𝐎 𝐇𝐨𝐦𝐞𝐦 𝐝𝐨 𝐒𝐮𝐛𝐬𝐨𝐥𝐨
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Devaneios envoltos em arte, literatura, filosofia e metafísica.
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Netuno vibra o cérulo tridente, Fere a terra com ele, e treme a terra, E às águas c’o tremor franqueia o seio. Em brava rapidez correndo os rios, Já dos campos se apossam, já derrubam, Já consigo arrebatam plantas, gados Gentes, habitações, e os Lares santos.
Se há por dita edifício que não caia, Se algum resiste ao pavoroso estrago, A torrente voraz lhe cobre os tetos; Tremendo as torres, ameaçam queda, Rotas, cavadas pelo embate undoso.
Já se confunde o pélago co’a terra, Já tudo é mar, ao mar já faltam praias.


Ovídio, "Metamorfoses"


Pintura: "Travel of Poseidon by Sea", Ivan Aivazovsky.


@Homemdosubsolo
4❤‍🔥4
Forwarded from Cabo Das Tormentas
Esperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.


I. Dom Sebastião

-Fernando Pessoa, em Mensagem. Canto Sétimo, os Símbolos.
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Já tivemos a ocasião de salientar que o mundo ocidental não tem à sua disposição outra língua sagrada que não o hebraico (...) É evidente que se o hebraico pode desempenhar esse papel no ocidente, é em razão da afiliação direta que existe entre as tradições judaica e cristã, bem como a incorporação das escrituras hebraicas nos livros sagrados do próprio cristianismo; mas alguém pode se questionar sobre como pode o cristianismo não possuir uma língua sagrada própria, um fato verdadeiramente excepcional, que o diferencia de outras tradições.

Aqui é especialmente importante não confundir as línguas sagradas com aquelas que são simplesmente litúrgicas: para uma língua cumprir esse último papel, é suficiente que ela seja ‘fixada’, dispensada das variações continuadas das quais as línguas vernaculares geralmente sofrem, enquanto as línguas sagradas são exclusivamente aquelas em que as escrituras de diferentes tradições são expressas. A partir desse ponto, é evidente que cada língua sagrada é, ao mesmo tempo, e com toda a razão, a língua ritualística ou litúrgica da tradição a qual ela pertence, mas o inverso não é verdade. Desse modo, o grego e o latim, assim como outras línguas antigas, podem perfeitamente desempenhar o papel de língua litúrgica para o cristianismo, mas elas não são de modo algum línguas sagradas em si mesmas: e mesmo que suponhamos que elas algum dia tiveram tal reputação, o tiveram em tradições que agora estão perdidas, em que o cristianismo obviamente não possui afiliação.


René Guénon, "Aperçus sur l'ésotérisme chrétien"

@Homemdosubsolo
👍5
"Beethoven Listening to Muse", by Ludovic Alleaume.
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Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,
com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,
jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas —
assim são os desejos que um dia feneceram
sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes
o prazer de uma noite ou a manhã luminosa.


Konstantinos Kaváfis, "Desejos"


@Homemdosubsolo
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O submundo, o ventre da terra, é a perigosa terra dos mortos na qual o falecido deve passar, ou para ser julgado e recebido no reino ctônico, ou para adentrar em uma nova e mais elevada existência.


Erich Neumann, "The Great Mother"


@Homemdosubsolo
5👍1
A disciplina transforma a natureza animal em natureza humana.


Immanuel Kant, "On Education"


@Homemdosubsolo
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Nos mitos greco-romanos, o cipreste é a árvore do submundo, associada a Plutão. Nesse contexto, é a árvore do cemitério, um sinal de luto, um emblema da tristeza e da morte, um símbolo do silêncio entre as tumbas.


Robert L. Delevoy, “Symbolists and Symbolism

Pintura: “The Isle of the Dead”, Arnold Böcklin.


@Homemdosubsolo
7
Forwarded from Cabo Das Tormentas (AR)
Feliz dia dos 4 Arcanjos (29/09)

Miguel
Gabriel
Rafael
Uriel

Imagem: Four Archangels, St. John's Church, Warminster, Wiltshire, Inglaterra.
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Meditei acerca das várias religiões, forçando-me a compreendê-las, e percebi que elas emanam de um único princípio com numerosas ramificações.


Mansur Al-Hallaj, "Diwan"


@Homemdosubsolo
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Para mundos inexplorados eu voo,
Triste é a cidade sem o teu olhar animador.
Desde que você se foi, não conheço nenhum afeto,
E, embora em meio a multidões, pareço estar sozinho.
Nenhum medo da solidão assola minha alma,
Aonde quer que eu vá, tua imagem nunca falha.
Preso com os grilhões do amor, um amante distraído,
Eu te busco pelo mundo e uso tua corrente
Seja na seda ou nas rosas do prado
Eu trilho; todos os caminhos levam a nada, exceto a ti,
Ó vegetação com espinhos, e com sarças rudes,
Retardam meu amor, e todas as minhas esperanças iludem.
Eu disse, ai de mim! A minha vida dou-a de graça;
Privado de ti, não desejo viver.
Um espírito sussurrou-me ao coração paciência,
que hoje, por um instante, eu poderia partir.


- Jami, “Solitude


@Homemdosubsolo
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Uma análise da obra de Johan Kemper revela uma tentativa constante de aplicar a concepção da Trindade ao sistema do Zohar. Por exemplo, ele divide os Treze Atributos de Misericórdia de forma que os três primeiros personificam a Trindade, e os dez restantes, as Sefirotes. Essa interpretação tem paralelos na Cabala Cristã (como em Pico della Mirandola), mas também no pensamento sabatiano (como em Nehemiah Hayyun, que provavelmente preservou tradições do mestre de ambos, Cardozo).
No entanto, Kemper raramente usa a terminologia sabatiana explícita, como 'três nós da fé'. Sua linguagem é mais velada. Ele identifica o Filho (o Messias) não apenas com a Sefirot de Chokhmah (Sabedoria), como na Cabala Cristã, mas o descreve em um estado dinâmico, com múltiplos 'rostos' e manifestações – Filho, Filha, Noivo, Noiva – movendo-se entre as Sefirot. Essa concepção de um Messias dinâmico, que desce ao mundo material ('encarnação') e cujo status muda (revelado vs. oculto), é muito mais característica da teologia sabatiana do que da cristã. A ideia de um dualismo entre o 'Deus de Israel' oculto e o 'Criador' revelado, central no sabatianismo, parece ecoar na teologia de Kemper.

- Shifra Asulin

@Homemdosubsolo
2
Partir ! Partir ! É a força do destino,
Aquela sombra negra, atrás de mim...
Um adeus me persegue de menino;
Para dizer adeus ao mundo vim.

Sou sempiterno adeus ! vou-me encarnando
Nas formas do meu próprio padecer...
Desgrenhadas figuras, soluçando,
Dizem-se adeus, nos longes do meu ser !

Adeus! O carro foge. O sol desmaia...
Um gesto, um lenço tremulando, ao vento...
Depois, a tarde agreste que se espraia,
Numa onda de negro sentimento.

E vejo confundir-se a minha aldeia
Com as nuvens, além dos horizontes...
Dela me fala a triste lua cheia,
Que, em seu alvor, negrejam ermos montes.

E vejo o teu perfil imaculado,
Como esculpido em branda e etérea mágoa;
De suave e distante, é já sagrado.
Ante os meus olhos de alma, rasos de água.

Nos teus campos, divagas, a cismar,
Cantando aquela trágica elegia
De quem sozinho, à noite, no seu lar,
Vê sombras, fogo extinto, cinza fria...

E as aves inocentes, que a ternura
Veste de etéreas asas, pelo espaço.
Ouvindo os teus cantares de amargura,
Mortas, virão cair no teu regaço.

Eu vejo-te, sofrendo... A minha dor
Lembra a imagem vivente do teu rosto.
Sofrer é ser contigo, eterna Flor,
Que deste vida eterna ao meu desgosto.

Agora viverei de tudo quanto
É mais que tua angélica presença;
Isso que, no teu ser, é já meu canto
E em lágrima divina se condensa.

Por aqui, meu Amor, irei vivendo
Da sombra que teu vulto, em mim, deixou,
Quanto te disse adeus e o sol, morrendo,
Nos teus olhos — tão negros! — se ficou...

Viverei duma eterna Despedida,
Por esse mundo, ao Deus-dará da sorte;
Longe de ti, que és a minha vida.
Perto de mim, que sou a minha morte!


Teixeira de Pascoaes, “Adeus
👏4
(...) O diálogo no jardim tem uma elevação romântica, e mesmo aqui o que é mais figurativo e rico em fantasia está sempre unido à simplicidade, na qual se reconhecem os impulsos imediatos do coração. Que doces segredos a onisciência do poeta nos revela! Apenas a Noite Silenciosa pode ser testemunha dessas queixas comoventes, dessas altas garantias, dessas confissões, dessa despedida e retorno. Como Julieta se apressa para atar o nó indissolúvel! A cena também não é de forma alguma indiferente. Sob o céu claro, ao olhar para o qual Romeu pode bem comparar os olhos de Julieta às estrelas, cercados por árvores cujas copas a lua orla com prata, os amantes estão sob a influência mais imediata da natureza, como se estivessem libertos das relações mecânicas da sociedade.


August Schlegel e Caroline Schelling, "Sobre Romeu e Julieta: O horizonte na crítica alemã" (Tradução por Astralis)


@Homemdosubsolo
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