𝐎 𝐇𝐨𝐦𝐞𝐦 𝐝𝐨 𝐒𝐮𝐛𝐬𝐨𝐥𝐨
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Devaneios envoltos em arte, literatura, filosofia e metafísica.
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Para mundos inexplorados eu voo,
Triste é a cidade sem o teu olhar animador.
Desde que você se foi, não conheço nenhum afeto,
E, embora em meio a multidões, pareço estar sozinho.
Nenhum medo da solidão assola minha alma,
Aonde quer que eu vá, tua imagem nunca falha.
Preso com os grilhões do amor, um amante distraído,
Eu te busco pelo mundo e uso tua corrente
Seja na seda ou nas rosas do prado
Eu trilho; todos os caminhos levam a nada, exceto a ti,
Ó vegetação com espinhos, e com sarças rudes,
Retardam meu amor, e todas as minhas esperanças iludem.
Eu disse, ai de mim! A minha vida dou-a de graça;
Privado de ti, não desejo viver.
Um espírito sussurrou-me ao coração paciência,
que hoje, por um instante, eu poderia partir.


- Jami, “Solitude


@Homemdosubsolo
7
Uma análise da obra de Johan Kemper revela uma tentativa constante de aplicar a concepção da Trindade ao sistema do Zohar. Por exemplo, ele divide os Treze Atributos de Misericórdia de forma que os três primeiros personificam a Trindade, e os dez restantes, as Sefirotes. Essa interpretação tem paralelos na Cabala Cristã (como em Pico della Mirandola), mas também no pensamento sabatiano (como em Nehemiah Hayyun, que provavelmente preservou tradições do mestre de ambos, Cardozo).
No entanto, Kemper raramente usa a terminologia sabatiana explícita, como 'três nós da fé'. Sua linguagem é mais velada. Ele identifica o Filho (o Messias) não apenas com a Sefirot de Chokhmah (Sabedoria), como na Cabala Cristã, mas o descreve em um estado dinâmico, com múltiplos 'rostos' e manifestações – Filho, Filha, Noivo, Noiva – movendo-se entre as Sefirot. Essa concepção de um Messias dinâmico, que desce ao mundo material ('encarnação') e cujo status muda (revelado vs. oculto), é muito mais característica da teologia sabatiana do que da cristã. A ideia de um dualismo entre o 'Deus de Israel' oculto e o 'Criador' revelado, central no sabatianismo, parece ecoar na teologia de Kemper.

- Shifra Asulin

@Homemdosubsolo
2
Partir ! Partir ! É a força do destino,
Aquela sombra negra, atrás de mim...
Um adeus me persegue de menino;
Para dizer adeus ao mundo vim.

Sou sempiterno adeus ! vou-me encarnando
Nas formas do meu próprio padecer...
Desgrenhadas figuras, soluçando,
Dizem-se adeus, nos longes do meu ser !

Adeus! O carro foge. O sol desmaia...
Um gesto, um lenço tremulando, ao vento...
Depois, a tarde agreste que se espraia,
Numa onda de negro sentimento.

E vejo confundir-se a minha aldeia
Com as nuvens, além dos horizontes...
Dela me fala a triste lua cheia,
Que, em seu alvor, negrejam ermos montes.

E vejo o teu perfil imaculado,
Como esculpido em branda e etérea mágoa;
De suave e distante, é já sagrado.
Ante os meus olhos de alma, rasos de água.

Nos teus campos, divagas, a cismar,
Cantando aquela trágica elegia
De quem sozinho, à noite, no seu lar,
Vê sombras, fogo extinto, cinza fria...

E as aves inocentes, que a ternura
Veste de etéreas asas, pelo espaço.
Ouvindo os teus cantares de amargura,
Mortas, virão cair no teu regaço.

Eu vejo-te, sofrendo... A minha dor
Lembra a imagem vivente do teu rosto.
Sofrer é ser contigo, eterna Flor,
Que deste vida eterna ao meu desgosto.

Agora viverei de tudo quanto
É mais que tua angélica presença;
Isso que, no teu ser, é já meu canto
E em lágrima divina se condensa.

Por aqui, meu Amor, irei vivendo
Da sombra que teu vulto, em mim, deixou,
Quanto te disse adeus e o sol, morrendo,
Nos teus olhos — tão negros! — se ficou...

Viverei duma eterna Despedida,
Por esse mundo, ao Deus-dará da sorte;
Longe de ti, que és a minha vida.
Perto de mim, que sou a minha morte!


Teixeira de Pascoaes, “Adeus
👏4
(...) O diálogo no jardim tem uma elevação romântica, e mesmo aqui o que é mais figurativo e rico em fantasia está sempre unido à simplicidade, na qual se reconhecem os impulsos imediatos do coração. Que doces segredos a onisciência do poeta nos revela! Apenas a Noite Silenciosa pode ser testemunha dessas queixas comoventes, dessas altas garantias, dessas confissões, dessa despedida e retorno. Como Julieta se apressa para atar o nó indissolúvel! A cena também não é de forma alguma indiferente. Sob o céu claro, ao olhar para o qual Romeu pode bem comparar os olhos de Julieta às estrelas, cercados por árvores cujas copas a lua orla com prata, os amantes estão sob a influência mais imediata da natureza, como se estivessem libertos das relações mecânicas da sociedade.


August Schlegel e Caroline Schelling, "Sobre Romeu e Julieta: O horizonte na crítica alemã" (Tradução por Astralis)


@Homemdosubsolo
8
"Allégorie du Paradis de Dante", by Clément Massier.
5
Saudade do tempo
Do tempo passado,
O tempo feliz
Que não volta mais.

Deus queira que um dia
Eu encontre ainda
Aquela inocência
Feliz sem saber.

Mas hoje que eu sei
De toda a verdade
Já não acredito
Na felicidade,

E quando eu morrer
Então outra vez
Pode ser que eu seja
Feliz sem saber.


Dante Milano, "Saudade do Tempo"


@Homemdosubsolo
9💔3
(...) ele afastou-se cada vez mais das realidades da vida e, acima de tudo, da sociedade da sua época, que ele via com um horror cada vez maior — uma aversão que teve um forte impacto nos seus gostos literários e artísticos; ele recusava-se, na medida do possível, a ter qualquer contacto com imagens e livros cujos temas estivessem de alguma forma relacionados com a existência moderna.


Joris-Karl Huysman, "À Rebours"

Pintura: "Selbstbildnis am Kamin", Victor Krämer.


@Homemdosubsolo
3👍2
Nicholas Roerich, Mongólia (1927).


@Homemdosubsolo
👏422
Sim, foi lá,
próximo ao cabo de Lêucade,
onde os seixos são limpos
polidos como ovos de pombo pela onda,
que te conheci pela primeira vez, Atena,
com um corpo de adolescente, com o pensamento leve!

Como duas pedras arremessadas ao mar plácido:
o círculo de uma adentrando no da outra,
sem que a circunferência se rompa –
Tu entrastes em minha alma
como a alma de uma irmã em seu irmão!


Ángelos Sikelianós, trecho do poema "Τα ξωματα"


@Homemdosubsolo
3👍2🤩1
Através da magia da alegria, o grande caos das formas conflitantes se dissolve em um harmonioso mar de esquecimento. Quando a luz solar da felicidade é refratada pela última lágrima de anelo, Íris já está pintando a eterna testa do céu com as delicadas cores de seu arco-íris. Os sonhos felizes se tornam realidade, e os contornos de um novo mundo surgem das ondas de Lete, belos como Anadiômena, desdobrando as suas formas no lugar das trevas varridas. Na juventude dourada e na inocência, tempo e homem vagam entre a paz divina da natureza; e a Aurora sempre retorna, cada vez mais bela.


Friedrich Schlegel, "Lucinde"


Pintura: "La Poète" (detalhe), Henri Martin.


@Homemdosubsolo
12
Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim, e grego (mas com dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. MAS, TUDO MAL. Eu acho que estudar o espírito e o mecanismo das outras línguas ajuda muito a compreensão mais aprofundada do idioma nacional. Principalmente, porém, estudo-as por divertimento, gôsto, distração.


Guimarães Rosa, trecho de carta-entrevista para Lenice Guimarães de Paula Pitanguy


@Homemdosubsolo
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Como Al-Ghazali lembra em seu Ihya’ Ulûm ad-Dîn, a visão de Deus faz os “aproximados” (muqarrabûn) esquecerem das houris e serem conduzidos à união suprema. Este é também o caso daqueles que, tendo entrado no “Paraíso de Amitaba”, lá concluem a realização do Nirvana, isto é, eles são reintegrados no princípio da grande dissolução que marca o fim de todo o ciclo humano.


Frithjof Schuon, "Comprendre l'islam"


@Homemdosubsolo
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Forwarded from Cercle Proudhon
O americanismo, como expressão extrema da modernidade, é a forma mais perigosa da democracia: nela se consuma a completa ausência de mundo, sob o disfarce da igualdade e da liberdade.

Heidegger, Cadernos Negros (1938–41)
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Na doutrina zoroastrista, após a morte, a alma tem de atravessar a Ponte do Juíz, que é larga para os virtuosos, mas bastante estreita para os pecadores. Da mesma forma, uma antiga canção do norte da Inglaterra cantada em velórios referia-se à «ponte do terror, não mais larga do que um fio». Saxo (1. 8. 14 p. 30) conta como o rei Hading foi levado por uma bruxa para ver o submundo e como eles atravessaram uma ponte sobre uma torrente de água azul-escura, na qual armas de vários tipos eram transportadas. Depois que Baldr foi morto, Odin enviou seu filho Hermodr a Hel para oferecer um resgate pela libertação de Baldr; Hermodr cavalgou por nove noites e então chegou à ponte sobre o rio chamado Gio


Martin L. West, “Indo-European Poetry and Myth


@Homemdosubsolo
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