e receberá o valor que você contrata ao comprar o título da mesma forma. Nada muda.

O único risco existente, é o de você vender esse título antes do vencimento e ter que vende-lo a um preço abaixo do que você pagou – aí sim você perderá dinheiro, e é por isso que é necessário ao comprar um título prefixado ter tanta atenção e se organizar para não tem que realizar a venda do investimento em um mal momento, porque quem determina seu retorno antes do vencimento é o mercado, simplesmente.

Basicamente, essa será a alteração que ocorrerá em janeiro: na pratica, é algo que já ocorre, mas não aparece nas corretoras. Os investidores só não sabem, mas sempre foi assim. A partir de janeiro, em vez do investidor ver seu título marcado na curva, ele verá seu título marcado a mercado. E isso é excelente – evita que decisões desatentas sejam tomadas comprometendo o patrimônio do investidor.

Mais uma vez: se você carrega o título até o vencimento, pouco importa essa variação. Como você pode ver no gráfico, ao longo do tempo as duas rentabilidades caminham juntas, então não vai mudar absolutamente nada além da visualização do título.
Planeje-se bem antes de comprar títulos de vencimentos mais longos, principalmente os que possuem elemento de indexação prefixada. Quem determina o preço desses títulos, é o mercado. Você nunca perderá dinheiro carregando até o vencimento, mas há grandes chances de perder vendendo antes. A renda fixa pode não ser tão fixa assim caso você não tenha a organização necessária para cuidar dos seus investimentos.

Essa mudança não abrange CDBs, LCIs e LCAs, mas caso abranja algum investimento que você tenha, já fica o recado: não tome um susto quando você abrir o site da corretora no começo do ano que vem. A alteração ocorrerá já em janeiro e na prática não mudará absolutamente nada. É apenas um ajuste para os investidores ficarem cientes do real preço de negociação do título no momento. Mais uma vez: a linha cinza é a que você vê hoje, a linha laranja é a que você verá – elas significam a mesma coisa, te levam para o mesmo lugar.

Sempre invista de forma bem planejada, pensando no vencimento e absolutamente nenhuma dessas oscilações de taxa te preocuparão. Você sempre receberá o valor contratado no vencimento. Basta ter objetivos bem estabelecidos para não ter que realizar o desinvestimento de forma inesperada.

Sabemos que estamos sendo chatos, mas mais uma vez: não desespere ao abrir o site da corretora no começo do ano que vem. Na prática, nada mudou, sua rentabilidade não será estragada e o seu patrimônio não será dilapidado – sua rentabilidade continuará sendo a que você contratou para o vencimento.

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Breve demonstração de como o teto de gastos impacta nas variáveis econômicas.

Na imagem, os dados e projeções são da Wealth High Governance e mostram como o mercado interpreta cada linha de gasto. Basicamente, quanto mais gasta fora do teto, maior a pressão sobre o cenário fiscal do país, o que leva os títulos públicos a terem taxas cada vez maiores (aumento da curva de juros) e consequentemente o câmbio desvaloriza, a SELIC tem que ser elevada (para tentar frear parte da inflação que a desvalorização cambial causa) e o IPCA por si só dispara.

No nosso relatório do mês de novembro que será lançado na semana que vem, tratamos bastante sobre esse assunto, nos detalhes, com dados e explicações mais completas. Estará disponível no INT no dia 12.

Ou seja: o fiscal importa.
Para quem já leu alguma obra do Howard Marks, já ouviu dizer que um mercado perto das máximas sempre gera algumas evidências. Euforia demasiada nunca é bom: é em momentos do tipo que os ativos atingem preços injustificáveis e alguns investimentos ruins acabam sendo realizados. No texto abaixo, citamos 8 pontos que evidenciam essa euforia demasiada. Detalharemos um a um.

Muitos IPOs sendo anunciados: aqui o racional é bem simples (e meio perverso, mas realista), se há muito IPO sendo anunciado, é porque o mercado está cada vez mais propenso a tomada de risco, menos criterioso na seleção de ativos e comprando empresas cada vez piores. Sob a ótica dos empresários que realizam um IPO, isso é oportunidade pura, veja, imagine um cenário onde você pode abrir o capital da sua empresa na bolsa de valores valendo 5 vezes mais do que ele realmente valeria? Pois é.

Se sua memória é boa, você deve se lembrar de 2020 e 2021, com o boom de IPOs que o Brasil passou, com uma porrada de empresas tech que sequer se sustentam operacionalmente chegando a valer bilhões de reais e arrecadando centenas de milhões de reais em seus IPOs. Isso é um sinal de euforia claro do mercado.

Não é em vão que em momentos de crise, você vê poucos IPOs ou até mesmo empresas cancelando a realização de abertura de capital que havia programado. Em um mercado de menor liquidez e menos eufórico, os investidores são bem mais seletivos e não saem comprando qualquer ativo que aparece. Ou seja, se há um claro boom de IPOs, acenda o alerta – é porque a liquidez está altíssima, os agentes econômicos cada vez mais propensos ao risco e é justamente essa propensão que começa a causar distorções cada vez mais maiores no mercado.

Crédito abundante: Esse ponto não trata diretamente sobre a bolsa de valores, mas sim sobre um fator econômico que diz muito. Sabe quando você vê o iFood dando cupons e mais cupons para você comer praticamente de graça, empresas dando taxas zero em serviços que claramente possuem custos altos ou varejistas dando crédito sem qualquer critério de análise de risco mais responsável? É um sinal.

Geralmente isso acontece no topo do ciclo pois é o momento em que a economia está extremamente aquecida, com o consumo nas alturas, a taxa de juros baixa e a ambição dos agentes econômicos lá em cima. Veja, a época que tivemos SELIC de 2% é exemplo claro disso.

Era bem fácil para o iFood contratar dívida e dar cupom de refeição quase de graça para todo mundo se financiando pagando 2% ao ano – agora com a SELIC em quase 14%, o jogo muda. Não é em vão que você está vendo fintechs cobrando mais pelos seus serviços, essas empresas techs sem dar seus cupons maravilhosos e coisas do tipo. A euforia já passou, estamos na baixa do ciclo e dinheiro está caro – o crédito em um cenário assim é mais escasso, e consequentemente, os ativos se encontram mais baratos pois os agentes econômicos estão menos propensos a tomar risco. O inverso é verdadeiro.

Preços dos ativos subindo de forma acelerada: o famoso bull market. Você se lembra de 2020 e 2021, quando semanalmente os ativos disparavam para cima e não havia qualquer notícia capaz de jogar um balde de água fria no mercado? Literalmente tudo subia.

Não importava o quão horrível era uma companhia: fosse ela quase falida, sem sustentabilidade operacional, com um endividamento fora de controle, com um crescimento negativo ou prejuízos cada vez maiores... ela valorizava. Esse movimento de valorização orquestrado do mercado é sinal de altíssima liquidez, sinal de que os investidores estão comprando tudo o que aparece pela frente simplesmente para aproveitar a situação do mercado – e aí se cria o cenário de ciclo perverso que forma uma bolha. Os investidores compram porque acham que vai subir, as ações sobem porque os investidores compram e assim fica até a insustentabilidade. Daí saem as anomalias de ativos valendo 500 vezes o lucro e coisas do tipo. Desconfie de subidas imparáveis.
Excesso de otimismo: você já ouviu aquela história do engraxate? Bem, resumindo, diz a lenda que certo diz John Rockfeller foi engraxar os seus sapatos e o menino que realizava o serviço começou a falar sobre ações com ele. Além do assunto, o tom era de puro otimismo, professoral, de conselho, com expectativas espetaculares sobre o mercado no aguardo do rápido enriquecimento. Com isso, John realizou a venda de todos seus ativos partindo da premissa de que uma bolha se tornava cada vez maior, visto que se até o engraxate já estava falando e ensinando sobre mercado, é porque algo estava errado (sim, é esse tom duro de certo preconceito que se da a história). Há um fundo de razão nessa lenda.

Quando estamos no topo do ciclo, o mercado começa a ser abordado por todos e em todos lugares. Isso ocorre pois todos são seduzidos pelo ganho de dinheiro fácil – e é com isso que o mercado infla cada vez mais, investidores que não fazem a mínima ideia sobre o que estão fazendo, investindo no aguardo de ganhar dinheiro sequer sem ter uma forma de reconhecer quão bom ou caro um ativo é ou está.

No topo do ciclo você verá portais não especializados no assunto tratando sobre ações, você verá todos falando sobre ações, você verá podcasts sobre ações nos canais mais inusitados, você verá pessoas forçando que a especulação (daytrading, principalmente) é algo válido e viável sem sequer saber como operar direito e assim por diante. O otimismo toma conta, todos se sentem atraídos pelo mercado, todos acham que vão enriquecer rápido e desconhecem completamente sobre os ciclos existentes – ciclos que sempre tratamos em nossos relatórios com gráficos e afins.

Otimismo excessivo é veneno, cega, enviesa, atrai pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão fazendo porque gera a expectativa de que haverá ganho fácil de dinheiro – e quem está há mais tempo no mercado sabe bem que isso não existe e o dinheiro só vem com o tempo, muito tempo. Ciclos.

Volume muito alto nos mercados: muito giro e muita movimentação – é disso que trata esse ponto. Quando falamos sobre volume, nos referimos ao volume de dinheiro que roda no mercado, a quantidade de negociações.

Basicamente, quanto mais eufórico o mercado, mais o volume sobe e atinge níveis fora da média registrada. Isso acontece por dois motivos: (I) novos entrantes no mercado, refletindo justamente o que citamos mais acima, com investidores de primeira viagem que saem comprando ativos sem quaisquer critérios por achar que o mercado é um meio fácil de criação de riqueza, e (II) aumento da especulação, fator que parte tanto de investidores institucionais, que sabem da situação e se aproveitam para tirar dinheiro dos investidores menores, mais novos e menos preparados – os famosos tubarões, por assim dizer, e também por conta dos investidores pequenos que se acham especuladores preparados e cedo ou tarde entregam todo seu patrimônio aos especuladores profissionais. Sim, existem especuladores profissionais.

Fundos de investimentos que possuem equipes com dezenas de cabeças, ferramental de custa milhares de dólares mensais, bancos de dados com petabytes de registros históricos sobre absolutamente qualquer fator que você imaginar, capital para movimentar o preço aos próprios sabores, contatos para saber de notícias de movimentam o mercado antes da grande massa... esses são os grandes profissionais. É por isso que sempre falamos que investidor pessoa física que se aventura pelo daytrading irá perder dinheiro uma hora ou outra – são esses seus oponentes. São esses os especuladores que ficam 18h sentados na frente de 6 monitores arrancando dinheiro dos que acham que especular com somente um celular na mão é possível.

Especular não é piada e muito menos lenda, a questão é que a régua é alta e o jogo é de gente grande. Daí surge um volume gigante de negociação, muito giro, muita movimentação e fica claro como os agentes econômicos estão mais propensos a tomada de risco pelo excesso de liquidez e afins.
Valuations nas máximas históricas: dificilmente há justificativa para uma ação com o preço sobre lucro em 500x. Acredite, é uma obviedade que precisa ser tratada.

No auge da euforia de 2020 em nosso mercado, a Magazine Luíza, queridinha que pouco tempo depois se tornou odiada por tantos, chegou a negociar num preço sobre lucro de quase 500x, sim, a empresa chegou a valer quase 500 vezes o seu lucro. Se você realizasse um cálculo simples precificação de ativo num guardanapo mesmo, veria que para ela conseguir justificar o preço sobre lucro que negociava, precisaria crescer seu lucro coisa de mais de 30% ao ano por anos.

A Magazine Luíza é apenas um exemplo que gostamos de dar porque falamos bastante sobre ela nessa época, atentando a nossa audiência para tomar extremo cuidado com a euforia pois não havia uma conta possível que justificasse que a empresa fosse crescer tanto, a não ser que houvesse algum tipo de expansão para fora do país ou algo do tipo, o que é praticamente impossível

Em temos de euforia do mercado, o valuation fica extremamente esticado. Empresas começam a negociar com múltiplos nunca registrados antes, atingindo as máximas históricas com números cada vez mais obscenos. Obviamente que a análise somente do preço sobre lucro é pobre e não deve ser feita – o indicador aponta para dados passados, e ao investir, o investidor deve olhar para o futuro. Algumas vezes esse número fica distorcido e de nada adianta a análise, por isso um cálculo um pouco mais preciso deva ser utilizado, mas ainda assim, sempre desconfie de valuation muitos esticados. Sempre. Na euforia, investidores passam a ignorar completamente os conceitos mais básicos dos investimentos por conta de viés e de um emocional mais fraco, derivado daquele efeito manada. E isso nos leva a um outro ponto que está relacionado com esse...

O mantra do “dessa vez é diferente” sendo repetido: esse ponto é cômico e simbólico. Você provavelmente já ouviu, no meio de alguma explicação sobre tese de investimento, alguém mandar o famoso “dessa vez é diferente”. Acredite, isso não é novo – tem livro de investimento por aí da década de 60 que aborda essa fala. Sim, há 60 anos já tinha alguém falando “dessa vez é diferente”.

A própria Magazine Luiza pode servir de exemplo para nós aqui. Enquanto ela negociava a um múltiplo obsceno de quinhentas vezes o seu lucro, alguns investidores, com teses bem desenvolvidas e extremamente mirabolantes, traçavam narrativas dizendo que “dessa vez era diferente”, que esse crescimento seria justificado por conta do e-commerce que estava crescendo a ritmo acelerado, por conta do crescimento econômico do país que estava causando maior propensão ao consumo de produtos de linha branca da companhia, por conta disso, por conta daquilo... seguido, sempre de um “dessa vez é diferente”.

Fuja de qualquer tese que aborde esse mantra. Corra. Não dê ouvidos. Essa expressão é o ápice do viés. O investidor pode estar certo? Claro, mas provavelmente não estará – é só ele mesmo se recusando a aceitar a realidade construindo uma ideia paralela que não conversa de fato com os números. Aquela dor de aceitar que o investimento foi equivocado ou será.

Quando o mercado está eufórico, essa frase é falada pelos quatro cantos. A empresa só tem prejuízo? “ah, dessa vez é diferente!”. A empresa tem um operacional que não se sustenta? “ah, dessa vez é diferente!”. A empresa negocia a um preço sobre lucro matematicamente injustificável? “ah, dessa vez é diferente!”. Provavelmente não é diferente, na verdade, é igual o que sempre é, um investidor enviesado tentando justificar sua euforia sob o falso véu da racionalidade.

Essa frase é marcante. Lembre-se muito bem dela. Sempre.

Mercados alternativos em alta: para fechar com chave de ouro, não poderíamos deixar de citar os mercados alternativos. Talvez você já tenha percebido o que estamos falando aqui... lembra das imagens .png dos macacos que chegaram a valer alguns milhões de reais? Pois bem.
Quando falamos sobre mercados alternativos, estamos falando sobre tudo: mercado de luxo (relógios), mercado de artes, mercados de criptos... Quando o mercado está demasiadamente eufórico, esses mercados alternativos sobem feito foguete. O motivo é simples: liquidez alta, dinheiro sobrando na praça e qualquer opção de investimento se torna válida.

Por isso citamos os NFTs de macacos. No auge da bolha do ano passado, a sandice estava tão descontrolada que tinha gente pagando quase uma dezena de milhão em .png de macacos, pedras e afins. Da pra justificar isso? Talvez, abordando sobre lavagem de dinheiro e afins, mas se você ver esses mercados passando por um forte boom, é sinal que a liquidez já saiu de controle, e se a liquidez saiu de controle, pode ter certeza que o mercado já está eufórico e próximo do topo.

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