𝐎 𝐇𝐨𝐦𝐞𝐦 𝐝𝐨 𝐒𝐮𝐛𝐬𝐨𝐥𝐨
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Devaneios envoltos em arte, literatura, filosofia e metafísica.
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Há uma melancolia inata, doce - nunca cruel - nas obras de Khnopff - a melancolia de Bruges, a melancolia medieval, monástica.


Pol de Mont, "Het schildersboek. Deel 5. Vlaamsche schilders der negentiende eeuw"


Obra: "in Bruges. A Church", Fernand Khnopff.


@Homemdosubsolo
2🔥2
Com ledo rosto e coração festivo,
Seguindo o atalho do regato á beira,
Entro ás vezes na selva que peneira
Orvalho e sol, como um dourado crivo.

Fronte ensombrada, aspecto pensativo
De arvores mil, abobada altaneira
De entraçados festões, – estranho e vivo
Templo, arcadas de lucida madeira ;

Passaros, flores, petalas ungidas
De orvalho, errantes plumas coloridas,
Rios, penhascos, sol esplendoroso,

Claros de céu radiando em flóreo prisma...
Tudo, ajoelhado e tremulo, me abysma,
Cego de assombro e extatico de goso.


Alberto de Oliveira, "Magia Selvagem"


Pintura: "Brazilian Forest", Martin Johnson Heade (1864).


@Homemdosubsolo
👍6
Não sou o mártir de uma causa, sou o mártir do ser.


Emil Cioran, "Cadernos: 1957–1972"


@Homemdosubsolo
👍2
O Poeta é um doido errando sempre além,
Que d´este mundo, em vida, se desterra...
É o ser divino e pálido que tem
Na alma toda a luz, no corpo toda a terra.



Teixeira de Pascoaes, "Cantos Indecisos V"


@Homemdosubsolo
4🔥4👏2
Lembra-te do teu Criador nos dias da mocidade, antes que venham os dias da desgraça e cheguem os anos dos quais dirás: “Não tenho mais prazer.”


Eclesiastes 12:1


Pintura: "The Hermit", Charles Landseer.


@Homemdosubsolo
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(...) Isto porque a beleza é exigente: é um chamamento para renunciarmos ao nosso narcisismo e olharmos para o mundo com reverência. [...] Portanto, como viram quer Platão quer Kant, o sentimento da beleza é algo que não está longe da mentalidade religiosa, surgindo da consciência humilde de se viver com imperfeições, ao mesmo tempo que se aspira à mais elevada unidade com o transcendental.


Roger Scruton, Beleza


Escultura: "Pietà", Michelangelo.



@Homemdosubsolo
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A leitura, desde a adolescência, dos escritos órficos e dos Padres da Igreja havia orientado Sikélianos para essa Gnose que conquistou tantos adeptos na Igreja primitiva. Sincretismo? Em parte, e conforme as tradições populares gregas. Seus dois grandes poemas, Mãe de Deus e A Páscoa dos Gregos, mostram o quanto ele realizou em si a fusão total dos mitos antigos e da religião cristã ou, melhor ainda, o quanto alcançou a unidade divina — que pode ser tanto a unidade heraclitiana dos contrários quanto a unidade órfica.


Renée Jacquin, "Anghélos Sikélianos, Une Voix Orphique"


@Homemdosubsolo
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Ela [a natureza] é a única artista, criando contraste extremo a partir do material mais simples, a maior perfeição aparentemente sem esforço, a clareza mais definida sempre velada com um toque de suavidade. Cada uma de suas obras tem seu próprio ser, cada um de seus fenômenos tem uma ideia separada e, ainda assim, todos criam um único todo....


Johann Wolfgang von Goethe, "Metamorphosis of Plants"


Ilustrações feitas por Goethe.


@Homemdosubsolo
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Literatura
34%
Filosofia
34%
Religião, metafísica
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O mar aos peixes nítidos é dado,
Aves ao ar, quadrúpedes à terra.
A estes animais faltava um ente
Dotado de mais alta inteligência,
Ente, que a todos legislar pudesse:
Eis o homem nasce, e – ou tu, suprema Origem
De melhor Natureza, e quanto há nela,
Ou tu, pasmoso artífice, o formaste
Pura extração de divinal semente,
Ou a terra ainda nova, inda de fresco Separada dos céus, lhe tinha o germe.



Ovídio, "Metamorfoses" (Livro I)


Pintura: "La Rentrée du troupeau le soir", Octave Denis Victor Guillonnet.


@Homemdosubsolo
❤‍🔥9
Certa vez, ao pôr do sol, Jesus e os seus discípulos
estavam a caminho, fora dos muros de Sião,
quando de repente chegaram ao local onde a cidade
há anos despejava o seu lixo: colchões queimados
de leitos de doentes, panelas partidas, trapos, imundície.

E ali, no topo da pilha mais alta, inchado,
com as patas apontando para o céu, jazia o cadáver de um cão;
e quando os corvos que o cobriam voaram
ao ouvirem os passos que se aproximavam, um fedor tão forte
subiu dele que todos os discípulos, com as mãos
sobre o nariz, recuaram como um só homem.

Mas Jesus calmamente caminhou sozinho
em direção à pilha, ficou ali parado e então olhou
tão de perto para a carcaça que um discípulo,
incapaz de se conter, gritou à distância:
“Rabi, não sente esse cheiro terrível?
Como pode ficar aí parado?”

Jesus, com os olhos fixos na carcaça,
respondeu: “Se a sua respiração for pura, sentirá
o mesmo cheiro dentro da cidade atrás de nós.
Mas agora a minha alma se maravilha com outra coisa,
se maravilha com o que sai dessa corrupção.
Olha como os dentes daquele cão brilham ao sol:
como granizo, como um lírio, além da decadência,
uma grande promessa, espelho do Eterno, mas também
o relâmpago severo, a esperança da Justiça!”

Assim falou Ele; e quer os discípulos
tivessem compreendido ou não as Suas palavras, seguiram-no
enquanto Ele seguia em frente, em silêncio.

E agora, Senhor, eu,
o menor dos homens, reflito sobre as Tuas palavras
e, cheio de um único pensamento, estou diante de Ti:
concede-me, agora que caminho fora da minha Sião,
e o mundo de ponta a ponta está todo em ruínas, lixo,
todos os cadáveres não enterrados sufocando as sagradas
fontes de respiração, dentro e fora da cidade:
conceda-me, Senhor, enquanto caminho por este fedor terrível,
um único momento da Tua santa calma,
para que eu, desapaixonado, também possa fazer uma pausa
entre esta carniça e com os meus próprios olhos
em algum lugar ver um símbolo, branco como granizo,
como o lírio — algo brilhando repentinamente
no fundo de mim, acima da putrefação,
além da decadência do mundo, como os dentes do cão
que Tu contemplaste com admiração, Senhor, naquele pôr do sol:
uma grande promessa, espelho do Eterno, mas também
o relâmpago severo, a esperança da Justiça!


Ángelos Sikelianós, Ἄγραφον


@Homemdosubsolo
22
"A primeira razão para a escravidão interior do homem é sua ignorância, e acima de tudo, sua ignorância de si mesmo. Sem autoconhecimento, sem entender o funcionamento e as funções de sua máquina, o homem não pode ser livre, não pode governar a si mesmo e sempre permanecerá um escravo, e o brinquedo das forças que atuam sobre ele.
É por isso que em todos os ensinamentos antigos a primeira exigência no início do caminho para a libertação era: ‘Conhece-te a ti mesmo’."

— Gurdjieff


@CanalMajestosaMente 👁
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14👍3
Na rósea e bem-aventurada luz do alvorecer, aqui estou eu;
eu subo com as mãos estendidas.
A serenidade divina do mar convida-me a lançar-me nos éteres azuis...
Mas ah! Os sopros repentinos da terra, que afluem ao meu seio
e sacodem-me inteira.
Ó Zeus, o mar está pesado, e os meus cabelos soltos pesam como rochas!
Brisas, venham, Ó Cymothoe, Ó Glaukê; venham,
Sustentem o meu torso!
Jamais esperava encontrar-me assim,
subitamente subjugada aos braços do sol.


Ángelos Sikelianós, Ἀναδυομένη


Pintura: "The Birth of Venus",
Adolf Hiremy Hirschl.


@Homemdosubsolo
🔥32
Quando falamos sobre a ideia de transmitir uma tradição, imediatamente associamos tal ideia a uma relação pessoal, a encontros ou à convivência estreita e, de fato, essa é a forma mais comum, mais natural e mais desejável. No entanto, no mundo da Tradição, não é a única maneira. Não devemos nos esquecer que a fonte da Tradição é perene e, portanto, pode manifestar-se onde e como quiser. A questão “tempo-espaço” é importante para nós, no mundo condicionado. No entanto, a “Tradição”, a “Sabedoria Perene”, está além dessas limitações. Nas diversas tradições não são raros os exemplos de cadeias de transmissão onde há lapsos enormes de tempo e de espaço. Mestres e discípulos que nunca se encontraram pessoalmente e que nasceram e morreram com séculos de distância e em países longínquos.


André Otávio Assis Muniz


Pintura: "Pythagoreans celebrate sunrise", Fyodor Bronnikov.


@Homemdosubsolo
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No início, o poeta e o sacerdote eram um só, e só posteriormente as eras os separaram. O poeta mais elevado é sempre um sacerdote, assim como o sacerdote mais elevado é sempre apenas um poeta da fé.


Novalis, "Pollen"


@Homemdosubsolo
13👍2
Dali parte o caminho que leva às ondas do infernal Aqueronte, agitado sorvedouro, com um abismo de lama que vomita todo seu limo no Cócito. Um barqueiro horrendo guarda aquelas águas e o rio, Caronte, de horripilantes imundice, de cujo queixo cai comprida barba branca descuidada; seus olhos lançam chispas, em seus ombros está amarrado um manto sórdido. Ele mesmo empurra com a vara o barco, dirige as velas e transporta os corpos em uma barca cor de ferro. É velho, mas sua velhice é viva e bem disposta como a de um deus. Ali, uma multidão inteira precipitava-se apressada para a margem do rio, matronas e varões, corpos sem vida de heróis mangnânimos, meninos e donzelas impúberes, jovens que foram levados à pira funerária diante dos olhos dos pais...


Virgílio, "Eneida" (Livro VI)


Pintura: "La barca de Caront", José Benlliure y Gil.


@Homemdosubsolo
321👍1
Além da poesia, da metafísica e do misticismo, nada tem valor. Qualquer participação em agitações temporais é perda de tempo e desperdício inútil.


— Emil Cioran, Carta à Aurel


@Homemdosubsolo
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[Eles] chegam aos lugares aprazíveis e às risonhas veredas dos bosques afortunados, morada dos bem-aventurados [Elísio]. Um éter mais amplo veste esses campos de uma luz purpúrea; os moradores têm um sol e astros que lhe são próprios. Alguns, na relva, exercitam os membros em jogos de destreza, medem suas forças e lutam sobre a fulva areia; outros batem os pés cadenciadamente e cantam versos. O vate da Trácia, com sua túnica comprida, acompanha os cantos e danças com os acordes da lira, que faz vibrar ora com os dedos, ora com o plectro de marfim. Lá se encontra a velha progênie de Teucro, formosa posteridade, heróis magnânimos, nascidos em melhores tempos, ílus e Assaraco e Dardano, fundador de Tróia.


Virgílio, "Eneida" (Livro VI)


Pintura: "Aeneas Meeting with His Father in the Elysium", Sebastian Vrancx.


@Homemdosubsolo
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